Que venha a repescagem

De nada importa o resultado da partida desta quarta-feira contra a Áustria, na última rodada das Eliminatórias Europeias da Copa-2010. Os Bleus já sabem que seu futuro será definido nos dois jogos da repescagem que terá pela frente. O duelo contra os eliminados austríacos no Stade de France não passará de um amistoso de luxo para os comandados de Raymond Domenech, que estão com a cabeça em quem será o adversário final na briga por uma vaga no Mundial.
Para Domenech, o confronto com a Áustria terá serventia “do ponto de vista espiritual”. Já que ele não teve competência para fazer o time funcionar contra os mesmos austríacos, fora de casa, logo no início das Eliminatórias-2010 (quando os Bleus foram derrotados), agora o técnico tenta encontrar alguma desculpa motivacional barata. O treinador até poderia utilizar este recurso, mas com a vaga na mão.
Agora, os jogadores estão mais preocupados em se poupar para seus clubes, pois já deverão entrar em campo neste fim de semana – e na próxima há duelos importantes pela Liga dos Campeões também. A esta hora, falar em teste soaria como uma heresia. Afinal, fazer qualquer experiência a esta altura do campeonato teria efeito praticamente nulo, ainda mais em um jogo que nada vale.
Pode ser uma oportunidade para Karim Benzema, em excelente forma no Real Madrid, obter o que ele tanto deseja: tempo de jogo como titular dos Bleus. Resta saber se realmente isto serve de motivação para o atacante, que ainda não convenceu com a camisa azul. A defesa também pode sofrer modificações, até para evitar que Evra, Abidal e Gallas levem um cartão amarelo e fiquem suspensos para a partida de ida repescagem. Escudé e Clichy têm chances de aparecer no onze.
Talvez a maior experiência que Domenech possa fazer contra os austríacos seja na parte tática. Contra Ilhas Faroe, o treinador escalou a equipe em um 4-4-2, mais de um ano após utilizá-lo. Está certo que o time poderia estar em um 10-0-0 que não faria a menor diferença contra um adversário tão fraco, mas o jogo contra a Áustria seria um teste definitivo para esta formação. Foi exatamente em Viena, quando os Bleus caíram por 3 a 1, que Domenech usou o 4-4-2.
No 4-3-2-1 utilizado nos últimos meses, a França pouco foi às redes – foram apenas seis gols nas nove últimas partidas. O problema está em encaixar seus melhores jogadores no 4-4-2, caso resolva adotá-lo para a repescagem. Henry, Anelka, Ribéry, Benzema, Gignac, Gourcuff… Sem dúvida, seria um time bem ofensivo, mas com poucas garantias de que funcionaria na prática.
São muitos nomes para poucas vagas no setor ofensivo, e Domenech ainda demonstra gosto por improvisações estranhas, como ao recuar Henry. Com ele e Henry abertos pelas pontas, Anelka e Gignac (ou Benzema) na frente, cadê o verdadeiro organizador do meio-campo? Buscar um padrão tático arriscado parece ser uma das últimas cartadas do técnico para evitar o pior.
Quem virá
A Fifa deu uma ajuda para os franceses ao mudar a regra no meio do campeonato. A “criação” de cabeças-de-chave para a repescagem livrou os Bleus de confrontos duros contra Portugal e Rússia. Só que do outro lado da moeda, a França corre o risco de enfrentar adversários tão complicados quanto. E é aí que pairam as incertezas quanto ao destino da equipe de Domenech.
Um dos possíveis rivais seria a Ucrânia. A equipe foi a única a derrotar a Inglaterra (ok, os ingleses já estavam classificados há séculos e nada queriam com a partida em Dnepropetrovsk) e apresenta boa solidez defensiva – levou apenas seis gols. Para a França, o histórico ajuda: em cinco partidas contra os ucranianos, foram duas vitórias e três empates. Seria o necessário?
Há também a possibilidade de duros confrontos contra a Irlanda, que contam com a mesma força defensiva e um ataque de poucos atrativos. Desde 1981, os irlandeses não vencem a França, e não marcam gols nos Bleus há quatro jogos. Só que a Itália sentiu o peso de atuar em Dublin e apenas se classificou para o Mundial graças ao gol salvador de Gilardino no fim do jogo e que definiu o empate por 2 a 2.
Em outros tempos, dizer que se aproximava uma partida contra a Bósnia não colocaria muito medo em qualquer das grandes seleções europeias. Hoje, a seleção bósnia vive uma realidade completamente diferente. A equipe ocupa a vice-liderança de um grupo liderado pela Espanha, que tem um incrível aproveitamento de 100%. O que chama a atenção são os números apresentados pelas duas seleções.
A Bósnia marcou, antes da última rodada das Elimintórias, 23 gols – exatamente a mesma quantidade feita pela Fúria, atual campeã continental. O poderio ofensivo dos bósnios se explica pelo trio que faz chover na Bundesliga. No ataque, Dzeko voltou a ter ao seu lado a companhia de Ibisevic; ambos, goleadores tanto no Wolfsburg como no Hoffenheim. Para municiá-los, Misimovic, um dos principais “garçons” do Campeonato Alemão.
O retrospecto dos franceses contra a Bósnia se mostra bastante animador: Em três jogos, os Bleus ganharam os três, marcaram dez gols e sofreram apenas dois. Como os tempos mudaram, não custa nada torcer para que esta escrita continue e os bósnios tenham a chance de provar sua qualidade contra outros rivais.


