Panela de pressão lionesa

O Lyon está dando sopa para o azar. Nas últimas rodadas da Ligue 1, o OL parece ter diminuído o ritmo, apenas à espera de receber o heptacampeonato sem maiores complicações. Só que este ‘piloto automático’ lionês tornou-se bastante perigoso, pois o Bordeaux diminuiu a diferença para o líder para apenas dois pontos a duas rodadas do final. A se levar em consideração o desempenho da equipe de Alain Pérrin nos seus duelos mais recentes, há o temor de um desastre para coroar uma temporada bem mixuruca.
Ao final da 31ª rodada, os girondinos estavam nove pontos atrás do OL, pouco depois de perderem o confronto direto contra os líderes. Daí para frente, o Lyon colecionou bobeadas. Vieram a derrota para o Olympique de Marselha, os empates com Rennes, Caen e Nice, com um único triunfo. Bom, os lioneses derrotaram o Strasbourg por 2 a 1 de virada, mas o resultado se torna menos nobre se considerarmos que o Racing virou o saco de pancadas da reta final da Ligue 1.
Enquanto o Lyon deslizava em suas próprias dificuldades, o Bordeaux tratou de se concentrar, sem desistir de um sonho quase impossível. Os Marine et Blanc ganharam de Rennes, Caen, Toulouse e Olympique de Marselha, com um empate em casa com o Nice. Ou seja, conquistou 13 pontos em 15 possíveis, enquanto os lioneses somaram apenas seis – menos da metade. Com isso, a Ligue 1 enfim vive um pouco de emoção no final da temporada quanto à definição do título.
Para alimentar um pouco mais as esperanças dos girondinos, o Lyon chega aos seus dois jogos finais com um desgaste físico notório. A fracassada tentativa de mudar a data da semifinal da Copa da França contra o Sedan certamente terá seus efeitos negativos no decisivo duelo contra o Nancy, em Gerland, no meio de uma ferrenha disputa com o Olympique de Marselha por uma vaga na Liga dos Campeões. Embora tenha poupado alguns de seus principais jogadores (casos de Benzema e Juninho Pernambucano) contra os Javalis, o clube está com a língua de fora. O esforço extra para derrotar os rivais por 1 a 0 no fim da partida deve prejudicar um pouco mais esta situação.
Em compensação, o Bordeaux enfrenta duas equipes da parte de baixo da tabela. Primeiro, receberá o Sochaux, um visitante bem indesejável (os Leões têm a terceira melhor campanha do torneio fora de casa). Na semana seguinte, os girondinos pegam fora de casa o Lens, mais desesperados na briga para evitar o descenso. Chances interessantes para diminuir um pouco mais a distância do Lyon.
Contra o Olympique de Marselha, o Bordeaux apresentou um grande equilíbrio entre seus setores. Mesmo sem contar com Cavenaghi desde o início, a equipe mostrou-se bastante segura em seu setor defensivo, diante de um rival com jogadores de qualidade no meio-campo e ataque (Nasri, Niang e Cissé). Com o adversário dominado no primeiro tempo, o técnico Laurent Blanc chamou o argentino para agora partir para cima de um rival mais cansado.
Com a vantagem obtida pelo OM, o Bordeaux passou a explorar com melhor qualidade suas jogadas ofensivas. Com um toque de bola de maior fluidez, os visitantes pegaram os anfitriões pela garganta. Empataram e chegaram à vitória com um gol nos acréscimos, em uma prova de como a equipe consegue ter tranqüilidade suficiente para lidar com situações adversas.
Esse mesmo equilíbrio parece passar longe do Lyon nestes tempos. Contra a segunda melhor defesa do campeonato, os lioneses sofreram com mais uma boa atuação da dupla de zaga formada por Kanté e Apam. Após sua habitual pressão inicial, o OL aos poucos se deixou envolver pelas dificuldades e se retraiu. Exatamente esta mesma desaceleração pode custar caro ao clube, caso perca o título para o Bordeaux a poucos metros da bandeira quadriculada. Se a frustração causada pela saída prematura da LC deixou um rastro de cobranças, entregar um troféu considerado como certo seria uma completa humilhação.
