Sim, Domenech ficou nos Bleus
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Raymond Domenech parecia com os dias contados à frente da seleção francesa. O treinador caprichou no nível de extravagâncias e preparou um combo para a Eurocopa. Os Bleus, vice-campeões mundiais, foram um arremedo de time e deixaram a competição com uma vexatória eliminação na primeira fase. Seu repertório de ironias nas entrevistas foi elevado à quinta potência, com o cúmulo da falta de noção de pedir sua noiva em casamento logo após a derrota para a Itália, símbolo da queda prematura da equipe. Ah, e isso sem contar suas teimosias e birras para elaborar sua lista de convocados para o torneio, com a ausência de nomes como Trezeguet, Flamini e Méxès. Nem tudo isso foi capaz de tirar a paciência de Jean-Pierre Escalettes, presidente da federação francesa (FFF), que preferiu correr os riscos de manter o técnico no cargo.
Com a cabeça salva, Domenech tem motivos de sobra para comemorar. Nem mesmo a chuva de críticas à qual foi submetido pareceu convencer os dirigentes do conselho federal da FFF para decidir por sua demissão. Embora cause espanto a permanência de um treinador que teve um surto de incoerências, Escalettes deixou uma coisa bem clara: ou o técnico muda algumas de suas características, ou a entidade não será assim tão boazinha da próxima vez.
O presidente da FFF revelou ter ‘consultado’ quatro importantes fontes para saber se deveria ou não puxar a corda da guilhotina. Michel Platini, presidente da Uefa, manifestou abertamente seu desejo de ver o treinador continuar no cargo. Gérard Houllier, um dos membros mais importantes do conselho federal da entidade, também se mostrou favorável à permanência. Os jogadores gostaram da idéia (embora haja um claro desconforto dentro dos Bleus entre os jogadores mais veteranos e os ‘calouros’), enquanto o próprio Escalettes consultou sua consciência. Ele avaliou critérios econômicos, morais, políticos e de ambiente, chegando à conclusão nada agradável aos críticos de Domenech.
Em seu discurso, Escalettes afirmou que o técnico reconheceu seus erros, seu isolamento e suas falhas de comunicação. O dirigente falou em ‘imagem arranhada da seleção’, riscos em lidar com a pressão de manter o treinador… Ora, se houve mesmo tantos problemas destacados, qual o motivo de poupá-lo? Em mais de uma década à frente das seleções de base e da principal, o técnico não levantou um troféu sequer. Há de se evocar o trabalho cuidadoso em lançar jovens promissores em um lento processo de renovação dos Bleus, ainda mais após a aposentadoria do maior jogador da história do país – e com toda a pressão por resultados a curto prazo. Contudo, o jeito de ser de Domenech criou grande antipatia. E é exatamente este ponto no qual o presidente da FFF acredita estar a solução para muitos problemas.
A permanência no cargo custará um preço razoável para o treinador. Acostumado com a liberdade para falar o quanto quiser na hora em que bem entender, Domenech será obrigado a se acostumar com rédeas. Escalettes garantiu que o técnico ‘falará apenas da seleção, não de seu estado de espírito’. Em outras palavras, seu poder será descentralizado. Nada mais de decidir sobre hotéis, viagens, regime de concentração; a ordem agora é só se preocupar com o aspecto técnico, dentro de campo. Esta centralização em torno de sua figura, criando uma redoma em torno de seus jogadores, criou uma estrutura quase intransponível, sem questionamentos, distante da realidade. E este excesso de poder criou um elenco sem muitas ligações afetivas com a torcida, fechado em si mesmo e em seus problemas – daí os desentendimentos internos cada vez mais freqüentes, algo comum em um grupo isolado e que vê as mesmas caras todos os dias. Uma hora, a bomba explode.
Domenech provou por diversas vezes ser um sujeito bastante teimoso, apegado às suas convicções e pouco aberto ao diálogo, com uma forte tendência de desafiar quem ousa lhe contrariar com decisões sem lógica. Quanto mais insistem na convocação de Trezeguet, mais ele procura alternativas, recorrendo a Gomis, por exemplo. Para quem se acostumou com plenos poderes por tanto tempo, ver sua força se reduzir desta forma parece um desastre, ainda mais para alguém de personalidade difícil para se lidar.
