França

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Laurent Blanc pensava em receber uma garantia da Federação Francesa de que teria seu contrato renovado antes do início da Eurocopa-2012. O treinador ouviu de Noel Le Graët, presidente da FFF, um belo e sonoro não. Estava armado o impasse e criado mais um problema para o técnico, que já enfrentava críticas pelo futebol pouco vistoso dos Bleus em suas partidas mais recentes.

O plano de Blanc era ter alguma segurança quanto ao seu futuro independentemente do desempenho dos franceses na Euro – e os Bleus caíram em uma chave longe de ser uma baba. O tiro saiu completamente pela culatra. Além de ver seu pedido rejeitado, o treinador caiu na real e percebeu que seu prestígio não está tão em alta assim com a cúpula da FFF.

A negativa de Le Graët acendeu a chama dos boatos. Já houve até quem cravasse o nome de Paul Le Guen como possível sucessor de Blanc, algo negado de forma veemente pelo presidente da federação. O cartola ainda quer reduzir a comissão técnica dos Bleus, hoje formada por 22 pessoas. Os principais alvos são o ex-goleiro Fabien Barthez, cujo salário chega aos € 90 mil mensais, Henri Emile (coordenador esportivo) e Marino Faccioli (diretor administrativo), estes últimos em funções bastante parecidas na prática.

Dada a repercussão do caso, ainda mais pela popularidade de Blanc, Le Graët tratou logo de negar qualquer interesse em nomear Le Guen. Além disso, descartou qualquer descontentamento com os gastos com a comissão técnica da seleção. O atual treinador da seleção ganha € 100 mil mensais, cerca de duas vezes mais do que recebia seu antecessor, Raymond Domenech, todo mês. 

Antes que alguém malhe Blanc e conteste o valor de seu salário, deve-se esclarecer que esta quantia não é exorbitante. Um treinador de uma equipe do meio da tabela da Ligue 1 ganha mais ou menos isso. Agora, o inchaço da comissão técnica precisa ser revisto com urgência. Não dá para aceitar que haja nos bastidores um grupo formado por quase o mesmo número dos jogadores do elenco. Fica nítido que alguém (nesse caso, mais de um) se aproveita do sistema para tirar o seu.

Le Graët também tem seus problemas e se tornou conhecido pela firmeza de suas opiniões, que facilmente pode ser confundida como teimosia (ou, para os mais jocosos, cabeça-dura). Blanc quis acertar prêmios à comissão técnica de acordo com o desempenho dos Bleus; o presidente da FFF disse não duas vezes. O treinador quis levar a seleção para um estágio de preparação em Tignes, mas Le Graët mandou a delegação para Le Touquet. O técnico pretendia instalar os franceses na Polônia para a Euro-12. A decisão do cartola foi… a Ucrânia.

Enquanto Le Graët e Blanc se estranham, a seleção francesa sai como a maior derrotada. Após os fiascos recentes protagonizados pelos Bleus e a herança maldita de Domenech, a equipe aos poucos vinha recuperando sua imagem e, acima de tudo, seu espírito. Quando mais se esperava por um momento de estabilidade, eis que fatores extracampo voltam a permear a equipe. Isso justamente alguns meses antes de um torneio fundamental para a França se reafirmar como uma das principais forças continentais. O risco de uma nova frustração apenas aumenta, para desilusão dos torcedores. 

A mágoa de Kombouaré

Antoine Kombouaré tinha uma certeza: a de que dificilmente chegaria ao fim desta temporada no comando do Paris Saint-Germain. Embora soubesse que seu destino estava longe do Parc des Princes desde a chegada dos novos donos do clube, o treinador deixou clara uma pontinha de frustração por sua saída da equipe, no fim do ano passado, como revelou em entrevistas aos jornais L’Équipe e Le Parisien.

Mesmo com o título de inverno nas mãos, o treinador nunca se sentiu confortável no cargo. A vinda do Qatar Sports Investment (QSI) e do caminhão de dinheiro investido no PSG desde o início da temporada, ficaria mesmo difícil achar que o Kanak manteria seu emprego. A pressão em torno dele apenas aumentou, já que o time não fazia exibições encantadoras. Era pragmático, sim, mas eficiente o bastante para continuar na liderança da Ligue 1. Foi pouco.

Claro que Kombouaré também não é o melhor técnico do mundo e sua saída foi uma completa sacanagem. O treinador também tem seus defeitos e, apesar da popularidade com a maioria da torcida, criava atritos por conta de seu temperamento forte. A fama de disciplinador foi outro fator que contribui para algumas polêmicas com jogadores. As eliminações na Liga Europa e da Copa da Liga Francesa ajudaram a piorar sua situação dentro do clube.

O anunciado processo de fritura de Komboauré terminou com a confirmação da chegada de Carlo Ancelotti ao PSG pouco antes do fim de 2011. Começaria a lavagem de roupa suja. O agora desempregado reservou críticas a Leonardo – não o considera um “traidor”, mas condenou sua atitude de procurar Ancelotti em novembro. Mesmo assim, as palavras dirigidas ao brasileiro foram duras. “Você é traído por sua família, por um amigo. Lá, estávamos em uma relação de trabalho na qual sabia desde o início onde eu estava. Não sou amargo”, disse.

Kombouaré também deu sua explicação para a queda de produção de Pastore. Para o técnico, o argentino ainda não se acostumou com a ideia de ser o líder do grupo. Uma conclusão correta, já que foram depositadas muitas esperanças em um jovem de 22 anos, contratado por nada menos do que € 42 milhões e que de uma hora para outra se tornou um salvador da pátria parisiense.

O Kanak apontou um problema crucial para explicar tantas oscilações no futebol de Pastore, e que foram evidenciadas pelo próprio jogador. “Como ele não era feliz em campo, por não receber bolas, Pastore se fechou”, analisou o técnico. Nada mais evidente.

Após duas temporadas e meia no Parc des Princes, Komboauré deixou um importante legado para seu sucessor. O técnico fez o PSG deixar de brigar para fugir do rebaixamento para a Ligue 2 para se tornar um time mais consistente, embora precisasse de algo mais para voltar a incomodar os pretendentes ao título nacional. Quando finalmente teve as condições necessárias para isso, o Kanak não teve tempo de saborear o filé. Teve que se contentar com o osso dos tempos mais duros.

Kombouaré tirou uma lição positiva destes últimos seis meses à frente do PSG. “Acabei de passar por um período enriquecedor, que me permitiu subir um degrau. Pude demonstrar, a todos aqueles que tinham dúvidas, minha capacidade de viver sob pressão, lidar com estrelas, fazer um time ganhar e não me enraivecer. Acho que posso pretender um cargo em um clube francês ou do exterior”, desabafou. Não é para tanto, mas o Kanak realmente tem seu valor.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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