Futebol francês

Primo rico

Por € 14 milhões, o Lyon acertou a contratação de Éderson. Cobiçado por Real Madrid e Manchester United, o meia-atacante trocará o Nice pelo OL a partir da próxima temporada. Para um jogador desconhecido até mesmo no Brasil, sua terra-natal, pode-se imaginar um exagero por parte dos lioneses em torrar tanto dinheiro assim. Realmente, os valores envolvidos na transferência do brasileiro assustam, mas se justificam quando analisada a política adotada pelo clube nos últimos tempos quanto a reforços.

Há algumas temporadas, Mathieu Bodmer e Kader Keita se tornaram os principais nomes do Lille. O pequeno clube, até então coadjuvante na Ligue 1, chamou a atenção por seus ótimos resultados obtidos com um elenco formado por atletas de pouco renome. Duas classificações seguidas para a disputa da Liga dos Campeões, além da ameaça de brigar pelo título francês, foram suficientes para convencer o Lyon de que algo era necessário para barrar um potencial inimigo doméstico.

Para 07/08, o LOSC não se classificou para a disputa da LC, o que facilitou aind amais as coisas para o OL.. Para completar a queda do Lille, o Lyon ofereceu a exorbitante quantia de € 16 milhões por Keita e outros € 6,5 milhões por Bodmer. Sem ação diante de propostas irrecusáveis, o clube comandado por Claude Puel se despediu de seus dois principais jogadores. Se no Lille ambos se destacaram, no OL se tornaram coadjuvantes de luxo e brigam por algumas migalhas entre os titulares.

Bodmer e Keita são os casos mais claros da prática adotada pelo Lyon para manter sua hegemonia na França. Com seu poder econômico bem superior ao dos adversários, fica bem mais fácil contratar a(s) estrela(s) de potenciais concorrentes. Enfraquecer e desestabilizar os rivais que ousam desafiar sua força soa como algo moralmente questionável, mas impossível de se impedir. Se há dinheiro suficiente para se fazer a negociação e tudo for feito às claras, não há nada de errado.

Quando o Lyon erra a mão com a contratação de reforços, como aconteceu nesta temporada, ao menos a equipe se garante diante de adversários fracos e que usam mal os recursos adquiridos. O Lille, por exemplo, recebeu uma bolada, mas não soube como utilizá-la para formar um time decente para disputar a Ligue 1. e assim segue o ciclo, até o surgimento de um número tal de valores em tantas equipes distintas que se tornaria impossível trazer todos ao mesmo tempo.

Desde já, Éderson se candidata ao posto de sucessor de Juninho Pernambucano. No Nince, ele demonstrou suas qualidades e provou ser um bom jogador. se repetir no OL o mesmo desempenho dos rubro-negros, ótimo. Caso sinta dificuldades para se adaptar e faça companhia a Bodmer e Keita no banco, também não será de todo mal aos lioneses – afinal, ele poderia dar certo em outro clube e causar muitas dores de cabeça. Melhor tê-lo ao seu lado, não importa em qual situação, do que vê-lo causar problemas.

Com esse pensamento, o OL dificulta o surgimento de concorrentes, algo que torna o campeonato francês ainda mais monótono. Trata-se, porém, de uma tática de risco: afinal, uma hora algum desses reforços milionários precisará justificar em campo tamanho investimento. Se contratar apenas para deixar na ‘geladeira’, o Lyon pode formar um elenco estelar, mas se arrependerá quando analisar a relação custo-benefício. Enquanto isso, sem tanto alarde, o Bordeaux montou um grupo equilibrado sem gastar muito. Quando algum ‘primo pobre’ tomar as rédeas, o ‘rico’ verá acelerar seu processo de decadência.

A ressurreição do Olympique

Bastou o mercado de transferências se reabrir em janeiro para o nome de Djibril Cissé circular em um sem número de boatos. O atacante estava mesmo em baixa no Olympique, com todos os holofotes voltados para Mamadou Niang. Contratado em definitivo para ser a referência no ataque da equipe para a disputa da Liga dos Campeões, Cissé decepcionou. Seu futuro parecia residir na Inglaterra novamente, mas o OM resolveu bancar a permanência dele – e não se arrependeu.

Com a saída de Niang para a disputa da Copa Africana de Nações, Cissé tinha a chance de ouro de calar seus críticos e justificar a confiança da diretoria marselhesa. A insistência valeu a pena. Em quatro rodadas, ele balançou as redes seis vezes, três delas no massacre de 6 a 1 sobre o Caen. Antes da pausa de inverno, o atacante só havia marcado dois gols e encontrava dificuldades para achar a melhor forma de se associar ao senegalês. Relegado ao banco de reservas, Cissé simboliza a boa fase vivida neste momento pelo OM.

A grande mudança foi promovida por Eric Gerets. O técnico resolveu deixar de lado o 4-5-1 para adotar um 4-4-2, testado no final do duelo contra o Nancy. Na nova formação, Cissé demonstrou um excelente entrosamento com Mathieu Valbuena. O primeiro atuou como um pivô, preparando jogadas ofensivas para quem viesse pelas pontas. O segundo, por sua vez, atuou mais fora da área, com intenso deslocamento para facilitar a armação e conclusão de lances ofensivos. A aposta deu tão certo que Cissé deixou um hat-trick, enquanto Valbuena fez dois – um deles de longe, candidato a um dos mais belos da temporada.

Agora, Gerets arrumou uma dor de cabeça considerável: como recolocar Niang na equipe? Com a nova formação, o OM mostrou-se bem ofensivo, ainda mais com o apoio constante de Nasri à dupla de ataque. Arriscar em um ‘quarteto mágico’ parece ser arriscado, mas as experiências de um passado recente mostraram que o senegalês e Cissé não rendem tão bem juntos. Talvez seja melhor para Niang esperar um pouco para ver como a equipe se comportará daqui para frente.

A favor de Cissé, além do rendimento exibido nas últimas partidas, conta a esperança de disputar a Eurocopa. Se mantiver o mesmo nível, o atacante dará motivos suficientes para uma possível convocação de Raymond Domenech, que ignora de forma solene David Trezeguet e seu desempenho marcante nesta temporada pela Juventus. Se Thierry Henry, Nicolas Anelka e Karim Benzema são nomes praticamente certos na lista final, resta ao jogador do Olympique reconquistar a confiança do técnico dos Bleus. Se ele conseguiu fazer uma vez no OM, não deve ter problemas para repetir isso.

Quanto aos marselheses, os deslizes do começo da temporada aos poucos são apagados. Se no início a presença na zona de rebaixamento assustava a torcida, agora o objetivo de conquistar uma vaga na LC pelo segundo ano consecutivo deixou de ser uma utopia. O Olympique, depois de golear o Caen, foi para a oitava posição, a seis pontos do Nancy, terceiro colocado. Há quem possa duvidar do potencial do OM pelo erro claro da arbitragem e que prejudicou o Caen. Quando vencia por 1 a 0, o Stade Malherbe chegou ao segundo gol em um lance no qual a bola nitidamente passou a linha. O lance seguiu como se nada tivesse acontecido.

Os marselheses, com maturidade, souberam levantar a cabeça e partir para cima do adversário, uma característica ausente em diversos confrontos decisivos (como contra o Liverpool, no Vélodrome, pela LC). A mesma vontade se observou nos duelos contra Valenciennes (vitória por 3 a 1) e Nancy (1 a 1), o que afasta uma apressada conclusão sobre a ‘sorte’ contra o Caen. Há boas perspectivas, mas Gerets precisa manter esse equilíbrio para o OM ir ainda mais longe.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo