França

Thuram: “Se o futebol não fosse política, não seria o esporte mais importante do mundo”

Thuram deu uma longa entrevista ao Marca, na qual falou sobre racismo, violência e o futebol como instrumento político

Lilian Thuram é uma das vozes mais importantes do futebol, justamente porque não se restringe a falar apenas sobre o esporte. O ex-defensor é um ativista na luta contra o racismo e se engaja de diferentes maneiras na questão – inclusive com sua instituição, chamada de Fundação Educação contra o Racismo. Mais recentemente, Thuram lançou um livro, intitulado ‘La Pensée Blanche’ (O Pensamento Branco), para analisar a construção do racismo como discurso e quem se beneficia com isso. Nesta semana, o francês concedeu uma longa entrevista ao Marca. Nela, conversou sobre racismo e violência, mas se debruçou sobre tantos outros temas, inclusive o futebol como ferramenta política. A bola, em si, seria apenas um chamariz. Abaixo, a tradução:

Futebol é política

“Não acho que o futebol representa um risco como ferramenta política, é um chamariz. Não há nada mais político que o futebol, ele vende o sistema econômico em que vivemos, você não pode estar fora da política porque tudo é política. Quando vejo que os jogadores não devem se pronunciar sobre certos temas, não acredito nisso. Se o futebol não fosse política, não seria o esporte mais importante do mundo. A Copa do Mundo é política. O futebol não pode ser alheio ao mundo que o rodeia e o futebol pode ser usado para mudar a sociedade e torná-la mais justa. Porque seu impacto é enorme, as pessoas funcionam através das emoções e podem ser enviadas mensagens. E é por isso que, quando as pessoas não se ajoelham, é uma mensagem política. Quando você não se ajoelha, está dizendo que a violência do racismo não é grave. Tudo é política, por isso é preciso educar os jogadores, as pessoas, para que entendam”.

A responsabilidade do futebol

“Creio que o futebol é mais que futebol, é um esporte que deve se comprometer e formar parte da sociedade civil. Porque os jogadores muitas vezes vêm de lugares desfavorecidos e acabam sendo profissionais, as pessoas que vêm assistir aos jogos se reconfortam. É a vida. O futebol é uma metáfora da vida: não sabe o que vai acontecer, você fica contente, triste, às vezes angustiado… Tem o poder de reunir as pessoas que participam em uma experiência coletiva, é algo incrível”.

O intuito do livro

“O que pretendo explicar em meu livro é que temos que eliminar a identidade pela cor da pele e pensar como ser humano. Se você faz uma reflexão como ser humano, não protege um país, nem uma religião, nem uma cor: você protege o ser humano. Essa é a posição para acabar com esse ciclo de violência”.

A que se dedica a fundação de Thuram

“A ideia é simples, se trata de dizer às pessoas que há uma história de racismo, que há uma profundidade histórica. Quero dizer que, se quisermos entender o racismo na sociedade, é preciso saber que o racismo, desde o começo, foi uma isca, uma enganação, e por isso publiquei um livro, ‘La Pensée Blanche’, que saiu na França e na Itália, em breve na Alemanha, na Inglaterra e em Portugal. Quero explicar o motivo do livro nesses países. Para que chegue na Espanha é preciso ter editores interessados, e espero que haja”.

A relação com o Barcelona

“Foi uma sorte jogar no Barcelona, cheguei tarde. Descobri um clube que leva bem seu nome, é verdade que é mais que um clube. Quando você joga no Barcelona, entende toda a sua história, toda a sua dimensão política. Creio que é muito interessante, porque muitas vezes fazemos as pessoas acreditarem que o futebol não é política, mas não há nada mais político que o futebol. Tive a sorte de, quando tive a ideia de criar essa fundação, Laporta me acompanhou. Porque creio que isso vai na filosofia de ser mais que um clube. Não estou seguro de que todos os clubes fazem o que o Barça faz fora do futebol”.

A luta contra o racismo é mais forte hoje

“O racismo já não está na lei, agora está na mentalidade. Há uma mudança. Se o discurso do racismo cresce hoje, é porque há cada vez mais pessoas que não são racistas e o denunciam. Gente que se calava e agora fala. Há 30 ou 40 anos, um jogador de futebol não podia fazer o que eu fiz, por isso é necessário educar os jovens para que sigam por este caminho. E deixar de acreditar que não estão mudando as coisas. Sim, o mundo está mudando”.

Solidariedade para combater o racismo

“Devemos entender que combater o racismo é caminhar para políticas solidárias, questionando o sistema econômico em que vivemos, porque há séculos não se respeita o ser humano, sobretudo os mais pobres. Hoje, na França, há debates pelas eleições e a maioria fala sobre a imigração, e vamos dizer aos mais pobres: ‘Vocês terão problemas porque existem imigrantes’. Mas esse não é o problema do mundo. O problema é a redistribuição da riqueza que há no mundo”.

