França

Thuram: “Quanto mais gente combater o racismo, mais nos aproximamos da igualdade. Calar-se é endossar a violência que é o racismo”

Lançando um livro sobre identidade racial, Thuram salientou como o combate ao racismo no futebol também precisa partir de jogadores brancos

Lilian Thuram é um dos maiores defensores da história do futebol e, ainda assim, sua principal contribuição está no debate que promove em relação ao racismo. Em 2008, logo depois de se aposentar, o francês criou uma fundação para discutir a discriminação. Uma voz bastante ativa contra o preconceito em diferentes sentidos, Thuram chegou a trabalhar como conselheiro do governo da França sobre integração social e também como embaixador da Unicef. Além disso, também escreveu livros, o mais recente chamado ‘White Thinking: Behind the Mask of Racial Identity’ (‘Pensamento Branco: Por Trás da Máscara da Identidade Racial’, em tradução livre).

Nesta semana, Thuram lançou a tradução em inglês deste livro. Na esteira disso, deu uma entrevista bem interessante ao jornal The Guardian, para expor suas ideias. Ele afirma que sua intenção é liberar as pessoas das “prisões de identidade” e também estimular especialmente os brancos a pensarem mais nas estruturas sociais.

“Reni Eddo-Lodge escreveu um livro muito bom há alguns anos atrás, chamado ‘Por que não estou mais falando com as pessoas brancas sobre raça’. Meu livro diz o oposto: ‘Se vamos falar sobre racismo, é com os brancos que devemos falar’. É como com o sexismo, as pessoas que precisam ser educadas são homens e meninos. O que estou tentando dizer é: ‘Ok, existe racismo: por quê? E por que dizemos que existem brancos e não-branco? Por que dizemos que há pessoas de cor?’. Se você não sabe as razões, não será capaz de entender por que os preconceitos existem. As pessoas precisam saber a história da racialização do mundo”, afirma.

Thuram analisa a raça como uma imposição externa, já que sua própria percepção como negro surgiu depois que ele se mudou de Guadalupe para Paris, aos nove anos de idade: “Ninguém nasce negro ou branco. É importante que as pessoas ditas brancas entendam o que é ser branco. Todos nós precisamos estar cientes de que a história nos levou a usar a cor da pele como uma máscara e, no livro, convido as pessoas a tirarem essas máscaras. Para removê-las, você precisa conhecer a história dessas identidades ligadas à cor da pele, as hierarquias sociais que foram inventadas”.

“Quando entendemos a história, entendemos que o racismo sempre foi uma fraude. Sempre foi uma construção política destinada a romper os laços de solidariedade entre os seres humanos, a fim de explorar certas pessoas, para que uma minoria possa enriquecer. Para sermos capazes de mudar, temos que nos elevar fora das categorias: homens e mulheres, negros e brancos, e assim por diante. Temos que promover a ideia de que somos seres humanos antes de qualquer coisa. De um modo geral, a maioria não quer mudar porque se acomodou com seus hábitos. Portanto, uma minoria deve ser capaz de instigar a mudança”, complementa.

Sobre o futebol, Thuram elogia os atletas da Premier League que permanecem se ajoelhando antes dos jogos, em referência ao movimento ‘Black Lives Matter’: “É muito importante que os jogadores continuem a se ajoelhar antes dos jogos, para condenar as injustiças que afetam as pessoas de cor. O futebol inglês está de parabéns por continuar a fazer isso. Eles são realmente os pioneiros no desenvolvimento da consciência, pelo menos no futebol. O que eles estão fazendo incentiva as pessoas a refletirem”.

O francês entende que o combate ao racismo deve partir também de jogadores brancos, o que geraria maiores pressões por mudanças concretas no sistema: “Muitas vezes os jogadores que são alvo de racismo são perguntados: ‘O que devemos fazer sobre isso?’. Isso é muito hipócrita, porque sugere que cabe a eles encontrarem soluções, como se eles fossem o problema. Cabe aos jogadores brancos, que normalmente são maioria, se recusarem a continuar num jogo. Então, os poderosos serão forçados a tomar ações. Porque, de outra maneira, seus negócios sofrerão”.

Thuram, aliás, acredita que são os jogadores que mudarão a inação enraizada das federações e dos dirigentes quanto ao racismo: “A mudança nunca vem primeiro das autoridades. Se você quiser promover mudanças, terá que fazer coisas para que as autoridades sejam compelidas a mudar. Por exemplo, estou falando com você direto da Itália, onde as pessoas muitas vezes me perguntam: ‘As autoridades estão fazendo o suficiente para combater o racismo?’. E eu digo: ‘Não. Cheguei na Itália em 1997 e existiam gritos racistas nos estádios. Agora estamos em 2021 e ainda existem gritos racistas nos estádios. Isso significa que as autoridades não fizeram seu trabalho'”.

“Tudo o que estou fazendo é tirar uma fotografia da realidade. Como eles não geram mudanças, precisamos de outra estratégia. Historicamente, são os indivíduos que obrigam o sistema a mudar. Estou falando sobre indivíduos de todas as cores que forçam o sistema a evoluir. É assim que as coisas aconteceram na história, seja na luta por igualdade de gênero, igualdade sexual ou qualquer outra. Eles precisam mudar porque, de outra forma, vai contra seus interesses comerciais. Enquanto os jogos continuarem quando acontecerem surtos de racismo, as instituições farão apenas tentativas superficiais de resolver o problema. Elas só farão mudanças substanciais no dia em que jogadores brancos decidirem parar de jogar. Então, as instituições serão forçadas a encontrar soluções”, adiciona.

Por fim, o veterano aponta que o combate ao racismo depende de uma união geral: “Sou encorajado pelo ativismo de jovens jogadores negros que não estão mais dispostos a aceitar o que os mais velhos aceitavam, e que fazem seus companheiros, oponentes e torcedores pensarem. E também por alguns jogadores brancos. Por exemplo, quando eu vejo o capitão do Liverpool, Jordan Henderson, falando contra o racismo, acho isso fantástico. Porque significa que ele entendeu que o racismo também o afeta. Ele não era neutro, ele percebeu que a responsabilidade de condenar não era da minoria que sofre racismo. Jogadores como ele dão um exemplo. Quanto mais pessoas combaterem o racismo, mais nos aproximamos da igualdade. Não dizer nada é endossar a violência que é o racismo. Escrevi o livro para ajudar as pessoas a entenderem como as coisas são organizadas, como o racismo é uma armadilha. Vocês tem que entender isso”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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