França

Os cochilos do Olympique

Os reflexos da péssima campanha do Olympique de Marselha na Ligue 1 começam a prejudicar a equipe na Liga dos Campeões. Na derrota por 2 a 1 para o Porto, os marselheses sentiram seu espírito ser contaminado aos poucos pelas lembranças de que está na zona de rebaixamento na Ligue 1, com um futebol pobre, com problemas defensivos e uma desatenção preocupante. Os mesmos fatores presentes em seus fracos jogos no campeonato francês tiveram um lugar cativo no estádio do Dragão.

A equipe confiante dos três primeiros duelos na LC mostrou-se mais insegura e titubeante. Embora em vários momentos tenha demonstrado qualidade em seu estilo de jogo, o OM voltou a oscilar demais, com em seus piores momentos dentro do Vélodrome. O Olympique até começou bem, quando não permitiu aos meias do Porto uma maior movimentação pelo setor. Isso facilitou a tarefa de marcação e deu algum espaço para os visitantes trabalharem a bola e se arriscarem à frente.

O confronto estava equilibrado até surgir a primeira falha defensiva. Nasri perdeu a bola; Taiwo demorou um século para reagir e Givet e Rodriguez, posicionados em linha, permitiram a Sektioui passar pela defesa marselhesa como bem entendesse e saísse na cara de Mandanda. A vantagem do Porto veio em um momento no qual o OM tinha o controle da partida em suas mãos.

A partir daí bateu o complexo da Ligue 1. O estádio do Dragão se transformou no Vélodrome e o Porto virou um Lorient. O Olympique deixou o adversário à vontade e, para sua felicidade, soou o gongo do intervalo. Era a hora de restabelecer a calma. A pausa fez muito bem ao time, pois na volta para a segunda etapa corrigiu-se a postura de seu meio-campo. Valbuena, Nasri e Ayew se movimentaram mais, ampliando as opções ofensivas dos marselheses.

Com as rédeas do confronto de novo em suas mãos, o Olympique chegou ao empate e tinha tudo para virar. O Porto não apresentava a mesma coesão e apresentava uma divisão nítida em duas partes. Como no primeiro período, os Dragões voltaram a ficar em vantagem quando estavam em maiores apuros. Para variar, outra falha da defesa, mais uma vez pelo lado de Taiwo. Quaresma agradeceu a liberdade oferecida pelo nigeriano e serviu Lisandro López, autor do gol da vitória dos donos da casa.

Embora tenha perdido a liderança do grupo para o Porto, o Olympique segue com boas chances de se classificar. O time só não pode se deixar influenciar pelo desempenho nada agradável na Ligue 1. Além disso, Eric Gerets precisa cobrar uma atenção maior de sua defesa, pois as seguidas falhas fazem o time entrar em depressão e se tornar alvo fácil para seus adversários.

E, em definitivo, não dá mais para apostar em Taiwo. Apesar de o nigeriano ser uma opção para chutes de longe, ele dificilmente aprenderá como combater um rival. Sua passividade tem prejudicado o OM por seguidas vezes, sem haver uma compensação em seus apoios ao ataque. Com um Liverpool renascido das cinzas, é preciso ter todos os cuidados para enfrentá-lo no Vélodrome – que não consegue se livrar da sina de ser uma ‘casa mal-assombrada’ aos marselheses.

Essa confiança que falta por vezes ao Olympique parece ter se reincorporado à alma lionesa. Contra o Stuttgart, o OL provou estar imbuído daquela vontade de acabar com o inimigo, seja ele poderoso ou miúdo. O VfB não faz boa campanha na Bundesliga e está distante daquele time campeão da última Bundesliga. Apesar dessas fraquezas, os Schwaben vieram a Gerland com a faca nos dentes para manter viva a esperança de se classificar ao menos para a Copa Uefa.

Contra um adversário disposto, o Lyon contou com seu espírito coletivo para se dar bem. Seu velho estilo de fazer uma blitz logo no começo deu certo e o time abriu uma vantagem de 2 a 0. O Stuttgart se lançou ao ataque, diminuiu, mas não resistiu por muito tempo à melhor qualidade técnica dos anfitriões. No segundo tempo, com 3 a 2 no placar, os Schwaben tiveram a chance de mudar a história do duelo. Nessa hora, prevaleceu a calma lionesa. Hitzlsperger desperdiçou a cobrança de um pênalti, no ponto-chave para o desenrolar do confronto.

