França

Patrick Vieira: “Primeiro passo na luta contra o racismo no futebol é reconhecer que ele existe”

Em entrevista ao L'Équipe, ex-jogador e hoje treinador falou sobre luta e criticou negação do fenômeno por parte do presidente da Federação Francesa

A luta antirracista vive um momento importante no futebol à medida que mais pessoas vítimas do preconceito racial estão dispostas a denunciar os episódios que sofrem. Por outro lado, existe ainda uma resistência ao combate dentro do futebol, e apontar o dedo para os atos racistas é um primeiro passo essencial. Esta é a opinião de Patrick Vieira, ex-jogador de Arsenal, Internazionale e seleção francesa e hoje treinador, à espera de sua próxima oportunidade no futebol. Para o técnico, nascido no Senegal, a negação do fenômeno do racismo no futebol francês por parte do presidente da Federação Francesa, Noël Le Graët, impede que o combate à discriminação ganhe força no país.

Em entrevista ao L’Équipe, Vieira apontou que a primeira etapa na luta contra o racismo é o reconhecimento da existência do fenômeno. Depois, o questionamento do que pode ser feito para combatê-lo, pensando em punições exemplares que dissuadam novos atos. “Não podemos fazer as coisas avançar quando dizemos publicamente que o racismo não existe”, afirmou, em crítica às declarações de Le Graët em setembro de 2020.

Ao L’Équipe, o ex-jogador do Arsenal revelou ter ligado para o presidente da Federação Francesa após aquelas declarações, mas a conversa foi infrutífera devido à distância entre os posicionamentos dos dois. “Ele está convencido de que o racismo não existe no nosso futebol. Os argumentos que ele deu não são válidos para mim. Não falarei nada além disso.”

Vieira criticou a falta de diversidade no futebol francês, apesar de lembrar que não é um problema só da França – vale notar que o fenômeno é discutido também em países como Brasil e Inglaterra, com números apontando a baixa representatividade de minorias étnicas em cargos de técnico ou de direção, apesar de serem maioria entre os jogadores.

“A Federação reflete a sociedade em que vivemos? Não tenho certeza disso. Em termos de cor de pele, mas também na proporção homens-mulheres. A Federação representa o que vemos nos campos? Acho que não”, apontou Vieira.

O técnico, atualmente sem emprego após ser demitido do Nice após dois anos e meio à frente do clube, tem visto com esperança o crescimento da luta antirracista no futebol, notavelmente com jogadores e clubes se posicionando contra atos racistas não só em campo como nas redes sociais.

“Tudo que está acontecendo é fundamental, é preciso estar consciente disso. Porque, agora, as pessoas que sofrem racismo o denunciam. É isso que fará as coisas avançarem. Mais globalmente, a sociedade avança. O documentário do Canal+ ‘Não sou uma vadia, sou uma jornalista’ provou isso sobre um outro tema. As pessoas não se abstraem mais de denunciar esses fatos. É uma evolução que, para mim, é muito importante. (…) Quando olho o que aconteceu em Paris (em partida do PSG com o Istambul Basaksehir em dezembro de 2020), ver as duas equipes deixarem o campo foi um sinal muito forte”, afirmou.

Este posicionamento, aponta Vieira, é essencial, sobretudo em um momento em que, do outro lado da balança, tem se diversificado a origem dos atos e ataques racistas no futebol.

“Passamos dos gritos vindos das arquibancadas para atos de jogadores, até árbitros. A situação está se degradando. Se não houver sanções duras, chegaremos a um momento crítico”, alertou.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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