França

Queijo francês

A França deu a impressão de que surgiria completamente renovada ao entrar em campo no amistoso contra a Costa Rica baseada em um 4-3-3. A esperança de que os Bleus voltassem a exibir um futebol com um mínimo de qualidade até ficou no ar, mas a formação tática escolhida por Raymond Domenech ainda deixa algumas dúvidas a poucos dias do início da Copa do Mundo. Calma, não se trata de uma cornetagem pura e simples; a falta de tempo e alguns problemas complicam a vida do técnico para fazer o time engrenar sob esta forma de jogar.

Quem se lembra das partidas contra Espanha e Irlanda sabe que a seleção francesa enfrentava uma seca em seu setor ofensivo. Não dá para negar que o 4-3-3 fez a equipe fluir melhor diante dos costarriquenhos. Por outro lado, porém, expôs outra preocupação. Domenech ainda não encontrou o “ponto ideal” para compor a zaga central dos Bleus. Nem mesmo a confirmação de William Gallas e Eric Abidal serve para deixar o restante da equipe tranquila.

Na vitória francesa por 2 a 1 sobre a Costa Rica, os Ticos aproveitaram uma falha de posicionamento de Abidal para marcar seu gol. Para piorar, Gallas nitidamente se poupou, não apenas em divididas ríspidas que realmente exigiriam isso. O jogador do Arsenal deixou dúvidas com relação às suas reais condições físicas. Sébastien Squillaci está de sobreaviso.

Outros fatores de preocupação residem no meio-campo. Para começar, há a tendência natural de Jérémy Toulalan ficar isolado no combate. Isso seria amenizado se Florent Malouda resolvesse ajudar de vez em quando na marcação e não pensasse apenas eu abaixar a cabeça e partir para frente. Além disso, os Bleus demonstraram uma certa preferência em atuar pelo lado esquerdo do campo, principalmente com Franck Ribéry – algo que facilita a marcação dos adversários, apesar da qualidade do jogador do Bayern de Munique.

Por fim, há uma questão inquietante. A ausência de Lassana Diarra fez Domenech optar pelo 4-3-3, com seus defeitos e qualidades. Contudo, o treinador havia baseado sua convocação no antigo 4-2-3-1, com dois volantes. A versão ofensiva dos Bleus anima, mas ao mesmo tempo evidencia uma falha. Se Toulalan se machucar, Alou Diarra pode substituí-lo sem dificuldades. Uma possível ausência de Malouda daria uma chance para Abou Diaby. E se Yoann Gourcuff, por algum motivo, não estiver em campo?

Neste caso, o jeito também seria escalar Diaby, mais caído pelo lado direito, com notória queda de qualidade na armação. Não há alguém capaz de substituir Gourcuff à altura. Sidney Govou e Mathieu Valbuena até poderiam ocupar a vaga, mas eles não têm o volume defensivo ideal. Em outras palavras, a seleção francesa precisa torcer para que ninguém se machuque ou seja suspenso.

Preocupação

Se a vitória por 2 a 1 no amistoso contra a Costa Rica em Lens deixou uma expectativa positiva em torno dos Bleus, a partida contra a Tunísia serviu para preocupar a torcida. O otimismo foi efêmero e os progressos vistos contra os Ticos parecem ter sido apagados em uma velocidade incrível. Em Rades, os franceses por pouco não sucumbiram diante dos donos da casa, com um inevitável ponto de interrogação sobre qual será a cara da equipe na estreia da Copa.

De cara, os erros defensivos continuam a olhos vistos. Foi assim que a Tunísia abriu o placar com Jemaa logo aos cinco minutos. As Águias de Cartago até poderiam ampliar a vantagem logo depois em nova falha da zaga, que desde já se tornou o maior tormento para Domenech. O mesmo panorama desenhado no duelo anterior contra a Costa Rica parecia se formar no caminho dos Bleus.

Parece uma repetição exagerada, mas novamente a França se esqueceu de que existe jogo pelo lado direito. A concentração excessiva das jogadas ofensivas pela esquerda tornou a vida da defesa tunisiana bastante tranquila. Domenech aproveitou para fazer muitas substituições durante o segundo tempo, com uma pequena melhora do quadro – mas nada que arrancasse suspiros.

Gallas fez o gol de empate, mas isso não o livrou de outra atuação questionável. sim, ele foi melhor do que contra a Costa Rica, mas não deixou de cometer falhas. No lance do gol tunisiano, por exemplo, ele simplesmente deixou Fahid Ben Khalfallah ter a liberdade necessária para cruzar com perfeição para a chegada de Jemaa, completamente livre dentro da área.

Abidal também aprontou das suas ao permitir um avanço perigoso de Ben Khalfallah que quase resultou no segundo gol dos anfitriões. O pior foi constatar que nem mesmo a alteração feita por Domenech serviu para melhorar o ambiente. Para a segunda etapa, o treinador tirou Abidal e colocou Marc Planus. O que se viu, novamente, foi o domínio da Tunísia nos primeiros minutos – e Ben Khalfallah nem quis saber quem vinha pela frente para continuar com sua sessão de dribles.

Entre as inúmeras mudanças feitas por Domenech, a única que realmente alterou alguma coisa foi a entrada de Diaby, que diminuiu um pouco o sofrimento da defesa francesa. Os Bleus precisam entender que, em um 4-3-3, os laterais não devem se empolgar em suas subidas para o ataque, pois já há gente suficiente e de qualidade para fazer isso. Se todos pensarem que uma festa, a defesa ficará ao deus-dará sempre.

Entretanto, a principal dificuldade dos Bleus pouco antes do início do Mundial está no relógio. Corrigir o desequilíbrio entre defesa e ataque, com a definição do posicionamento ideal de cada jogador para que o companheiro não se sobrecarregue, leva um certo tempo, algo que Domenech não tem. O jeito será torcer para que os Bleus aproveitem muito bem os últimos dias pré-Copa para encaixar o esquema de jogo. Não dá para o time sair da África do Sul voando em campo, já com o entrosamento adquirido, mas no avião de volta ao país após uma eliminação precoce.
 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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