Racismo é mais visível no futebol

“No futebol, há menos racismo que na sociedade. Nas equipes, pouco importa a cor ou a religião, e isso educa os torcedores. Há problemas visíveis porque todo mundo vê o futebol e isso é bom. O racismo é violência e não pode ser aceito, não pode ser aceito que as pessoas se tornem violentas porque isso coloca a sociedade em risco. É evidente que o futebol podia fazer mais e sempre digo aos jogadores que é necessário denunciar. As mudanças não vêm das instituições, porque querem proteger a economia, e são os jogadores que podem mudar”.

O ato de se ajoelhar antes dos jogos

“É normal que nem todo mundo concorde com o gesto de se ajoelhar, porque para muitas pessoas é admitir que o racismo existe, principalmente quando você se beneficia dele. Porque, se há vítimas do racismo, é porque alguém ganha com isso – é como o sexismo. É muito hipócrita, porque sempre o inimigo é o mesmo. Se o gesto de se ajoelhar fosse pela violência contra as mulheres, você acha que todo mundo não faria isso? Falo de jogadores de futebol. Porque historicamente ao branco não importa a violência contra o negro. Esse gesto nasce de um movimento nos Estados Unidos, pela violência de um policial contra um negro. Não é novo. Há séculos temos normalizado a violência e o ódio contra os negros, por isso para as pessoas não é seu problema. Se você não quer se ajoelhar, é que não quer denunciar a violência contra os negros. Martin Luther King ou Nelson Mandela foram à cadeia por denunciar a violência contra os negros. As pessoas são conscientes de que isso existe”.

O racismo legitima a violência econômica

“Creio que as pessoas não entendem o porquê do racismo. Não é um confronto entre pessoas de cores distintas, era uma ideologia política que está ligada à do mundo capitalista. Quero dizer que o racismo vem legitimar a violência econômica do mundo. Por isso, quando você analisa a escravidão e a colonização, é preciso saber que são sistemas econômicos. Quando você quer explorar as pessoas, é necessário instalar um discurso, dizendo que não são como você, que são inferiores, e portanto exploráveis. As pessoas muitas vezes não entendem isso, acham normal, que sempre existiu o racismo, mas não. É uma construção que nasce no Século XV e deu ideologias políticas: na França o código indígena, o código negro. A grande maioria dos franceses, quando falam em racismo de Estado, olham para os Estados Unidos ou a África do Sul, mas não sabem que na França existem leis racistas há mais de 250 anos”.

A hierarquia por trás da violência

“Falar de história do racismo é falar da propaganda econômica e estatal que constrói um discurso que cega as pessoas e diz que, se tudo der errado, a culpa é delas. E as pessoas acreditam nisso, porque se repete sem parar, e quanto mais vezes se repete, mais se torna verdade. Eles não questionam a sociedade em que vivem, a redistribuição de riqueza, e acreditam que o problema vem das pessoas que chegam de fora. O racismo é uma isca, uma ideologia política a serviço de uma ideologia financeira. ‘La Pensée Blanche’ traça a história do racismo e em que ponto a hierarquia da sociedade é construída de acordo com a cor da pele, uma hierarquia que nasce para legitimar uma violência contra as pessoas, para que uma minoria enriqueça. Por que se nega as mudanças climáticas? Porque vai contra o consumo. Eles sabem disso, mas a propaganda pelo consumismo é mais forte. Você tem que ter mais e mais, e isso leva à frustração, a frustração cria raiva e depois o confronto”

O racismo como instrumento do colonialismo

“Não há colonialismo sem racismo. Eles sabem, mas não vão admitir. Somos conscientes de que a sociedade discrimina mais a mulher que o homem. Mas, como digo neste livro, entra em jogo a psicologia social. Quando você está dentro de um grupo, é complicado criticar esse grupo. É como quando um país se pergunta se é racista. Pois deveria saber. No racismo, há um ganhador, e o privilegiado sempre vai se fazer de louco. É como na relação entre homens e mulheres”.

A violência do colonialismo

“Deve-se saber que muita gente rejeita a história de que Colombo descobriu a América, porque, quando chegou, havia gente na praia. E as pessoas que estavam lá começam a contar seu relato. Os que foram colonizados começam a falar, vieram à Europa e tiveram filhos. Estes contam outra história e não têm medo de falar. Há gente, portanto, que não está acostumada a escutar outro discurso e são violentas, porque não é o que foi contado a elas. Na melhor das hipóteses, faltavam algumas coisas em seu relato. E os jovens que vierem serão cada vez mais inteligentes, porque têm vários pontos de vista. A inteligência é a capacidade de analisar outros pontos de vista além do próprio. A Europa, durante séculos, instaurou seu relato ao mundo e fez crer que o mundo lhe pertencia. Mas todos juntos devemos compreender que vivemos no mesmo planeta e temos que protegê-lo. O que mais ameaça o planeta é quem é violento contra outros seres humanos”.