Esta é a grande diferença entre Lyon e Olympique. No instante de maior pressão, o OL controla seus nervos com grande facilidade, transmitindo uma frieza indispensável para se manter firme e concentrado. Por outro lado, o OM cochila em horários impróprios e, na hora de correr atrás, deixa-se atropelar por suas limitações e entra em parafuso. Os lioneses estão em situação mais complicada quanto às chances de classificação, mas vivem melhor momento emocional – e isto conta demais em horas tão decisivas.

Alívio, mas por pouco tempo

O Lens viveu um início de temporada conturbado, muito pela saída repentina de Guy Roux do comando da equipe. A contratação do treinador, um dos símbolos do futebol francês, era vista como uma forma de dar uma estabilidade emocional a um elenco que ‘amarelou’ e perdeu a vaga na Liga dos Campeões quase certa. No entanto, a saída dele com poucas rodadas estragou toda essa recuperação da moral da equipe. Jean-Pierre Papin chegou, mas o quadro pouco se alterou desde então.

Em dois meses, JPP viu o time conquistar apenas duas vitórias em 12 rodadas. Por isso, o duelo em casa contra o Saint-Etienne ganhou ares dramáticos. Os Sang et Or ocupavam a penúltima colocação e um novo fiasco colocaria a cabeça de Papin pronta para o cesto da guilhotina. O treinador pagaria o pato pelo time perder até mesmo um de seus pontos fortes na temporada passada: o ataque. Antes do duelo com os Verdes, o Lens havia marcado apenas seis gols – ou seja, o time precisava de duas partidas para balançar a rede adversária uma única vez.

A usina de boatos trabalhou forte nos últimos dias e até colocou Papin no lugar de Paul Le Guen no Paris Saint-Germain. Francis Gillot, que deixou os Sang et Or no final da Ligue 1 anterior, voltaria para dar uma solução a esse time, montado de acordo com os planos de Roux e com forte presença de jogadores com quem trabalhara no Auxerre. Fica difícil querer administrar um elenco montado com a cara de outro treinador, que mal teve tempo de deixar sua marca. JPP aceitou moldar uma equipe amorfa e sem muitos traços de unidade.

O Saint-Etienne, mesmo como visitante, fez 2 a 0 e parecia afundar o Lens em sua crise. Os Verdes confiavam em sua defesa, que não tomou gols em outubro, ainda mais quando tinham pela frente o pior ataque da Ligue 1. No primeiro tempo, os Sang et Or repetiram as falhas defensivas, com o oferecimento das laterais para o adversário aproveitá-las como lhe conviesse melhor. Erros de passe, nervosismo e falta de coesão completaram o molho. A esperada reação, sugerida com o triunfo sobre o Monaco na Copa da Liga, viria após o intervalo.

A bem da verdade, o Lens contou com a providencial ajuda de Laurent Roussey. O técnico do Saint-Etienne fez uma alteração que destruiu completamente a vantagem conquistada até com certa facilidade. A saída de Gigliotti para a entrada de Nivaldo logo se revelou uma grande bobagem. Ele era o principal jogador do setor ofensivo e deixava a zaga perdida com sua movimentação constante e seus deslocamentos rápidos para fugir dos marcadores. Sua saída secou a fonte da equipe.

Os Verdes assumiram uma postura excessivamente defensiva, recuaram sem maiores explicações, cortaram suas melhores chances de ataque e assistiram ao crescimento natural dos Sang et Or. Convidado a explorar a defesa adversária, o time da casa não perdeu tempo e conseguiu uma virada quase impossível. Landrin e Perrin, que tiveram liberdade para explorar os lados do campo, ficaram mais presos na defesa, o que diminuiu ainda mais as possibilidades de um ataque fulminante. Houve méritos para o Lens, com seu poder de reação e o esforço de seus jogadores, mas certamente o ASSE resolveu entregar um jogo praticamente ganho.

A vitória por 3 a 2 tirou o Lens da zona de rebaixamento e aliviou um pouco a barra de Papin, que terá agora a chance de usar esse resultado como ‘doping moral’. No entanto, a euforia não deve esconder a realidade. Os Sang et Or exibem sérios problemas defensivos, provocados pela ausência de Hilton no setor. Embora o triunfo seja revigorante, a equipe não se transformou em imbatível da noite para o dia. JPP precisará de trabalho intensivo para se manter à frente do clube por mais tempo.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo