Sensação de dever cumprido

Nada como sair de campo com a sensação de dever cumprido. Diante do badalado Barcelona, o Lyon se deu ao luxo de sair na frente, mas acabou com um empate por 1 a 1 em Gerland no confronto de ida das oitavas-de-final da Liga dos Campeões. Não perder em casa era o máximo que a equipe poderia fazer diante dos blaugranas. Evitada a derrota, agora os lioneses já devem se preocupar em como fazer para continuar com a motivação em alta para o restante da temporada. Ou alguém acredita nas possibilidades de uma improvável vitória do OL em pleno Camp Nou, ou empate por dois ou mais gols no estádio catalão?
O Lyon ainda poderia se iludir com seu desempenho no primeiro tempo, quando levou muitos perigos à meta de Victor Valdés. O gol de Juninho Pernambucano em uma cobrança de falta foi um dos diversos lances de bola parada nos quais a defesa blaugrana ficou em apuros. Benzema acertou a trave e, em outra boa oportunidade, desperdiçou um contra-ataque de quatro jogadores do OL contra dois do Barça. Uma migalha de confiança de que o lutador mirrado poderia encarar o gigante de igual para igual, acuando-o nas cordas.
A sensação de igualdade nestes 45 minutos iniciais ficou por conta do número de finalizações das duas equipes. Ambas chutaram dez vezes ao gol, um feito que ganha ares heroicos por alcançar o nível de um dos melhores ataques do continente. No entanto, o Lyon ainda se orgulha por ter ameaçado tanto o rival mesmo com tão pouco domínio de bola. Os blaugranas tiveram 60% da posse dela, em prova de como o OL conseguiu se segurar mesmo diante da artilharia pesada de Eto’o, Henry e Messi.
Do ponto de vista tático, o Lyon teve seus méritos para anular o Barcelona. Em seu 4-3-3 clássico, os homens de Puel fizeram a diferença na batalha do meio-campo. Toulalan e Makoun fizeram um trabalho muito eficiente na marcação, o que obrigou os blaugranas a fugir de seu estilo de jogo letal, de toques rápidos. Os visitantes recorreram aos longos lançamentos, o que ajudou o OL a ter vida mais fácil em sua defesa.
Lloris e Cris também se destacaram. O goleiro fez duas defesas difíceis em momentos cruciais do duelo. Já o zagueiro demonstrou segurança diante de atacantes de prestígio e sua boa interpretação da partida o fez sobressair no combate. Na parte ofensiva, Benzema encontrou facilidades ao explorar um Puyol pouco acostumado a atuar pelo lado esquerdo. Contra uma defesa lenta, o atacante sempre foi uma opção interessante, mesmo sem ter ido às redes.
Como todo esforço cobra um preço caro, o Lyon sentiu o desgaste físico a partir de meados da segunda etapa. Não dá para se anular um time de tamanha força sem um esforço extra. Quando o preparo lionês começou a cair, os espaços para os visitantes aumentaram, o que permitiu ao clube espanhol fazer uso de suas características mais letais. Com a bola nos pés por tempo suficiente para armar toques rápidos, não demorou muito para o Barcelona chegar ao empate. E esse gol marcado fora de casa revelou-se crucial para a definição do classificado para as quartas-de-final da LC.
O Lyon até pode repetir no confronto de volta a mesma eficiência tática e técnica apresentada durante o primeiro tempo do duelo em Gerland. Só que o Barcelona, apesar dos recentes tropeços na Liga Espanhola, precisaria de um dia muito ruim para seu poder ofensivo fazer água. Os lioneses já podem se orgulhar de evitarem a derrota em casa, algo considerado por muitos como fato certo. Agora, ganhar no Camp Nou se trata de um milagre.
Cordão dos fanfarrões
Paris Saint-Germain, Olympique de Marselha, Bordeaux e Toulouse tornaram o Carnaval do Lyon ainda mais animado. Na 25ª rodada da Ligue 1, o quarteto fez o favor de empatar seus respectivos jogos contra equipes em situação ruim na tabela e, com o triunfo do OL sobre o Nancy, permitiu ao líder se distanciar. Melhor para Lille e Rennes, que derrotaram Monaco e Nice e se aproximaram novamente do bloco dos candidatos a uma vaga à classificação em alguma copa europeia.
