Sul derruba capital

O sul da França está em festa. Talvez inspirados pelas revoluções que derrubaram governos autoritários nos últimos meses, esta região também se rebelou contra o poder dominante e derrubou o imponente rei de seu trono. O déspota, que se apossou do poder de maneira contestada e com o apoio de líderes de interesses pouco conhecidos, ainda tenta se manter no comando por conta de sua forte rede de influências, mas caminha trôpego em meio à comemoração dos rebeldes. E assim o Paris Saint-Germain deixou a ponta da Ligue 1, derrotado no clássico pelo Olympique de Marseille, para o Montpellier.
A rivalidade entre o sul e a capital francesa explica o significado de tamanho feito. O PSG caiu de forma impiedosa no Vélodrome, em partida na qual o Olympique de Marseille consolidou sua reação no torneio ao derrotar o eterno rival por 3 a 0. Como se não fosse suficiente bater o time da capital de maneira incontestável, o OM gargalhou ao tirar o PSG da liderança e ver o Montpellier, seu colega sulista, pula para a ponta.
O naufrágio coletivo do PSG passa pelas atuações cada vez mais preocupantes de Javier Pastore e Diego Lugano, zumbis dentro do gramado. O péssimo momento da equipe coloca pressão sobre os ombros do treinador Antoine Kombouaré, que já vê a forca se aproximando. Em baixa, o time da capital pede água há tempos e encontra apenas um cantil seco para se satisfazer.
Já o OM provou seu poder de superação poucos dias depois de toda a crise provocada pela derrota para o Olympiacos na Liga dos Campeões. Em seu melhor jogo até agora na temporada, a equipe mostrou-se confiante, superior fisicamente, sólida na defesa e eficiente em suas ofensivas. Após dois resultados ruins consecutivos, nada melhor do que esta apresentação para reerguer os ânimos.
E uma das chaves para o triunfo dos marselheses foi a entrada de Jordan Ayew logo no começo da partida, em razão da lesão de Loïc Rémy. O que pdoeria ser uma fogueira se transformou em vitrine para o reserva, autor da assistência para o segundo gol. Seu irmão André, além de Souleymane Diawara, também tiveram participação decisiva na derrocada do até então líder.
No comando da nova liderança, Olivier Giroud fez seu segundo hat-trick da temporada ao ajudar o Montpellier a detonar o Sochaux por 5 a 3. São onze gols em 15 rodadas, que catapultaram o MHSC à ponta da Ligue 1 e com três pontos de vantagem sobre o PSG. O atacante revela sua maturidade com características que o tornam quase completo, como se verifica nos diferentes fundamentos e na precisão em diferentes tipos de conclusão como se viu contra os Leões.
O Montpellier apresenta ritmo de líder. Invicto há sete rodadas, o time ganhou dez dos seus últimos quinze jogos e, desde o início desta temporada, só não esteve entre os três primeiros colocados em uma rodada. Tudo muito bonito, mas não se deve esquecer que a equipe precisa manter a regularidade que lhe faltou na reta final da Ligue 1 passada. Para refrescar a Memória, o MHSC obteve duas vitórias, quatro empates e oito derrotas nos seus 14 jogos finais do campeonato.
Com adversários modestos pela frente (Lorient, Toulouse, Valenciennes e Evian), o Montpellier sonha em levar pela primeira vez o simbólico título de campeão de inverno. O time repete o velho discurso de humildade, mas sabe que suas chances de sofrer um golpe da mesma proporção daquele que o colocou no poder são enormes. Vale a pena sonhar; porém, nem toda nova ordem prima pela organização e se mantém firme diante do deslumbramento trazido pelos holofotes. E é nisso que os antigos governantes se fiam para retornar ao trono.
Motim marselhês
A vitória no clássico serviu para o Olympique de Marseille apaziguar o clima após a conturbada derrota por 1 a 0 para o Olympiacos em pleno Vélodrome pela Liga dos Campeões. O técnico Didier Deschamps tem seu comando cada vez mais contestado, como se viu na rebelião liderada por André-Pierre Gignac e revelada pelo jornal L’Équipe. A discussão ríspida entre treinador e jogador foi assistida pelo grupo, que não moveu uma palha sequer para intervir no bate-boca.
O elenco, claro, estava a favor de Gignac, que logo depois foi afastado pela diretoria. O caso se tornou apenas mais um no clima geral de insatisfação que paira sobre vários jogadores influentes, como o próprio Gignac. Cabe lembrar que ele esteve a ponto de ser negociado com o Fulham, mas na última hora a transferência fracassou e provocou a indignação do atleta.
Lucho González também anda contando até dez para não explodir. O meia, dono de um dos maiores salários do futebol francês, amarga a reserva e já manifestou diversas vezes sua vontade de sair. No entanto, o OM não está disposto a negociá-lo, mas Deschamps mostra a mesma vontade em deixá-lo no banco. O impasse se arrasta e a paciência do argentino está perto do fim.
Em campo, o OM parecia em situação confortável após vencer seus dois primeiros jogos na LC. Parecia. Contra um Olympiacos melhor do que o da partida na Grécia, o Olympique entrou com seu 4-2-3-1 talhado para a Champions. Os marselheses aparentavam uma tranquilidade semelhante ao de uma equipe já classificada para as oitavas, mas sem estar com a vaga nas mãos. Pagou caro por essa postura, como se estivesse disputando um amistoso.
No segundo tempo, a mudança para o 4-4-2 deixou o OM mais perigoso do que na etapa inicial, quando foi inofensivo. Os comandados de Deschamps, porém, falhavam nas finalizações. O Olympique hesitou entre partir para cima do adversário ou administrar o resultado. Sem controlar o ritmo da partida, o time fracassou nas duas missões.
O Olympiacos aproveitou as bobeadas da defesa local, principalmente ao explorar os espaços deixados nas laterais por Djimi Traoré e Charles Kaboré, para dominar a parte final do jogo e definir a vitória. Com sua situação mais do que ameaçada no grupo F, o OM será obrigado a confirmar sua classificação no caldeirão do Borussia Dortmund. Mesmo em segundo lugar no momento, os marselheses encaram uma missão complicada quando já poderiam comemorar a vaga.


