PSG City

Um clube que há tempos não conquista títulos importantes troca de comando e passa para as mãos de investidores árabes nadando em dinheiro. Mesmo com um grande investimento em reforços, o time não responde em campo em um primeiro momento e o treinador, parte mais fraca da corda, é convidado a deixar o cargo. Em seu lugar, chega alguém com maior experiência para dar continuidade ao projeto megalômano dos novos proprietários. Parece a história recente do Manchester City, mas a descrição também se aplica ao Paris Saint-Germain.
Em 2009, a demissão de Mark Hughes do Manchester City causou grande repercussão na imprensa inglesa, assim como se vê agora nos meios de comunicação franceses, ainda perplexos com a saída de Antoine Kombouaré. Há tempos, o treinador estava pressionado, mas o simbólico título de inverno da Ligue 1 parecia que lhe daria alguma sobrevida no cargo. No entanto, o pensamento dos investidores do QSI falou mais alto e o técnico perdeu seu emprego.
No paralelo com o Manchester City, o xeique Mansour bin Zahyed Al Nahyan, dono do clube inglês, trouxe Roberto Mancini para o lugar de Hughes. O plano era simples: com um treinador de nível internacional, ficaria mais fácil convencer bons jogadores a atuar pelo clube, reforçando a ideia de haver um projeto esportivo forte. O PSG segue a mesma linha. Com a boataria rolando solta com relação a reforços galácticos, o clube da capital francesa tratou de dar algum fundamento aos seus elevados investimentos, como para dizer que não se trata de jogada de marketing.
Daí vem a escolha por Carlo Ancelotti. E o currículo do treinador, ex-Chelsea e Milan, por si só já explica a lógica dos investidores do QSI, com nada menos do que dois títulos da Liga dos Campeões. Nomes como Kaká, Alexandre Pato, Tevez e Beckham, por exemplo, prefeririam trabalhar com Kombouaré ou Ancelotti? Claro que a experiência do primeiro conta muitos pontos, mas isso também não significa dizer que o novo desempregado seja uma completa toupeira.
O risco de Leonardo
O pecado de Kombouaré foi não possuir um currículo internacional como desejado pelos novos donos do PSG. As eliminações da Copa da Liga Francesa e da Liga Europa, além de derrotas marcantes como diante do Nancy e no clássico contra o Olympique de Marselha, deram os argumentos necessários para fortalecer o plano do QSI em mandá-lo embora o quanto antes. Para os qatarianos, ele era um estorvo desde o começo. Um estranho no ninho diante das pretensões estelares para o clube.
Kombouaré tem seus defeitos, como seu autoritarismo por vezes excessivo. Sua saída evidencia como Leonardo perde força dentro do PSG. O diretor esportivo do clube recebeu severas críticas por sua atitude. A torcida parisiense condenou a demissão do treinador, muito respeitado nas arquibancadas por seus feitos como jogador do time, pelo trabalho feito nos últimos tempos e pela posição de Davi contra a figura do Golias representado pelos “invasores” qatarianos.
O brasileiro assumiu um enorme risco ao mandar Kombouaré arrumar suas malas. Leonardo agora tem o desafio de provar que a decisão de demitir o treinador foi correta, mas para isso depende de um bom rendimento da equipe na Ligue 1 – nada menos do que conquistar o título. Qualquer coisa abaixo disso será um golpe duríssimo em seu prestígio junto aos torcedores, que já não é mais o mesmo de quando chegou ao Parc des Princes.
A desconfiança em torno de Leonardo aumentou também por conta de outros fatores. Diante dos microfones, ele havia apoiado Kombouaré e tentou aliviar a pressão em cima dele. Nos bastidores, porém, o dirigente se reuniu com Ancelotti em novembro para já tratar dos detalhes para assumir o cargo de treinador. A torcida não gostou de ver a forma como o brasileiro tratou o Parc des Princes, considerado velho e pouco adaptado aos padrões modernos para estádios de futebol, com a ideia de uma arena multiuso.
Ancelotti chega ao PSG na condição de treinador mais bem pago da história da Ligue 1, com salário de € 6 milhões por temporada – algo bem próximo do que José Mourinho ganha do Real Madrid. O italiano, em férias na Disney, deve se juntar aos seus novos jogadores a partir de domingo, quando viajará com o elenco para o Qatar para os treinos de intertemporada. Sua estreia será em 5 de janeiro contra o Locminé pela Copa da França. Seu primeiro grande desafio, porém, ocorrerá nesta semana. Uma reunião com Leonardo definirá as possíveis contratações e dispensas dentro do elenco para o restante da temporada.
O QSI prepara mais uma grande investida na próxima janela de transferências. Os investidores qatarianos não medem esforços para cumprir seu objetivo de fazer do PSG um time continental. Se no início da temporada foram gastos cerca de € 80 milhões na contratação de reforços, os donos do clube da capital darão uma nova prova de sua força financeira. A segunda revolução no Parc des Princes está prestes a começar.
De cara, o PSG deve trazer pelo menos um meia e um atacante de impacto; talvez, um lateral direito também chegará. Com um Pastore oscilante e um ataque que sofre pane seca quando o argentino está mal, o QSI está pronto para colocar a mão no bolso. Fica difícil conter a indústria da boataria, mas há uma certeza: os jogadores com mais tempo de casa, que ralaram nas épocas de penúria e sentiram na pele a fúria da torcida nos protestos pelos resultados ruins, perderão prestígio. Como será a reação deles com o cada vez mais declarado papel de meros coadjuvantes reservado a eles?
A princípio, o que parece ser uma indústria de sonhos transforma o PSG em uma constelação vazia. Um time sem qualquer identificação com a torcida, montado mais como um brinquedo de seus donos podres de ricos. Tal política pode até dar certo e encher a galeria de troféus do Parc des Princes, mas a torcida quer mesmo ir ao estádio para vibrar com sua equipe, e não na qualidade de fãs tresloucados de popstars e estrelas de Hollywood, com uma legião de paparazzi em seus pescoços.


