Saldão encalhado

Fechada a janela de transferências de janeiro, chegou a hora de fazer o balanço das compras. Os clubes franceses voltaram do passeio ao shopping de mãos quase abanando, pois gastaram pouco para reforçar seus elencos. Esta época do ano costuma ser mais parada em número de negociações do que no início da temporada, mas as poucas movimentações na Ligue 1 mostraram que as principais equipes estavam mais preocupadas em economizar. Na verdade, nada mais era do que um reflexo da situação financeira pouco favorável aos times neste momento.
Alguns dias antes do fechamento do mercado, foi divulgado o balanço geral dos clubes no último exercício financeiro. O resultado acendeu o sinal de alerta para todos, com o registro de um déficit. Por conta disso, a janela se tornou mais um espaço para a boataria rolar solta do que a oportunidade para a concretização plena de negócios. O Paris Saint-Germain ilustra muito bem isso: o clube sonhou em montar um verdadeiro esquadrão, mas ao olhar a carteira viu que não tinha condições nem de comprar uma bala.
O time da capital pretendia se reforçar com Anderson, Ryan Babel, Jérémy Ménez e Ugur Boral. Só que o treinador Antoine Kombouaré viu esta turma toda nem se aproximar da Île de France. O Olympique de Marselha, por sua vez, tinha a esperança de fazer um bom negócio com as possíveis vendas de Hatem Ben Arfa e Mathieu Valbuena. A esperança de ganhar uma grana considerável com os dois se transformou em decepção e uma folha salarial ainda cara. Resultado: agora, é esperar que ambos recuperem seu melhor futebol.
Com problemas crônicos desde o início da temporada, o Lyon destoou dos demais grandes e, para variar, fez um gasto bastante questionável. Ou dá para se justificar o pagamento de € 10 milhões em Dejan Lovren, um jovem defensor croata que, dizem os olheiros, terá um futuro promissor? Teria sido melhor guardar o dinheiro e usá-lo com mais sabedoria e puxar alguém da base para suprir as constantes ausências no setor, provocadas pela onda de lesões que insiste em pairar sobre o OL.
No futuro, Lovren pode até ser um monstro sagrado da zaga e todos celebrarão a esperteza do Lyon. No entanto, o time precisa de soluções imediatas, e o jovem croata, ao ser lançado na fogueira desde já, fica na obrigação de fechar o setor. Esta responsabilidade, tão nociva ao aperfeiçoamento dos jovens atletas, vem junto com a etiqueta com os tais € 10 milhões gastos – e se pagaram tanto por ele, é porque o moleque faz chover em campo, como pensa a torcida. Daí vem a pressão, cobranças e todo o velho filme cujo final se revela um drama.
No mais, as equipes francesas se preocuparam de forma geral em suprir suas carências. O Lille, com o afastamento de Plestan por contusão, trouxe Ricardo Costa para reforçar o setor defensivo. O Toulouse, com a necessidade de encontrar alguém para municiar Gignac, aposta suas fichas em Kazim-Kazim. No Monaco, o fracasso de Gudjohnsen fez o atacante islandês procurar outros rumos. O time do principado agora cuida para que Maazou não repita o papelão.
O Saint-Etienne se livrou de um problema chamado Ilan, que o incomodava há tempos. A insatisfação nítida do atacante se solucionou com uma transferência para o West Ham. Já o Nice tenta salvar sua temporada e, para isso, conta com as chegadas de Digard e Civelli. O Lorient se preocupou com seus setores defensivo e ofensivo; daí as contratações de Bourillon e Dubarbier.
Um dos clubes mais ativos em janeiro com relação às transferências foi o Boulogne. Sério candidato ao rebaixamento, o time encheu seu carrinho com Kapo, Bellaïd, Lorca e Yatabaré. Igualmente ameaçado, o Le Mans quis dar maior peso ao seu ataque com Thomert, Ouali, Narry e Abdi. Por outro lado, o líder Bordeaux viu apenas o jovem Lasne deixar o clube. Isso explica muita coisa.
O inferno de Nice
Cada vez mais ameaçado pelo fantasma do rebaixamento, o Nice viveu momentos de terror. A derrota para o Monaco por 3 a 2 no estádio Louis II doeu na alma de cada jogador, não apenas pelo resultado exibido no placar. A reação intempestiva da torcida após mais um tropeço da equipe deixou o elenco apreensivo com o futuro. Cerca de 200 seguidores do OGC invadiram o campo assim que o jogo terminou e destruíram o que viam pela frente – fossem cadeiras, alambrados ou torcedores do Monaco.
A baderna não se limitou ao campo. Nas ruas próximas ao estádio, foram registrados mais incidentes e a polícia usou gás lacrimogêneo para tentar conter a fúria dos vândalos. Duas pessoas foram detidas e outras duas ficaram feridas, mas as consequências destes atos inconsequentes deixaram traços difíceis de se apagar.
O atacante Loïc Rémy, um dos destaques da equipe, manifestou seu desejo de deixar o Nice. O desabafo do jogador veio após a derrota por 1 a 0 para o Auxerre. A torcida também reagiu de forma exagerada, com ameaças aos atletas depois de mais um resultado negativo. A sinceridade de Rémy, perfeitamente justificável, alimentou a animosidade destes torcedores, que agora tinham alguém para perseguir.
O fatídico jogo com o Monaco deixou outros estragos no Nice. Grégory Paisley e o próprio Rémy deixaram o gramado machucados. Desde 1996, os Aiglons não perdiam na casa do Monaco. Foi o décimo jogo sem vitória do OGC, sendo esta a quarta derrota da série, levando-se em consideração todos os campeonatos disputados pela equipe.
Gilbert Stellardo, presidente do Nice, costuma ser um dos primeiros a reclamar da arbitragem, evocando a tal “perseguição” ao seu time. No entanto, quando o assunto foi a violência dos torcedores, o dirigente simplesmente tirou o corpo fora. “Eles parecem selvagens que quebram por quebrar. Não são meus filhos, nem meus parentes. Não tenho poder sobre eles”, disse. Puxa vida, ainda bem que o OGC conta com um presidente ativo e preocupado com os assuntos que realmente interessam ao clube.
Com um ambiente tenso, pressão excessiva por parte de delinquentes travestidos de torcedores, jogadores importantes machucados e um presidente omisso, o Nice tenta juntar os cacos e encontrar alguma força para reagir na Ligue 1. O time não tinha pretensões de estar na briga pelo título, mas também não era para lutar para escapar do rebaixamento. Sem a tranquilidade necessária para superar este momento complicado, o OGC corre grande risco de terminar a temporada em situação ainda pior.