Para os Marine et Blanc, o fim de semana terminou com um alívio, apesar do tropeço no Geoffroy-Guichard. Os Verdes venciam por 1 a 0, mas cederam o empate a poucos instantes do final graças ao gol marcado por Cavenaghi. O atacante saiu do caldeirão de alma lavada. Enfim, ele espantou o jejum – havia 495 que ele não balançava as redes. Os girondinos devem essa ao argentino, pois escaparam de sofrer sua segunda derrota consecutiva como visitante, o que deixaria a situação da equipe mais complicada.
O ASSE vinha motivado por seu grande resultado na Copa Uefa, quando derrotou o Olympiacos em Atenas por 3 a 1. Com sossego garantido no torneio, restava ao time se concentrar para sair da zona de rebaixamento da Ligue 1. O Bordeaux, por sua vez, somara apenas três pontos em seus dois últimos jogos, em nítida queda de produtividade. Os donos da casa sufocaram o adversário, mas seu domínio só se fez valer na segunda etapa, quando Matuidi abriu o placar e Paulo Machado acertou a trave.
A situação estava definida a favor dos Verdes se seu treinador não fizesse o favor de estragar todo este belo trabalho. Alain Pérrin quis segurar a maga vitória e tirou dois elementos ofensivos (Payet e Monsoreau) para a entrada de dois jogadores com vocação defensiva (Tavlaridis e Machado). O técnico acabou castigado em um lance de bola parada, no qual Cavenaghi completou de cabeça para enfim vencer o goleiro Janot, em grande atuação.
Se Blanc arriscou com a dupla Gouffran e Bellion no setor de armação, o treinador saiu de campo com as mãos na cabeça por sua escolha. Ambos mais uma vez desperdiçou a chance de mostrar alguma coisa. A falta de criatividade ficou latente com outro jogo discreto de Gourcuff. Já são quatro partidas consecutivas sem uma vitória dos girondinos, mantendo a equipe fora até mesmo da zona de classificação da Liga Europa.
O Toulouse recebeu o Valenciennes no “duelo dos invictos”, e o 0 a 0 foi conveniente para a manutenção destas séries. O TFC somou seu décimo jogo sem perder, dois a mais do que os visitantes, mas apenas o VA teve motivos para festejar. O ponto somado na casa do rival o deixou fora da zona de rebaixamento, embora esteja empatado com o Saint-Etienne (leva a melhor nos critérios de desempate).
Aos Violetas, a possibilidade de assumir a vice-liderança esbarrou em uma equipe que nunca ganhou fora de casa nesta edição da Ligue 1. Nem mesmo a presença de Gignac, artilheiro do campeonato, serviu para furar a defesa rival. O atacante acabou prejudicado pelo péssimo desempenho de Bergougnoux e seus passes quadrados e foi obrigado a correr demais atrás da bola, sem sucesso.
No Stade des Alpes, o PSG também ficou no zero diante do Grenoble, para quem perdeu no primeiro turno no Parc des Princes. Nada muito diferente do esperado, pois o GF38 marcou apenas quatro gols em casa (somente um em seus nove últimos jogos em seus domínios) e o time da capital cometeu erros em excesso. Nem mesmo a tentativa de Paul Le Guen para tornar o time mais ofensivo, com a entrada de Luyindula no lugar de Clément, deu o dinamismo necessário para se chegar à vitória. O desgaste do duelo da Copa Uefa contra o Wolfsburg (triunfo por 2 a 0 obtido no finalzinho) se fez sentir.
Por falar em Copa Uefa, pelo visto o 1 a 0 sofrido para o Twente em pleno Vélodrome causou efeitos traumáticos ao Olympique de Marselha. Na mesma semana, o OM decepcionou sua torcida duas vezes e ficou no 0 a 0 com o Le Mans. Está certo que o 5-4-1 montado pelo MUC 72 denote o quanto o clube veio para se defender, mas está longe de justificar a apatia demonstrada pelos marselheses.
De novo, o ataque do Olympique deixou a desejar. Há de se descontar o fato de Niang ter retornado há pouco tempo, depois de algumas semanas afastado devido a uma contusão. O senegalês se entendeu pouco com Koné, e a lesão de Brandão deixou o setor sem grandes opções. Valbuena e Ben Arfa pouco acrescentaram; já o Le Mans teve méritos com o miolo de seu setor defensivo. Atrás, Géder, Paulo André e Cerdan tiveram até uma certa facilidade para combater o ataque anfitrião. Já Coutadeur e Thomas tomaram conta do meio-campo.
Com tantos deslizes de seus concorrentes, o Lyon agradece e nem precisa se preocupar em jogar muito bem para continuar tranquilo na liderança.


