“Para ele, o L’Équipe era tão importante quanto o Le Monde”: A paixão de Godard pelo futebol e pelo esporte em geral
Fã da Hungria de Puskás e goleiro nas equipes escolares, Godard tinha um apreço muito grande pelo esporte em seu estado mais puro

A cena não era simplesmente imaginada, ela realmente se materializou em 1969: Jean-Luc Godard e Glauber Rocha batendo bola entre si num campo aberto. O que pode soar como um devaneio ou até como um fetiche, na tabelinha entre o capitão do Cinema Novo e o craque da Nouvelle Vague, de fato aconteceu num ensaio para a revista Fairplay. O futebol era apenas o pano de fundo e tema das fotos, não do texto que as acompanhava. E não era uma mera forma de descontrair as duas célebres figuras da sétima arte. Godard verdadeiramente tinha seu apreço pelo futebol – e por vários outros esportes. “Para ele, o L’Équipe era tão importante quanto o Le Monde”, resumira Anna Karina, sua primeira esposa e atriz de vários de seus filmes, à revista SoFoot. Uma faceta menos conhecida do cineasta que faleceu nesta semana, aos 91 anos.
“Entre o esporte e eu sempre existiu uma relação profunda e passional. Isso vem desde minha infância. Na escola primária e no colégio, eu praticava igualmente bem e sempre o futebol, a natação, o basquete e o esqui. Além disso eu jogava bastante tênis, que não era difundido”, contaria Godard, numa longa entrevista ao jornal L’Équipe, em 1993, reproduzida depois pela Folha de S. Paulo. “Pratiquei bastante atletismo, em nível muito modesto. Mas isso me permitiu ter a resistência necessária para fazer filmes. Ser cineasta é extremamente cansativo: a gente corre, se desloca, vive com os nervos à flor da pele… É exaustivo!”.
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O ano é 1969, e a revista Fairplay, que tinha Ruy Castro como editor, publicou um pequeno ensaio em que os dois diretores jogam futebol num campo pic.twitter.com/06gyXMfUtC
— Quatro Cinco Um (@quatrocincoum) September 13, 2022
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Embora nascido em Paris, em 3 de dezembro de 1930, Godard mudou-se com a família para a Suíça ainda na infância. Cresceu num país circundado pelas tensões europeias do entre guerras e tinha no futebol um escudo para a realidade que pouco compreendia quando criança. Era goleiro do time da escola onde estudava, na cidade de Nyon. Anos depois, o cineasta refletiria sobre a forma como os bate-bolas aconteciam de maneira inocente, “sem saber nada sobre o extermínio em processo” no continente durante a sua adolescência. O futebol serviu inclusive de marco nessa passagem da vida: “Lembro muito bem do fim da guerra. Eu estava jogando futebol e alguém veio anunciar: ‘A guerra acabou!’. Eu era goleiro e, ao virar a cabeça, sofri o gol”.
O ano de 1954 é decisivo a Godard, e não só pelo início da produção de seu primeiro filme na Suíça. O país também recebe a Copa do Mundo e o cineasta não fica alheio ao que acontece nos gramados. Pelo contrário, se encanta com o time avassalador que ganha outros tantos fãs ao redor do planeta: a Hungria dos Mágicos Magiares, que terminaria como vice-campeã mundial. “Tirando o goleiro, eu me lembro de todos eles. Havia Puskás, o Major Galopante; Bozsik, o xerife; Czibor, o ponta maluco; Kocsis, o cabeça de ouro”, relembrou ao jornal The Guardian, em 2005, afirmando que a revolução proporcionada pelos húngaros nos gramados foi “uma descoberta, como a pintura moderna”.
Para Godard, o futebol da Hungria e do Honved, o clube que servia como base da seleção, era um contraste de liberdade em campo num país rígido sob a Cortina de Ferro. O francês comparava os Mágicos Magiares apenas ao Ajax de Johan Cruyff, “que era como o free jazz, todo mundo jogava no ataque e na defesa”. E se tal comentário posicionava como o cineasta também via o futebol como arte, ele não deixava de enfatizar o impacto da modalidade dentro da sociedade: “A revolução na França é fácil de fazer: você tira o futebol da televisão e as pessoas vão às ruas”. A identificação e a força ao redor do esporte, mesmo que o futebol abrisse margem a ilusões e ao impacto midiático.