O técnico se mostrou disposto a colaborar, mas ninguém muda da água para o vinho da noite para o dia. Se pelo menos ele mantiver a boca fechada por mais tempo e dar ouvidos às opiniões alheias, já será um excelente progresso. Em termos de qualidade de jogadores, a França conta com bons nomes, que precisam de um ambiente calmo e de confiança para se desenvolverem a plenos pulmões. Resta saber se a paciência do treinador suportará o controle rígido por um longo período ou se jogará tudo no ventilador. A chance, embora questionável, foi dada.
PSG: coração partido
Era para ser o símbolo do renascimento do Paris Saint-Germain, mas terminou como uma grande preocupação. A transferência de Lilian Thuram ao clube da capital se viu interrompida por conta dos resultados dos exames médicos realizados pelo defensor. Na maioria das vezes, trata-se de uma mera formalidade antes de se assinar o contrato. Contudo, no caso do defensor, marcou o início de um drama. Os testes revelaram uma má formação cardíaca, e logo veio à tona a pergunta: como ninguém havia descoberto isso antes?
Thuram não jogou em clubes de fundo de quintal, sem as condições mínimas de estrutura para se fazer um simples exame de vista. Juventus, Barcelona, a própria seleção francesa… Todos foram colocados contra a parede a partir da divulgação dos resultados da visita do jogador ao hospital Pitié-Salpêtrière – o mesmo no qual Ronaldo se tratou em sua última cirurgia no joelho.
Como os resultados completos e mais detalhados dos exames serão conhecidos apenas dentro de um mês, resta a expectativa para explicar algo no mínimo estranho: como um jogador passa 18 anos de carreira profissional, submetido a constantes avaliações clínicas, em centros médicos de qualidade, sem a detecção de um problema tão grave? No momento, apenas as velhas especulações levantadas por ‘médicos’ especialistas em causar polêmica pura e simples, sem qualquer embasamento. E, claro, as acusações de praxe aos clubes pelos quais o jogador passou, por negligência e tudo o mais. Mais uma vez, convém esperar um pouco antes de colocar a culpa nas pessoas.
No caso de Thuram, seu problema cardíaco torna-se mais grave ainda por conta de um caso já ocorrido em sua própria família. O irmão do defensor faleceu há alguns anos quando jogava basquete, em decorrência de uma anomalia em seu coração. Seria então um problema genético, potencializado pelo fato de o atleta de 36 anos se submeter a um grande esforço físico? Ou seria algo desenvolvido com o passar dos anos, por isso não foi detectado pelos testes anteriores? As perguntas são cabíveis, mas as respostas para elas ainda demorarão um pouco para sair.
Enquanto isso, qualquer teoria para explicar o ocorrido seria no mínimo leviana, ainda mais com o alto risco de se nomear culpados, se é que eles existem. Daí a enorme necessidade de se aguardar o diagnóstico preciso para a análise correta do caso. Simplesmente não dá para sair atirando em qualquer alvo por aí. É fácil dizer que o atleta tem a doença x, que ela se desenvolveu pelo fator n, e poderia ser evitada se ele fizesse o tratamento y. Por trás desse ‘curandeirismo’ há a vida de uma pessoa, por isso o cuidado em se evitar sensacionalismos baratos.
Recordista em número de convocações para os Bleus (142), Thuram vive agora a angustiante espera pelos resultados definitivos. Se receber o sinal verde para continuar sua carreira, ele certamente não se sentirá mais tão à vontade em campo, o que pesaria em sua decisão de assinar com o PSG. Caso os médicos o aconselhem a parar, sua despedida dos gramados mereceria ser bem melhor do que a fracassada campanha da França na Eurocopa, quando foi eliminada ainda na primeira fase.
No fim das contas, o Paris Saint-Germain parece mesmo fadado ao azar. Quando o clube se preparava para anunciar um precioso reforço a custo zero, com o sonho de iniciar seu processo de recuperação e até projetar um futuro mais promissor, recebe este golpe. Realmente, o clima anda muito carregado pelos lados do Parc des Princes.