Copa da FrançaFrança

Quevilly infernal

O Olympique de Marseille sofreu um duro golpe em suas pretensões para a temporada. A eliminação na Copa da França para o modesto Quevilly reforça o caráter montanha-russa da equipe, capaz de alternar apresentações inteligentes (com nas duas partidas contra a Internazionale pela Liga dos Campeões) com exibições pífias – exatamente como a vista diante do clube da terceira divisão.

O Quevilly não vence um jogo pelo National desde 20 de dezembro e está ameaçado pelo rebaixamento. Mesmo assim, foi capaz de impor a sétima derrota consecutiva do OM levando-se em consideração todos os torneios que disputa. O técnico Didier Deschamps logo assumiu a culpa pela eliminação nas quartas de final, falou em “sentimento de vergonha” e agora precisa levantar o moral de seus comandados para evitar novas quedas ainda mais dolorosas.

Era a oportunidade ideal para os marselheses esquecerem um mês de março difícil. A vaga nas quartas de final da Liga dos Campeões apenas maquiou o momento ruim vivido pelo time, que vê apenas a LC e a Copa da Liga Francesa como oportunidades de salvação. A Ligue 1 já era faz tempo, já que o OM ocupa um pouco honroso nono lugar, 20 pontos atrás do líder e maior rival Paris Saint-Germain.

O Olympique de Marseille parece não ter aprendido as lições de um passado recente, como quando se despediu da mesma Copa da França pela porta dos fundos diante do Carquefou em 2008. Deschamps tinha a velha dúvida na cabeça: escalar força total ou um time misto para preservar seus principais jogadores para o duelo contra o Bayern de Munique? Preferiu a segunda opção, mas a situação não seria muito diferente se os titulares tivessem começado a partida.

André-Pierre Gignac ganhou sua primeira chance como titular em 2012 e não decepcionou. O camisa 10 ao menos se esforçou e criou boas chances ofensivas. No entanto, era só ele que tentava alguma coisa. Seus demais companheiros pareciam com a cabeça bem longe do estádio Michel d’Ornano. Jordan Ayew, por exemplo, irritou com seu individualismo em excesso. Brandão brigou com a bola e seu domínio foi algo terrível de se ver.

O gol marcado pelo Quevilly logo no começo não serviu para mexer com os marselheses. O OM só se espreguiçou quando André Ayew e Loïc Rémy entraram. Os dois, aliás, estiveram entre os raros jogadores que podem tirar algo de positivo desta partida. O ganense, muito criticado por suas atuações de pouco destaque nos recentes duelos da equipe, deu duas assistências. O segundo, embora não esteja 100% fisicamente após sofrer uma lesão na coxa, marcou dois gols.

Uma saída errada de Bracigliano já no fim da prorrogação coroou o conjunto de falhas do OM durante 120 minutos. O Quevilly, que chega pela segunda vez à semifinal da Copa da França, mergulha os marselheses em um rio fundo, caudaloso e com uma pedra amarrada nos pés. Se alguém pode comemorar a pequena folga no calendário, deveria se preocupar bastante com os duros desafios que o time terá pela frente em um curtíssimo intervalo.

Para começar, a próxima semana reserva apenas o primeiro duelo contra um Bayern de Munique em excelente forma e que tem arrasado seus adversários sem piedade. Não daria para escapar de um confronto complicado na LC, mesmo diante do APOEL Nicósia – como o Lyon aprendeu bem. Se conseguir sobreviver à primeira passagem do trator alemão, o OM encara o Montpellier e depois volta para o segundo round diante dos alemães. Daí, virão o clássico contra o PSG e a decisão da Copa da Liga Francesa contra o Lyon.

Resumindo: os marselheses terão uma sequência infernal contra um Bayern implacável, enfrentarão os dois times que brigam pelo título francês – sendo que um destes duelos é um clássico contra seu mais ferrenho adversário – e terão que tirar alguma força de sabe-as lá onde para a decisão de um campeonato contra um rival de peso. O panorama do OM caminha para um time arrasado e com um fim de temporada dos mais tenebrosos.

Líder sem convencer

O Paris Saint-Germain também sofreu no Michel d’Ornano, mas pelo menos teve algum motivo para comemorar. O time da capital voltou a jogar mal, mas arrancou um empate por 2 a 2 com o Caen com um gol salvador de Jallet nos acréscimos. O resultado foi suficiente para a equipe aumentar um ponto para o Montpellier na liderança da Ligue 1.

O PSG não encanta, mas exibe aquela sorte de campeão. O time deixa uma impressão estranha, que até coloca em dúvida a capacidade de levar a taça para o Parc des Princes. Também não para dizer em eficiência; talvez o melhor seria falar em um time burocrático, mas sem dúvida com uma incrível capacidade de tirar um coelho da cartola quando as luzes estão prestes a apagar.

Sem contar com os suspensos Nenê e Sissoko, Carlo Ancelotti montou o PSG em um 4-42 com Hoarau e Gameiro no ataque. O treinador se viu obrigado a mexer no esquema com apenas meia hora de jogo. Com uma defesa em apuros, um setor ofensivo incapaz de incomodar o rival e sem conseguir uma longa sequência de passes, o time passou para um 4-2-3-1. A defesa se reorganizou e passou menos sustos, mas mesmo assim o Caen continuava com o domínio da partida em suas mãos.

O SMC só abriu o placar no segundo tempo, mas a sorte logo apareceu a favor do PSG. O gol de empate de Pastore ilustra bem como o time da capital parece ungido por algo especial. Não dá para encontrar uma explicação lógica para o chute de Hertaux, que ao tentar afastar o perigo da área acertou exatamente o argentino da única forma na qual a bola morreria nas redes.
O segundo gol do Caen nasceu da grande dificuldade da defesa do PSG nesta temporada: as bolas cruzadas na área. Como nos duelos contra Lyon e Montpellier, os parisienses conseguiram o empate quando já estavam à beira do abismo, em outro lance no qual contaram com um desvio em um defensor. Jallet agradeceu e definiu o resultado.

O PSG não tem aquela qualidade nem a autoridade de um time que entra para a história. Mesmo com defeitos em excesso para uma equipe que luta pelo título nacional, o clube da capital também conta com a ajuda involuntária de seus concorrentes. O Montpellier perdeu para o Nancy por 1 a 0 fora de casa, mas tem motivos de sobra para se irritar com o resultado.

Uma atuação desastrosa do árbitro Philippe Kalt mudou os rumos da partida. Seu primeiro grande erro foi no fim da primeira etapa. Ele se precipitou ao marcar falta de Hilton sobre Traoré, quando a bola sobrou para Niculae marcar. O gol foi anulado, o brasileiro expulso e o Montpellier ficou com um a menos. No segundo tempo, Kalt mostrou o cartão vermelho de forma correta a Stambouli, mas se complicou todo ao marcar pênalti – a infração foi fora da área. André Luiz bateu e converteu o gol da vitória do Nancy.

Com nove, o Montpellier ainda assim mostrou forças, como bem ilustrou Olivier Giroud, que tentou se multiplicar no gramado. Para superar o PSG, o MHSC deve superar bem mais do que os seus adversários em campo. Contra o sobrenatural, porém, o desafio se mostra cada vez mais complicado.

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