A imposição da violência

“Esse discurso, de que a Europa levou progresso às colônias, não vem por casualidade. Foi dito desde o início que a raça superior tem o direito de educar a inferior. Em suma, eles tinham que levar sua cultura. Mas esquecem que essa gente já tinha sua cultura. E, se você crê que é necessário levar sua cultura, é porque acredita que é superior. Mas, acima de tudo, e as pessoas não dizem, é que o primeiro que levaram foi a violência. Sim, levaram a violência, mas não dizem. E os que dizem que levaram a cultura, é necessário dizer que eles não levaram nada, porque não estavam lá. E aqueles que foram, fizeram por uma vontade política e econômica”.

“É preciso dizer que a maioria dos espanhóis que foi às colônias, na realidade, não foi perguntada sobre sua opinião. Nem aos franceses. São decisões políticas e econômicas, como acontece hoje. Porque, se meu país hoje vai à guerra no exterior, não nos perguntam se queremos. É sempre o mesmo. É necessário repetir muitas vezes que foi uma minoria política e econômica a que colonizou. E não se esqueça que, quando se fala de Colombo, por exemplo, não se diz que o colonialismo na Europa massacrou 90% da população que vivia ali. Na realidade, legitimamos a violência e, para esquecê-la, construíram o discurso de que civilizaram. Quando falamos de colonização, falamos de um massacre de homens, mulheres e crianças”.

A exploração além da cor da pele

“A humanidade de muita gente foi negada dizendo que o único ser humano era o branco, o único que tinha razão, e há gente que segue convencida que a verdade do mundo é a que a Europa diz. Mas o sistema econômico, que é uma construção europeia, coloca em perigo a sociedade, porque são os países pobres que mais vão sofrer. Há gente que não quer compreender, não quer ver, mas o racismo é uma isca para legitimar a violência de uma minoria, de gente que quer ganhar mais dinheiro e não se importa com nada”.

“Durante a escravidão nas Antilhas, os pobres na Europa também eram explorados pelos mesmos. Na Inglaterra, os operários se perguntavam quando seriam livres. Os que estão dispostos a explorar pela cor da pele, na realidade, fazem o mesmo em seu país. Os operários eram brancos, mas eram explorados, maltratados, lutaram por seus direitos e por isso os têm agora. Eles estavam ali só para trabalhar e por isso é necessário sair das categorias pela cor da pele para analisar a sociedade e entender que o verdadeiro problema é a redistribuição da riqueza em poder de uma minoria, e que tem o poder de construir esse discurso”.

O discurso contra os imigrantes parte da elite

“Muitas vezes, acreditamos que os mais pobres são os mais racistas, por educação, mas isso é falso historicamente. O racismo é uma produção de uma elite e, quando você vai à Espanha ou à França e as pessoas dizem nos meios de comunicação que o problema são os imigrantes, não são os pobres que dizem, são parte da elite. Mas o racismo faz parte de uma gente que defende um sistema econômico que sustenta que os pobres têm que ser mais pobres e os ricos não são questionados. Você não deve pedir nada a eles e as pessoas que sustentam esse discurso que estigmatiza o imigrante, na verdade, são os que mais desprezam os pobres. Mas o problema da pobreza não se vai solucionar mesmo se você massacrar o imigrante. Por isso é tão perigoso”.

A importância de se unir

“Os mais pobres sabem há tempos que é necessário se unir. A história da escravidão é muito interessante porque, quando se massacrou aos índios das Américas, levamos primeiro os europeus para trabalhar na terra, depois os escravos negros da África… E se uniram, os pobres europeus se uniram aos africanos. E sabe o que fizeram para romper essa coalizão? Leis, leis que proibiam terem filhos juntos, leis para dizer que os negros seriam escravos por toda a vida. É necessário implantar leis que legitimem a violência e os políticos fazem isso, que não são precisamente pobres, são gente que manipula para dizer aos pobres que seus problemas são a causa de outros pobres. Isso é propaganda, se repete por todas as partes e as pessoas creem, e os pobres da França creem que seu problema é culpa do pobre imigrante. Mas pensem bem, isso é impossível. A maioria dessas pessoas na França ou na Espanha não sabem realmente quantas pessoas vêm do exterior todos os anos. É como um fantasma”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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