França

Presidente do comitê de ética da federação francesa: “Peço a Le Graët que se demita, ele perdeu a lucidez”

Presidente da federação francesa, Noel Le Graët recebe duras críticas pela maneira como se referiu à Zidane, embora seu histórico tenha de negação ao racismo a acusações de assédio sexual

A situação do presidente da Federação Francesa de Futebol, Noel Le Graët, parece insustentável. As declarações abjetas do cartola não são exatamente uma novidade, com um histórico em que já negou o racismo no futebol, menosprezou atos contra a homofobia, desdenhou das condições dos trabalhadores no Catar, distribuiu mordomias entre dirigentes e atacou jogadores. Já nos últimos dias, as críticas sobre o presidente se tornaram ainda maiores pela maneira como se referiu com desprezo a Zinédine Zidane, ao ser questionado sobre a possibilidade do craque se tornar técnico da seleção. A postura gerou imediatos repúdios, com manifestações inclusive de lideranças dos Bleus, como Kylian Mbappé e Hugo Lloris. Embora Le Graët tenha se desculpado, os pedidos para que ele se demita foram engrossados até pela Ministra dos Esportes, Amélie Oudéa-Castera. E num momento em que ele também é investigado por assédio sexual, o presidente do Comitê de Ética da federação, Patrick Anton, indicou que finalmente o cartola será intimado para deixar o cargo.

Anton conversou com o L’Équipe sobre o assunto. Apesar da demora para o Comitê de Ética se manifestar de forma incisiva, depois de tantos entraves que já deveriam ter derrubado o cartola, o presidente do organismo foi duro para se referir a Le Graët. O Comitê de Ética pode entrar com um processo no Comitê Disciplinar para exigir a retirada do presidente da federação, mas, antes disso, vai sugerir para que ele mesmo peça demissão. Nesta quarta-feira, uma reunião do Comitê Executivo da FFF poderá definir o futuro do dirigente.

“Peço ao presidente da federação que se retire de suas funções e se demita. Precisamos de um poder forte e sereno, o que infelizmente não é mais o caso. Ao longo da temporada, temos que aplicar regras de ética aos dirigentes – incluindo os presidentes distritais ou das ligas – e encaminhar os arquivos aos comitês disciplinares se eles passam dos limites. Em relação ao presidente da federação, se evidentemente não pretendemos levar o assunto a uma comissão disciplinar, podemos pedir para que ele se retire pelo interesse do futebol acima de tudo”, declarou Anton.

“Não queremos comprometer os bons resultados financeiros e esportivos da federação com uma novela que é mais das páginas de fofoca que do caderno de esportes”, complementou o presidente do Comitê de Ética. “Faço esse apelo pela aplicação dos princípios éticos da federação, que bem recorda a carta de ética. É preciso ter serenidade para seguir em frente. Essa postura deveria ser evitada. Quando isso começa, não sabemos onde termina. Assim que uma língua se desenrola, todas as outras seguem”.

A pressão sobre Le Graët aumentou substancialmente sobretudo desde setembro. Na ocasião, a revista SoFoot publicou uma reportagem com denúncias de funcionárias da federação, que diziam ter recebido mensagens de cunho sexual do dirigente e foram vítimas de outros tipos de assédio, tocadas pelo chefe e convidadas a encontros particulares. Posteriormente, a Radio France revelou outros depoimentos de funcionários, homens e mulheres, que relatavam o assédio e apontavam o clima tóxico criado pelo cartola. Diretora geral da federação, Florence Hardouin teria feito pouco caso das histórias. Já nesta semana, na esteira das declarações sobre Zidane, a agente de jogadores Sonia Souid também revelou que foi assediada e humilhada por Le Graët.

Patrick Anton ainda reiterou que Le Graët precisava ter compromisso com os filiados à federação, o que não foi demonstrado em sua postura recente – e em tantas outras antes disso: “O presidente Le Graët fez comentários que mostram que ele perdeu um pouco de lucidez. É um homem que está cansado, que precisa seguir em frente. Dirigir uma federação que possui dois milhões de associados pressupõe que não percamos nossa calma e nossa serenidade, como ele fez. Precisamos encontrar um caminho mais forte”.

Le Graët é presidente da federação francesa de futebol desde 2011, após passar seis anos como vice-presidente. O dirigente de 81 anos possui envolvimento direto com o futebol local desde os anos 1970, quando passou a presidir o Guingamp. Construiu sua reputação ao levar o clube, então inexpressivo nas divisões regionais, à elite do Campeonato Francês e à conquista de duas edições da Copa da França. Também foi presidente da Ligue 1 durante os anos 1990, com a assinatura de contratos importantes à competição. Sua chegada à presidência da FFF aconteceu na esteira pelo fiasco dos Bleus na Copa do Mundo de 2010.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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