“O esporte agrada porque é um dos poucos lugares onde as pessoas veem trabalho. Um esportista, sem ser um intelectual ou um artista como na dança, no canto ou na ópera, não pode mentir. O homem político pode mentir, o ator pode mentir. Eu que me apresento ao banqueiro lhe dizendo que vou fazer o melhor filme do mundo, e o ator que me diz ‘Vou atuar como ninguém atua’, todos nós podemos criar uma ilusão. No esporte não. Ainda existem verdades: um atleta que fala ‘eu salto 2,10 metros’, a gente coloca uma barra para ele saltar e vê. Mas para chegar a isso é preciso muito trabalho, muito treino. É por isso que amamos o esporte. Às vezes se faz algum truque, mas isso não dura muito tempo. Eu mesmo tomo Supradyne, portanto… Não se pode negar que existe uma certa perda de imagem. Não se deve enganar demais, como no futebol…”, diria.
Godard não era um fã das transmissões televisivas. Pelo contrário, não gostava da maneira como a mídia e o mercado regiam a forma como se apresentava o futebol na tela. Preferia exibições mais limpas, sem tantos cortes nas câmeras e menos interferência de narradores ou comentaristas. “Ah, se a televisão mostrasse uma partida da quarta divisão ou de times da província, isso sim é esporte! Mas onde está o esporte, hoje? O público atual é manipulado, é formado”, contou ao L’Équipe.

“Hoje a televisão privilegia a pessoa, mais do que a obra. No caso dos esportistas é o nome que retemos na memória. As pessoas fazem menos obras, mas suas obras são elas mesmas. Numa partida, tudo se tornou um pouco parecido. E como tudo é parecido e é preciso destacar alguma coisa, exibe-se o nome. A partida se torna secundária. Todas as partidas se assemelham, na televisão”, complementou, na mesma entrevista. Godard nunca se aventurou, porém, a ele mesmo filmar uma partida. Até possuía uma ideia de registrar a Copa da França (ou Roland Garros) desde as fases iniciais, o que nunca vingou.
De qualquer maneira, Godard interpretava a própria posição do cineasta durante as filmagens como a mesma do torcedor numa partida. “É uma posição à margem, mas isso é normal. Nenhum livro pode existir sem uma margem, e se eu assistir a tênis ou a futebol, estarei sempre à margem em relação aos jogadores. É isso, estou no lugar do público, dos espectadores. Na verdade, estar na margem é a real posição do público. É uma posição necessária. O que é visto não pode ser visto sem aqueles que veem”, comentou Godard, em uma entrevista de 1983 a Gideon Bachmann.
E o futebol está inserido na obra de Godard de maneira recorrente, mesmo que restrito a pequenas cenas. Em “Une femme est une femme” (1961) escuta-se a narração de um Real Madrid x Barcelona dos tempos em que os merengues eram estrelados por Ferenc Puskás e Alfredo Di Stéfano. Há também um trecho da final da Copa de 1974, com uma disputa entre Uli Hoeness e Johan Cruyff, presente na televisão de um menino no filme “Numéro deux” (1975). “Sauve qui peut (la vie)” (1979) tem uma cena que retrata um treino de futebol feminino com uma personagem. A tragédia de Heysel impacta tanto, inclusive pela espetacularização feita pela televisão, que aparece em “Sogine ta droite” (1987) e “Eloge de l’amour” (2000). “Notre musique” (2004) cita o Inglaterra 3×6 Hungria de 1953 como “a única vez em que o comunismo existiu de verdade”, pela forma como os magiares atuaram unidos.
A presença mais extensa do futebol na filmografia de Godard está em “L’Enfance de l’art”, um curta filmado em 1990 para a Unicef, ao lado de Anne-Marie Miéville, sua esposa. O futebol praticado por meninos contrasta com o ambiente de guerra em que vivem, circundados por bombas e ruínas. Já a representação mais recente aconteceu em “Film Socialism”, de 2010, que traz um lance de Andrés Iniesta numa sucessão de imagens sobre diferentes temas. Na época, Godard confessaria sua admiração pelo Barcelona de Pep Guardiola, recém-coroado vencedor da Champions, embora criticasse as oscilações sofridas pelo time naquele momento.
A beleza do futebol e do esporte como um todo, entretanto, não se restringe ao status elevado ao de arte. E perceber as entrelinhas diz muito sobre a paixão compartilhada por Godard. “Eu lia as aventuras dos esportistas como se fossem romances. Elas se confundem com um período de minha vida, de minha adolescência. Uma certa forma de romantismo… A tal ponto que ainda me recordo de quase todos os nomes”, afirmaria ao L’Équipe, em 1993. “Gosto tanto de assistir a uma grande partida, para a qual é preciso me deslocar, quanto ver um sujeito batendo uma bola contra um muro por uma hora, se sinto que ele está convicto do que faz. O que vale, para mim, é tanto a troca quanto a beleza do gesto”.


