Torre de Babel
Enquanto patina na Ligue 1, o Paris Saint-Germain conseguiu seu objetivo traçado para a fase de grupos da Liga dos Campeões: terminar na primeira colocação de sua chave. Ao bater o Porto por 2 a 1 no Parc des Princes, o time da capital teve a certeza de que pode, sim, encarar um adversário de peso semelhante na competição, o que certamente dá ao elenco mais confiança quanto à possibilidade de ir longe na LC.
O contraste entre o PSG claudicante da Ligue 1 e o time que derrotou o Porto talvez se explique bem nas palavras de Salvatore Sirigu. Para o goleiro, a equipe se dá melhor quando atua contra equipes que permitem um pouco mais de espaço em campo. Algo que não acontece com tanta frequência no Campeonato Francês e seus times preocupados em se defender a qualquer custo.
O triunfo teve significados bem mais importantes do que a confirmação do primeiro lugar do grupo aos parisienses. Em termos de LC, dá ao time uma chance maior de evitar rivais mais fortes nas oitavas de final, muito embora isso possa acontecer. O principal efeito deste 2 a 1 está fora de campo. Em primeiro lugar, alivia a pressão sobre o técnico Carlo Ancelotti, em meio a rumores sobre uma possível demissão, e também sobre Leonardo, sempre criticado quando o time não responde em campo.
O fôlego conquistado ameniza a tensão no vestiário. Embora ninguém assuma publicamente ou tente colocar panos quentes no assunto, há um nítido racha no elenco. De um lado, estão os ‘francófonos’; do outro, os ‘estrangeiros’, formado por aqueles que se comunicam em italiano e mal sabem falar algo além de ‘oui’. Esta divisão criou muito mais do que as naturais dificuldades de comunicação entre os jogadores e evoluiu para a formação de temidas panelas que em nada contribuem para o bom relacionamento dentro do grupo.
Diante do Porto, este racha ficou em segundo plano, pelo menos. Ancelotti montou o time em um 4-4-2 bem compacto, sem aqueles espaços entre as linhas deixados em partidas anteriores. A postura do time também foi um pouco diferente, com um pressing inicial que complicou a saída de bola da equipe portuguesa. A blitz deu certo e as oportunidades para marcar apareciam sem grandes dificuldades.
A recompensa veio com o gol de Thiago Silva, mas logo o Porto soube aproveitar um dos raros descuidos da defesa anfitriã para igualar. Ainda superior na partida, o PSG manteve a tática da primeira etapa. Destaque para a atuação de Javier Pastore, deslocado para o lado esquerdo. O meia argentino, enfim, conseguiu mostrar aquilo que dele se espera desde sua contratação: boa movimentação, tranquilidade para armar as jogadas e controle completo do ritmo de jogo.
Já o Montpellier encarou os reservas do Schalke 04 por uma despedida digna. Os campeões franceses saíram de campo com a cabeça erguida com o empate por 1 a 1. Em um gramado em péssimas condições, o eliminado MHSC teve alguns motivos para comemorar. Rémy Cabella justificou sua escolha pelo técnico René Girard, que deixou Younès Belhanda no banco de reservas.
O principal fato foi, sem dúvida, a atuação destacada de Emanuel Herrera. Contratado por € 3 milhões e tratado como o substituto de Olivier Giroud, o atacante desperdiçou suas primeiras oportunidades como titular. Com desempenho pálido, ele ficou no banco em sete das oito últimas partidas da equipe na Ligue 1, na qual marcou apenas dois gols. Diante dos Azuis Reais, o argentino foi decisivo.
O gol marcado no Schalke 04 coroou seu trabalho diante dos adversários. Herrera deixou de lado aquela timidez do início da temporada e se mostrou presente na área. Pediu bola, serviu como referência aos companheiros ao abrir espaços e atrair a marcação e foi uma ameaça constante. O Montpellier espera que o despertar do argentino simbolize a recuperação da equipe na temporada.
O retorno do leão
O Lyon está em estado de graça na Ligue 1. Golear o Olympique de Marselha por 4 a 1 em pleno Vélodrome se trata de tarefa para poucos. Pelo torneio, o OM não perdia em casa desde 11 de abril (um 3 a 1 para o Montpellier, que logo mais se tornaria campeão). O mesmo MHSC que caiu por 1 a 0 em Gerland. O OL desbancou os favoritos e deixa no ar a velha pergunta: a máquina lionesa está de volta?
O Lyon adotou um discurso humilde, que combina com seu momento atual. O clube não nada em dinheiro como o PSG e foi obrigado a se readequar nas últimas temporadas. Nada de investimentos pesados como outrora; a ordem para economizar se refletiu na formação da equipe, repleta de jovens vindos das categorias de base. Se em 2011/12 o time oscilou demais e ficou fora da zona de classificação para a Liga dos Campeões, agora a equipe parece ter entrado nos eixos.
Tudo conspira a favor do Lyon neste momento. Bafétimbi Gomis vive excelente fase. O atacante, autor de três gols sobre o OM, reencontrou o caminho das redes e voltou a ser chamado com frequência para a seleção francesa – algo que sem dúvida o ajudou ainda mais a recuperar a confiança. Jogadores como Lisandro López, Michel Bastos, Yoann Gourcuff e Steed Malbranque também enterraram seu passado cheio de lesões. A boa forma física destas peças fundamentais para a equipe, claro, tem efeito direto sobre os demais atletas.
Com os medalhões em alta, os jovens alçados ao time titular também ganham em segurança e aprendizado. Nomes como Grenier, Lacazette e Ghezzal se sentem mais confortáveis na equipe, já que os para-raios funcionam de forma eficiente. A molecada não se sente jogada aos leões famintos e com a obrigação de pegá-los à unha. Há ainda o entrosamento adquirido nos times da base, essencial para que também não se sintam completamente perdidos em meio aos nomes de maior destaque.
Jean-Michel Aulas falou sobre a necessidade de vender dois jogadores para reequilibrar as contas do Lyon, mas talvez reveja seus conceitos. Vale lembrar que o OL Griupe teve perdas da ordem de € 28 milhões na temporada 2010/11 e precisa tapar este buraco. O desempenho da equipe, porém, faz o presidente adotar outro discurso, um pouco mais otimista, para o fim deste ano. Para que ninguém saia, a ordem é clara: manter-se no topo e conquistar o simbólico título de inverno.
O OL terá pela frente desafios complicadíssimos para confirmar sua boa fase. O primeiro deles será o dérbi contra o Saint-Étienne no caldeirão de Geoffroy-Guichard. O ASSE tem uma motivação extra para o jogo: a possibilidade de diminuir a distância para o Lyon para apenas dois pontos. Duas rodadas depois, os lioneses encaram seu maior desafio ao visitar o PSG no Parc des Princes. Se sobreviver aos dois duelos, a equipe dará provas concretas de que está mais do que no páreo na briga pelo título.
O maior problema está na questão física. O Lyon deu claros sinais de cansaço diante do Montpellier, sobretudo durante o segundo tempo, quando foi mais pressionado. A tática de recuar e resistir ao máximo ao ataque dos rivais deu certo contra o MHSC, mas não dá para aguentar para sempre sem sofrer danos.


