Troca de comando

O Rennes enfim teve um início de temporada promissor. Em 2007/08, o clube aparecia em terceiro lugar na 12ª rodada da Ligue 1 e dava a impressão de que até teria chances de brigar pelo título. Nos anos anteriores, os bretões fraquejaram em seus primeiros jogos, mas faziam um segundo turno exemplar e por pouco não conseguiram uma vaga na Liga dos Campeões. Quando tudo parecia rumar para um desfecho diferente, o time começou a perder sem parar. Foram seis derrotas consecutivas, que custaram a cabeça do técnico Pierre Dréossi. Agora, Guy Lacombe assume o cargo com a responsabilidade de fazer a equipe dar a mesma arrancada e voltar a sonhar.
A contratação de Lacombe teve direito a um jogo de cena bem sincronizado. Depois da derrota para o Caen por 2 a 1 no sábado, Dréossi se reuniu com a diretoria do clube bretão. O treinador saiu com a certeza de que permaneceria no cargo, enquanto seu concorrente jurava com todas as forças não ter sido procurado por qualquer clube. Algumas horas depois, no entanto, lá vinha o comunicado oficial dos Rouge et Noir para desmentir a tudo e a todos.
O mais engraçado nessa história foi saber quem indicou o nome de Lacombe para a direção do clube foi o próprio Dréossi. Apesar de deixar o comando da equipe, ele segue com grandes poderes no Rennes, agora como uma espécie de diretor-geral. O novo treinador chega com a missão de tirar o clube do marasmo – e sua personalidade parece ser a ideal para este tipo de trabalho.
Lacombe estava longe dos holofotes desde sua saída do Paris Saint-Germain na metade da temporada passada. Sua passagem pelo clube da capital foi um fracasso. Conhecido por ser autoritário e por fazer valer sempre sua vontade, Lacombe logo criou desavenças em um grupo repleto de ‘estrelas’ (ou que pelo menos se comportavam como tal). Na época, Vikash Dhorasoo e Jérôme Rôthen se desentenderam com o técnico, o que iniciou o processo de desagregação do elenco. Com um time desunido e ameaçado pela zona de rebaixamento, o treinador foi substituído por Paul Le Guen.
No Rennes, Lacombe encontrará um ambiente no qual se mesclam tanto fatores positivos para seu sucesso como possíveis focos negativos, exatamente como encontrou no PSG. Por um lado, o técnico terá a chance de lidar com a melhor estrutura das categorias de base da França. Ele sempre dirigiu seus olhares para os jovens vindos dos centros de formação e certamente saberá lapidar os talentos da equipe com um bom trabalho, sem queimar etapas e no ritmo adequado de adaptação.
Se a tranqüilidade por estar em um clube médio diminui de forma considerável a pressão sobre seus ombros, Lacombe encontrará um problema parecido com o vivido no PSG. Mickaël Pagis, Jérôme Leroy e Sylvain Wiltord são jogadores de forte personalidade e desde já ‘se candidatam’ a discussões mais acaloradas. Quando esteve no Sochaux, o técnico sentiu na pele essa dificuldade ao lidar com Pagis. Hoje, o jogador tem contra si o fato de não despertar tantas paixões na torcida, que costuma pegar no seu pé por suas atuações abaixo do esperado.
Com um bom faro para descobrir bons jogadores (ele indicou um tal Didier Drogba ao Guingamp), Lacombe pode muito bem acertar algum reforço para reequilibrar o time. Falta ao Rennes um pouco mais de confiança, traduzida na falta de gols marcados apesar das boas chances criadas. Com o estilo mais ‘linha dura’ do novo treinador, a equipe deve entrar nos eixos e voltar a incomodar.
Empate revelador
Contra o Bordeaux, o Olympique de Marselha ainda tinha vivo na memória o fracasso na Liga dos Campeões. Restava agora apagar o fiasco com a goleada por 4 a 0 sofrida em casa para os Reds, que limitou o time à disputa da Copa Uefa, e concentrar-se na recuperação na Ligue 1. Aos marselheses, caberia a tarefa de derrubar um jejum de 30 anos sem derrotar os girondinos no Chaban-Delmas. O OM quase conseguiu a façanha, mas voltou a tropeçar em seu velho problema de falta de confiança.
Mesmo na casa do inimigo, o Olympique saboreou alguns momentos de amplo domínio sobre seu adversário. Montado num 4-3-1-2, o OM logo mostrou a que veio com o gol de Niang logo no primeiro minuto. O Bordeaux, acostumado a tomar as rédeas da partida sempre quando joga diante de sua torcida. A desvantagem mexeu com os ânimos dos girondinos, sem saber muito bem como se recuperar de golpe tão prematuro.
Os Marine et Blanc foram obrigados a correr atrás da bola, em vez de impor seu estilo de jogo mais cadenciado. Ao explorar os toques rápidos, o OM logo ampliou o marcado com Cheyrou. Os marselheses tinham a partida na mão em apenas 30 minutos de bola rolando, mas perderam o controle de forma incrível. Como em outros confrontos, a instabilidade tomou conta do time comandado por Eric Gerets. O Olympique não aprende como se deve administrar uma vantagem e logo paga o pato por essa fraqueza.
Chamakh diminuiu aos 33, o que abalou os adversários. Esse mesmo pânico se viu em jogos decisivos da LC: quando precisava manter o toque de bola, forçar o erro do rival com uma marcação mais adiantada ou mesmo explorar os contra-ataques, o OM se retrai na defesa. Uma atitude covarde, castigada pelos Marine et Blanc na segunda etapa. Laurent Blanc mexeu muito bem no time ao colocar Jussiê e Cavenaghi exatamente para pressionar ainda mais a defesa rival. Deu certo, e os anfitriões arrancaram um empate – poderiam até mesmo virar o marcador em duas chances desperdiçadas pelo argentino (uma na trave, outra defendida com muito esforço por Mandanda).
Gerets, com a mudança em seu esquema tático, tentou bloquear o criativo e ofensivo meio-campo do Bordeaux (formado por três jogadores voltados para armação/criação, além de dois atacantes). O belga escalou três meias defensivos e dois atacantes mais abertos, em uma tentativa de manter a bola dominada por mais tempo em seus pés. O esquema funcionou por 30 minutos. Por mais paradoxal que seja, este estilo de jogo deixou a defesa mais exposta do que o tradicional 4-5-1 utilizado anteriormente.
Embora desta vez Taiwo tenha feito um bom jogo, o Bordeaux aproveitou-se bem dos grandes espaços deixados nas laterais. Para quem conta com um jogador rápido como Jussiê, trata-se de uma estratégia arriscada chamar o adversário para seu campo, ainda mais com tanta liberdade para atuar. Gerets ainda faz alguns testes e conta com problemas na defesa (Givet e Rodriguez estão machucados), mas o treinador precisa mudar com urgência o comportamento de seus jogadores em campo. Não se pode correr o risco de levar uma virada quando se faz 2 a 0 fora de casa com certa tranqüilidade. O problema principal do Olympique está em seu psicológico.


