França

Sangue, guilhotina e sorte

Raymond Domenech parece gostar de emoções fortes. Criticado por todos depois do pífio desempenho da França na Eurocopa-08, o treinador foi enquadrado pela federação, mas não deixou de criar polêmica. Em meio ao seus discursos agressivos, viu os Bleus darem vexame diante da Áustria, na estréia nas Eliminatórias da Copa do Mundo-2010. Nova chuva de queixas e sua cabeça foi posta a prêmio. Eis que um triunfo sobre a Sérvia, meio a fórceps, chega para lhe dar um pouco mais de oxigênio. Meio como à la Dunga, o treinador conta com uma dose de sorte para tapar sua incompetência e ganhar mais alguns dias no cargo.

Se contra a Áustria os franceses foram de uma apatia impressionante, houve alguns sinais de melhora contra a Sérvia, em um Stade de France com público abaixo do esperado. Com tamanho abacaxi em suas mãos, Domenech insiste em querer chamar a atenção com suas frases de efeito (como ao agradecer por não haver mais guilhotina e afirmar que os jornalistas adoram ‘cheiro de sangue’) e deixar de lado as questões práticas da equipe. Por exemplo, sua insistência com Benzema como titular.

Em Viena, a França apresentou um futebol bastante sem graça, assim como na Eurocopa-08. O mais assustador era olhar para o campo adversário e ver a Áustria, um rival que não deveria causar maiores temores. As bolas paradas foram um terror para a defesa azul, e a base da vitória dos donos da casa. Méxès, cuja ausência no torneio continental foi usada severamente para reforçar a crítica contra Domenech, falhou no primeiro gol. Isso poderia ocorrer com qualquer defensor, mas a fragilidade do setor assustou.

Sem um pingo de criatividade, os Bleus trocaram passes laterais, sem qualquer esboço de uma jogada mais criativa. Era nítida a necessidade de se encontrar alguém no meio-campo com capacidade para proporcionar um mínimo de qualidade. Analisando-se apenas os nomes em campo, a França deveria ter um rendimento menos sofrível, mas se esqueceu como se deve jogar de forma coletiva.

Embora Nasri e Benzema formem uma parceria interessante, os dois deixaram a seleção francesa ‘torta’, concentrada apenas nas jogadas pelo lado esquerdo. Govou ficou perdido na direita, sem ter o que fazer. A previsibilidade do ataque azul facilitou a tarefa dos marcadores austríacos. Mesmo cansados, eles levaram a melhor sobre um rival acéfalo – algo comum nos últimos tempos.

Enquanto Méxès vivia uma noite pavorosa e Gallas não conseguia jogar por si mesmo e pelo companheiro, os volantes sentiram muitas dificuldades. Toulalan e Diarra não mostraram a mesma força e deixaram Aufhauser à vontade. Na frente, Benzema deu mais razões aos críticos. O artilheiro da última Ligue 1 parece entrar em uma outra dimensão quando veste a camisa azul. Domenech ainda lhe deu outra oportunidade diante da Sérvia, mas outra vez o jogador do Lyon negou fogo.

O pior é olhar para o banco de reservas e ver Anelka se aquecendo para entrar em campo. A teimosia do técnico impediu Trezeguet de obter maior espaço na seleção hoje, uma heresia quando se vê o baixo poder de finalização do time. O atacante da Juventus certamente daria mais peso ofensivo aos Bleus, mas apenas uma mudança radical abriria a possibilidade de se resolver este problema.

Acerto na sorte

Após o papelão contra a Áustria, Domenech contou com uma ajuda da sorte para se recuperar. Com Nasri machucado, o treinador se viu forçado a mudar a formação de seu meio-campo. Para isso, definiu Gourcuff como titular em Saint-Denis. Foi como se o céu se abrisse em meio ao denso nevoeiro. Titular dos Bleus pela primeira vez, o jogador do Bordeaux entrou muito bem e passou a idéia de organização tática desejada para uma seleção forte.

Calma; Gourcuff não se transformou no ‘novo Zidane’ da noite para o dia. Ele fez um bom jogo, nada mais por enquanto. No 4-2-3-1 de Domenech para esta partida, ele cometeu a mesma falha de Nasri no duelo contra a Áustria: preocupou-se mais com o lado esquerdo. Govou e Sagna, esquecidos na direita, aproveitaram para colocar o papo em dia, tamanha a falta do que fazer por ali.

Pelo menos Gourcuff apresentou uma qualidade a mais do que o meia do Arsenal, ao perceber seu erro e progressivamente corrigi-lo. Ele também levou maior perigo do que seu concorrente em lances de bola parada. Na segunda etapa, ele cresceu de produtividade, muito pela entrada de Anelka no lugar do apagado Benzema. Com pouco tempo no gramado, o atacante do Chelsea deu mais dinamismo ao setor, arriscou-se mais nas finalizações e deixou sua marca com um belo gol no fim.

Se ele merece ser titular? Bom, Anelka deve se considerar como uma opção no banco de reservas. Como Trezeguet só voltará a vestir a camisa dos Bleus quando Domenech for embora e Benzema reforça a tese de ser um jogador de clube, ele até tem chances. Não por méritos próprios, mas, quem diria, por falta de opções melhores – cabe lembrar que nem mesmo Henry vive seu melhor momento.

Voltando ao assunto Domenech, o treinador ganhou uma opção para definir o dono da posição mais nobre de seu meio-campo – desde que mantenha seu esquema tático e não tenha uma recaída pelo 4-4-2. Gourcuff ganhou pontos na briga com Nasri e desponta como opção para Ribéry, em fase final de recuperação de uma cirurgia no tornozelo. Se mantiver um bom aproveitamento, o jogador do Bordeaux se torna uma alternativa viável para um setor ainda problemático.

Por falar em dificuldades, o miolo de zaga precisa com urgência de melhorias. Contra a Sérvia, a dupla formada por Abidal e Gallas foi regular, ainda distante de um entrosamento ideal. A entrada de Clichy na lateral-esquerda contribuiu para aumentar o poder ofensivo por este lado, sem descuidar da marcação. Embora Méxès tenha falhado demais, talvez pela tensão de carregar uma grande responsabilidade por ser considerado como um dos ‘injustiçados’ na Euro-08, merece mais oportunidades, desde que com um trabalho bem feito de entrosamento.

Com relação ao técnico, Domenech em nada mudou depois da papagaiada na Euro-08. Hoje, ele mais atrapalha do que contribui para a evolução dos Bleus, como já fez há algum tempo em seu trabalho de renovação do elenco. Seu prazo à frente da seleção já se esgotou, e a federação insiste nele de forma incoerente. Quando alguém deixa de acrescentar algo de útil àquilo ao qual se dedica, está na hora de se despedir. Ele poderia reconhecer isto, não fosse seu ego.
 

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Equipe Trivela

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