França

Um Lyon no meio do caminho

O “duelo olímpico” no Vélodrome tinha um ar de cerimônia de entrega da faixa de campeão. O Lyon, heptacampeão em decadência, passaria as honras para o Olympique de Marselha, em boa fase na Ligue 1 e no meio de uma ferrenha disputa contra o Bordeaux. Quando o público esperava por uma convincente atuação do OM, veio a surpresa. O OL resolveu dar seu último suspiro e, no limite de suas forças, permitiu-se um último golpe antes de perder o trono. Os lioneses ganharam por 3 a 1 e fizeram a alegria dos girondinos, agora líderes e com uma vantagem de três pontos a duas rodadas do final.

O combate no Vélodrome colocou frente a frente Hatem Ben Arfa e Karim Benzema. Ex-companheiros de Lyon, agora cada um defendia seu peixe e tinha seus motivos para fazer deste jogo o mais importante de suas vidas. Ben Arfa tinha a oportunidade de cravar uma adaga no peito de seu ex-clube, que pouco o aproveitou. Já Benzema pretendia recuperar seu prestígio, ofuscado pela campanha claudicante do OL em 2009. Levou a melhor o atacante lionês, autor de dois gols no primeiro tempo que calaram a torcida marselhesa.

E o OM pagou justamente por sua apatia característica do primeiro tempo. Nervosos com a importância do confronto e pelo peso de bater um adversário do tamanho do Lyon, os marselheses se enrolaram em cada jogada voltada para frente. Nada dava certo e Lloris passava os minutos sem se incomodar nem tocar na bola. Os erros se multiplicavam e os lioneses aproveitaram para marcar. Brandão foi ajudar a defesa e se tornou vilão ao cometer pênalti em Éderson. O sistema defensivo voltou a falhar quando deu toda a liberdade do mundo para Benzema fazer 2 a 0.

Ben Arfa até se esforçou para levar os donos da casa para frente, mas seu individualismo inútil provocou a ira da torcida, que o presenteou com vaias. As duas bolas na trave no primeiro tempo foram apenas uma amostra de como a sorte estava contra os marselheses. A arbitragem deixou passar um pênalti claro em cima de Niang no começo da segunda etapa, o que certamente mudaria os rumos da partida. Com o OM cada vez mais tenso e pressionado, o Lyon nada mais fez do que esperar sua hora, como nos velhos tempos.

Eric Gerets não conseguiu repetir a magia das partidas anteriores. O treinador manteve o esquema 4-5-1 vitorioso contra o Nice, mas desta vez o resultado foi péssimo. Na frente, Brandão e Ben Arfa ficaram devendo. Niang, por sua vez, teve que se desdobrar para compensar o dia ruim de seus companheiros ofensivos. E, em um momento tão decisivo, fica difícil explicar falhas como as cometidas por Civelli e Mandanda em dois gols lioneses. O tão sonhado título pode ter escapado pelas mãos na hora em que a defesa mais precisava demonstrar solidez.

Os contra-ataques lioneses se mostraram perigosos e Benzema perdeu a grande chance de matar a partida. Um ex-Lyon ainda apareceu para quase estragar a vida de sua antiga equipe. Se Ben Arfa não brilhou, Wiltord deu sangue novo aos anfitriões ao diminuir a dez minutos do fim. Nessa hora, despontou a estrela de Juninho Pernambucano. O meia, que começou o duelo no banco de reservas, entrou em campo e mostrou-se mais uma vez decisivo ao definir o resultado com uma de suas cobranças de falta. Nada mais emblemático para um OL que se redescobriu, mas tarde demais.

Méritos de Claude Puel, que colocou seu time para frente ao barrar Juninho e escalar Delgado no apoio a Benzema na frente. Com os espaços concedidos pela defesa marselhesa, ambos tiveram facilidade para explorar jogadas em velocidade. Até mesmo a defesa, falha em diversas ocasiões nas últimas partidas, voltou a transmitir segurança com atuações tranquilas de Cris e Boumsong. Se demorou para acordar na briga pelo título, ao menos o Lyon mostra alguma força para se garantir na próxima Liga dos Campeões.

Bordeaux em êxtase

São dois meses saboreando apenas o doce gosto do triunfo. O Bordeaux completou uma série de nove vitórias e, com a mais recente delas, assumiu a liderança isolada da Ligue 1. Os 3 a 2 sobre o Le Mans tiveram doses generosas de emoção no Chaban Delmas, mas elas só terminariam no dia seguinte. A derrota do Olympique de Marselha para o Lyon deixou os Marine et Blanc ainda mais perto da taça. Agora, três pontos separam girondinos e marselheses, a duas rodadas do final do campeonato. O OL, de favorito absoluto ao título, tornou-se figura importante na definição de seu sucessor.

Cabia ao Bordeaux ir para cima do Le Mans para fazer um bom resultado o mais rápido possível. A vitória colocaria uma grande pressão sobre os ombros do Olympique (como mais tarde se viu no Vélodrome e deixou os jogadores do OM nervosos), mas havia também a necessidade de se fazer um saldo de gols considerável. Afinal, os girondinos estavam em desvantagem neste critério de desempate e um detalhezinho poderia definir o futuro campeão.

E foi assim que os comandados de Laurent Blanc iniciaram o duelo. Trémoulinas logo acertou a trave, mas o Bordeaux não apresentava a mesma eficiência de seus jogos passados. O Le Mans montou um bloco defensivo compacto e apostou nos contra-ataques como arma, até para explorar esse esperado avanço dos donos da casa. Os visitantes acabaram premiados com o gol marcado por Le Tallec. O MUC 72, porém, cometeu um erro: achar que o jogo estaria definido se recuassem e segurassem o resultado.

Quando Gourcuff está inspirado, podem esperar por uma reação quase imediata dos girondinos. E assim se fez. A pressão do Bordeaux se tornou insuportável para a defesa do Le Mans, que viu o meia participar do gol de empate, virar o placar e comandar seu time com objetividade e precisão nos passes. Tudo isso antes do intervalo. Ah, e Fernando ainda acertou a trave, para ajudar a nocautear os adversários.

Na segunda etapa, o Bordeaux seguiu na mesma toada, mas no primeiro vacilo levou o gol e empate, outra vez com Le Tallec. Com uma maturidade digna de um campeão, o time manteve a calma, levantou-se e manteve o ritmo forte. Com quase 70% de posse de bola, os Marine et Blanc transformaram a partida em um ataque-defesa. Uma hora, a muralha do Le Mans cairia por terra. O responsável pela destruição? Gourcuff.

Ele esteve na origem do lance do terceiro gol, quando acertou a trave e, no rebote, Planus definiu a vitória por 3 a 2. Mesmo com o Bordeaux um nível abaixo da média de suas últimas apresentações, a diferença a seu favor esteve no fato de contar com um jogador que vive um momento iluminado. Enquanto Gourcuff estiver inspirado, dificilmente os girondinos sairão de campo derrotados. A esta altura, um fator decisivo para quem deseja colocar as mãos na taça.
 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo