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Reação dos turcos no minuto de silêncio às vítimas de Paris não tem uma resposta tão simples

Um dos principais debates durante a rodada de amistosos internacionais ocorreu na partida entre Turquia e Grécia. Todos os jogos com seleções europeias receberam a orientação de guardar um minuto de silêncio às vítimas dos atentados em Paris. No entanto, prevaleceram vaias e gritos durante o momento que deveria ser de respeito em Istambul. E os comentários imediatos trataram de atacar os turcos, majoritariamente muçulmanos, sugerindo que eles seriam coniventes às dezenas de mortes.

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Entretanto, ao contrário da dicotomia simplória que se impregna em diversos debates, a questão está longe de ser tão simples. Primeiramente, dentro do contexto em que o amistoso se inseria. O próprio amistoso entre Turquia e Grécia tinha as suas tensões. Ambos os países se enfrentaram em diferentes guerras, sobretudo a partir do Século XIX. Além disso, ambas as nações ainda se envolvem em uma longa disputa sobre a soberania do Chipre. Não à toa, segundo o site Hurriyet Daily News, o hino grego também chegou a ser vaiado em Istambul – e, em vão, Arda Turan teria pedido respeito aos torcedores. Detalhe é que o primeiro ministro grego, Alexis Tsipras, estava nas tribunas ao lado do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

Já sobre o minuto de silêncio, não foi um episódio isolado na rodada europeia. Durante o duelo decisivo entre Irlanda e Bósnia por uma vaga na Euro, um grupo de torcedores bósnios em Dublin também vaiou o momento. Minoria que, segundo a imprensa local, teria sido agredida por outros torcedores bósnios ainda nas arquibancadas – em alto de violência que, no entanto, também não se justifica. Quanto aos turcos, outros relatos indicavam gritos de “Allahu Ekber”, expressão por vezes atrelada aos jihadistas. Entretanto, o termo tem significância bem mais ampla no mundo islâmico – explicada muito bem neste texto de José Antonio Lima. Significa ‘Deus é grande’ e, além de usos religiosos, costuma ser ligado ao nacionalismo, sobretudo no norte da África.

Após a partida, o técnico Fatih Terim chegou a comentar o incidente durante o minuto de silêncio. “Estamos encenando um minuto de silêncio para as pessoas que morreram. Não podemos ser pacientes por um minuto? Quando vamos para fora do país, não somos capazes de explicar isso. Isso não reflete a todos nós”, declarou. Parecia mais preocupado com a repercussão internacional sobre a falta de respeito do que sobre um possível significado em si apoiando os atentados. Afinal, a mesma atitude já havia acontecido em outubro, durante duelo com a Islândia em Konya, quando se pedia um minuto de silêncio às dezenas de vítimas de um atentado à bomba em Ancara, também arquitetado pelo Estado Islâmico.

Cabe frisar: alguns torcedores turcos que vaiaram o minuto de silêncio talvez concordem com os ataques em Paris? Sim, é possível. Contudo, é leviano generalizar este tipo de pensamento a todos que estavam no estádio, quanto mais a todo um país. Nem mesmo o vídeo ajuda a determinar qual a amplitude das vaias e dos gritos nas arquibancadas – já que poderia ser algo específico a um setor onde estava colocado um microfone da transmissão, bem como a todos os cantos. Segundo pesquisa divulgada pelo Pew Research Center nesta terça, apenas 8% dos turcos são favoráveis ao Estado Islâmico, contra 73% contrários e 19% que não sabem avaliar as ações do grupo. Dados que podem ser aplicados à realidade do estádio e ressaltam como qualquer tipo de generalização trava um entendimento melhor da situação. Leva a extremismos e, muitas vezes, a mais preconceito e ódio. Qualquer dicotomia para tentar explicar um debate tão cheio de matizes é errônea.

As explicações sobre as manifestações podem ser diversas, sem entendimento único nem mesmo entre os turcos. Por isso, nada melhor do que ouvir quem vive no país e conhece bastante a realidade do futebol turco. Abaixo, reproduzimos o texto de Emre Sarigul, do site Turkish Football – referência sobre o assunto em língua inglesa. Vale para expandir a compreensão sobre o assunto e perceber quão ampla é a questão:

Turquia e Grécia disputaram um amistoso internacional no Estádio Fatih Terim, em Istambul, mas o minuto de silêncio feito às vítimas dos ataques em Paris ganhou a maioria das atenções após a partida. Torcedores turcos foram acusados pela mídia de gritar Allahu Ekber (Deus é grande) durante o minuto de silêncio.

Existem algumas questões que precisam ser esclarecidas. Primeiramente, havia torcedores, o que pode parecer estranho se você não está acostumado à cultura do futebol turco, para os quais silêncios antes dos jogos raramente duram o minuto todo. A questão principal, entretanto, é a percepção na Turquia que uma dor seletiva está sendo praticada. Mais de 100 pessoas foram recentemente explodidas em um ataque a bomba em Ancara, em adição a incontáveis ataques terroristas ocorridos no país durante o último ano, mas eles não receberam o mesmo tipo de atenção da Uefa durante os jogos. Não deveria vir como surpresa que muitos torcedores estão frustrados pela maneira como o terrorismo parece diferente, dependendo do país em que ele é perpetrado.

Dois erros, entretanto, não garante o direito. E, enquanto vaiar durante o silêncio era desagradável, o rumor dizendo que os torcedores estavam cantando Allahu Ekber como se estivessem comemorando os ataques não poderia estar mais longe da verdade. A maioria dos torcedores estava cantando um popular lema antiterrorismo, que basicamente se traduz em ‘mártires nunca morrem, o país não será dividido’.

Agora, em relação a outro canto popular – Ya Allah Bismillah Allahu Ekber – ele é usado predominantemente em círculos nacionalistas e deriva de bandas militares otomanas. As marchas foram tradicionalmente usadas para reunir as tropas, mas os torcedores nos jogos de futebol as usam para tentar empurrar os jogadores.

O povo turco não é estranho a atos de terrorismo, tendo convivido com o problema por décadas. Muitos estão plenamente conscientes do trauma que os parisienses estão atualmente atravessando e simpatizam com o povo francês. Havia inúmeras vigílias realizadas ao redor da Turquia para as vítimas dos ataques em Paris e a ponte do Estreito de Bósforo foi iluminada com as cores da bandeira francesa. Que as vítimas do terrorismo na França, na Turquia, na Síria, no Iraque e em todos os outros países descansem em paz.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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