Se no final da temporada passada o clima no clube não era dos melhores, o OL viveria novos dias tenebrosos. Desde os primeiros jogos em 2007/08, a equipe não encantou. Pior: mostrou-se aquém do conjunto exibido em anos anteriores, apesar dos maciços investimentos em reforços. Keita, Bodmer e Grosso, por exemplo, pouco fizeram para justificar tantas esperanças – e altas quantias – depositadas neles. Caso o Bordeaux realmente quebre a hegemonia, os lioneses acelerarão seu processo de renovação. Será melhor mesmo recomeçar do zero e montar um novo elenco. Desta vez, com uma melhor avaliação de mercado, sem gastar fortunas em atletas pouco preparados.
A dura vida do PSG
Qual clube pode se dar ao luxo de terminar a temporada com duas das três taças nacionais em disputa brilhando em sua estante? O Paris Saint-Germain já garantiu a Copa da Liga Francesa e reserva um espaço para a Copa da França, caso derrote o Lyon na decisão. Qualquer torcedor ficaria contente ao ver o clube aumentar sua galeria de troféus, mas de nada adiantam os prêmios se o time for rebaixado para a Ligue 2. com a presença garantida na Copa Uefa, o clube precisa mesmo se fechar para a disputa da permanência na elite, algo que poderia ficar mais fácil não fosse o frustrante empate com o Toulouse, seu concorrente direto.
O clube da capital vinha de uma seqüência nada apresentável como visitante. Em seus últimos seis jogos na casa dos adversários, o PSG foi derrotado em todas. Para piorar, Rothen, seu cérebro no meio-campo, estava ausente devido a uma contusão. Tudo indicava uma nova caminhada para o pior. A opção do técnico Paul Le Guen para evitar um novo vexame foi entupir seu meio-campo. Clement, Bourillon, Mendy… O mais importante era fechar o setor e impedir o TFC de jogar.
Os Violetas perceberam que o jeito era explorar as laterais com Mathieu e Ebondo. Elmander, solitário no ataque, até cumpriu bem seu papel de pivô e prendeu bem a bola. No entanto, as duas equipes sentiram a falta de alguém para chamar a responsabilidade e resolver logo a questão. Pauleta, mais uma vez, aproximou-se dessa função com a assistência para o gol de Mendy e sua vontade, mas não teve companhia. E, para variar, a desatenção nos minutos finais custou caro ao PSG, com o gol marcado pelo Toulouse aos 44’ do segundo tempo.
Essa era a partida ideal para o time da capital deslanchar. Dane-se a final da Copa da França; ela de nada adiantará para uma equipe às voltas com o rebaixamento. De novo, a desatenção custou a perda de pontos preciosos, ainda mais pelo desperdício diante de um adversário direto. Na semifinal contra o Amiens, Le Guen agiu certo ao mandar a campo um grande número de jovens jogadores. A estratégia deu certo, mas agora há um objetivo com importância muito maior. Embora o Lyon também esteja às voltas com a disputa pelo título da Ligue 1, o PSG não deve se deixar empolgar com isso.
Para complicar um pouco mais todo este ambiente, o Paris Saint-Germain acompanha os desdobramentos do caso da faixa racista exibida na decisão da Copa da Liga contra o Lens. O time acabou eliminado da disputa do torneio na próxima temporada, mas recorreu da decisão e aguarda o resultado final da briga. A competição nunca despertou mesmo grande paixão dos torcedores e até da imprensa, que não lhe dão grande destaque.
Embora ela tenha sido responsável pela participação do clube da capital em uma competição européia (e com isso garanta um valor razoável nos cofres do PSG, que podem ser muito úteis caso se confirme o rebaixamento), a Copa da Liga passa a imagem de ‘patinho feio’. A preocupação dos parisienses, claro, tem efeito, mas não se deve arrancar os cabelos por isso. Antes deixar de lado um torneio que ninguém dá tanto valor e prefere entrar em campo com times mistos do que perder pontos na Ligue 1. Qualquer castigo neste sentido dificilmente seria assimilado a tempo para ser revertido em campo.
Com tantos problemas, o PSG chega às duas rodadas finais do campeonato empatado com Lens e Toulouse. Como seus rivais também não inspiram grande confiança, o clube ao menos está em pé de igualdade com eles, expoentes de uma irregularidade ímpar. Quem mantiver a concentração por maior tempo se salvará – e isso significa dizer ao clube da capital deixar de lado seus apagões nos finais de seus confrontos.


