França

Tropa de choque

Após algum mistério, Didier Deschamps foi confirmado como o novo treinador da seleção francesa. As evidências indicavam que esse era mesmo o caminho a ser seguido pelo ex-técnico do Olympique de Marselha, muito embora a Federação Francesa (FFF) tenha tentado despistar algo já esperado. Assim, ele substitui Laurent Blanc, seu amigo e ex-colega dos Bleus no cargo. Logo de cara, dá para se esperar algumas mudanças na equipe.

Apesar da proximidade sugerir que Deschamps e Blanc tenham personalidades semelhantes, a realidade mostra que ambos seguem linhas diferentes de trabalho. Como jogadores, eles representaram a geração mais vitoriosa da história do futebol francês. Além dos títulos conquistados com a camisa azul, eles se tornaram referência por conta de seus papéis de destaque em importantes clubes europeus.

Pode-se argumentar que Blanc transmite essa mesma imagem vencedora exibida por Deschamps; afinal, ambos são símbolos de uma França forte e que despertava respeito em seus adversários – algo distante da atual realidade. No entanto, isso não significa dizer que DD terá o mesmo destino de seu antecessor no comando da seleção francesa. As semelhanças entre eles terminam por aí.

Para começar, Deschamps tem uma experiência bem maior do que a de Blanc como treinador. Ele já passou por Monaco, Juventus e Olympique de Marselha e sempre esteve envolvido ao menos na disputa por um título em sua passagem por estes clubes. DD começou a treinar em 2001, seis anos antes do que seu amigo. Esta maior rodagem oferece ao novo líder dos Bleus um melhor jogo de cintura, algo que faltou durante a disputa da última Eurocopa.

No jogo político, Deschamps chega com total apoio de Noël le Graët, presidente da FFF e que lhe deu carta branca para fazer seu trabalho à frente dos Bleus. O dirigente, claro, também se beneficiou com a escolha do novo técnico. Ao optar por um nome que agrada aos torcedores e aos diferentes níveis do futebol nacional, Le Graët ganha preciosos pontos (para não dizer votos) para se reeleger no cargo.

Além disso, Le Graët deu todas as garantias necessárias a Deschamps para fazer seu trabalho de forma tranquila. Não se trata apenas do contrato por quatro temporadas (atrelado à classificação para a Copa do Mundo-2014), mas também pelas condições de trabalho oferecidas ao treinador. DD encontra um ambiente bem mais positivo do que o vivido por seu antecessor. O prestígio de Blanc com a diretoria da entidade já começou a cair logo no início, quando o então treinador dos Bleus bateu o pé para ter uma comissão técnica numerosa, formada por 23 pessoas. Le Graët nunca escondeu seu desconforto com isso e se mostrava incomodado em pagar uma folha salarial tão alta.

O momento da seleção francesa exige um treinador mais rígido, com personalidade forte o suficiente para coibir comportamentos de rebeldia e que mostre haver um comando firme, mas sem ser autoritário. A primeira tentativa de se apagar o vexame dado na África do Sul foi com base no diálogo, o ponto forte de Blanc para conseguir o sucesso quando esteve à frente do Bordeaux. No entanto, a fórmula não surtiu efeito nos Bleus exatamente na hora quando a equipe mais precisava provar sua força.

Os casos de indisciplina vistos na Euro-12 provaram que o diálogo não era uma tática forte o suficiente para restabelecer a ordem dentro da seleção. O resultado foi o resgate daquela imagem fracassada do Mundial-2010, com um grupo rachado e com o foco disperso. Blanc teria dado certo se pegasse um grupo em um estágio mais evoluído, quando uma conversa já serviria para passar sua mensagem de forma eficiente.

A França precisa de um tratamento de choque e Deschamps demonstrou ter esta firmeza, principalmente quando passou pelo Olympique de Marselha. Ele não titubeou em afastar Hatem Ben Arfa e André-Pierre Gignac, cujos comportamentos e desempenhos em campo destoavam dos demais. Apesar das críticas e da pressão por sua atitude com dois jogadores tidos como destaques, DD ganhou a batalha e, mais tarde, foi reconhecido por tomar a decisão correta.

Deschamps faz valer suas ideias e bateu de frente com a diretoria do Olympique de Marselha para defendê-las. Essa teimosia em suas convicções, porém, pode lhe render cobranças excessivas e catalisar seu desgaste à frente da seleção. Ao menos suas convicções parecem longe daquelas defendidas por Raymond Domenech, mais próximas de alucinações e desprovidas de qualquer lógica.

A escolha por Deschamps se mostra acertada, mas ela deveria ter acontecido há dois anos. Muito embora o trabalho dele possa ser classificado como datado, até por sua forte personalidade favorecer o rápido desgaste, os Bleus precisam passar por este tratamento de choque com urgência.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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