Eliminatórias da CopaFrança

Os altos e baixos da França para a repescagem

Após duas delicadas partidas fora de casa, a França praticamente assegurou o segundo lugar no grupo I das eliminatórias da Copa do Mundo 2014. A provável passagem dos Bleus para a repescagem passa longe de ser um resultado a ser comemorado. Era isso mesmo o que se esperava da seleção, dado o favoritismo da Espanha para ficar com o primeiro lugar da chave e a consequente vaga direta. As apresentações da equipe contra Geórgia e Bielorrússia, porém, deixam muitas dúvidas no ar.

Antes do empate sem gols com a Geórgia e a vitória por 4 a 2 sobre a Bielorrússia, os Bleus deixaram evidentes seus problemas durante a excursão feita para a América do Sul e o 0 a 0 contra a Bélgica. De lá para cá, esperava-se alguma evolução do time nos jogos que realmente valiam alguma coisa, mas pouca coisa mudou. O técnico Didier Deschamps continua indeciso quanto à formação ideal da equipe, bem como na definição do melhor esquema tático para extrair o máximo de seus jogadores.

No 0 a 0 diante da Geórgia, DD optou por escalar a equipe em um 4-4-2. Descontente, o treinador alterou a formação tática para um 4-2-3-1 diante dos bielorrussos e a mudança de quatro titulares. Apesar da vitória, o time só deslanchou no segundo tempo. Antes disso, a lentidão e, principalmente, a ausência de qualquer ser pensante no meio-campo francês colocam em risco qualquer chance diante de um adversário com maior poder de marcação ou velocidade. Pode ser fatal para a repescagem.

O problema crítico da dupla de ataque também causa dores de cabeça agudas em Deschamps. Os Bleus bateram um recorde histórico (negativo): há 526 minutos, um atacante nato não marca com a camisa da seleção. A marca anterior havia sido estabelecida nos longínquos anos de 1924 e 1925. A associação entre Karim Benzema e Olivier Giroud foi um fiasco diante da Geórgia. O jogador do Real Madrid ultrapassa a incrível marca de mais de 1.200 minutos sem balançar as redes pelos Bleus e acumula críticas. Não dá mais para confiar nele como a esperança de gols dos tricolores.

Insistir com Benzema tem sido um erro, corrigido no jogo diante dos bielorrussos. Giroud não marcou, mas teve participação mais intensa e objetiva do que o do companheiro em crise. O atacante do Arsenal está em plenas condições de assumir a vaga de titular e deixar Benzema no banco. Muito embora Franck Ribéry salve a pátria francesa com suas atuações, o setor ofensivo francês carece de opções confiáveis.

Neste ponto, a França poderia contar com um apoio maior dos seus laterais, o que também não ocorre no momento. Bacary Sagna cumpre bem suas funções defensivas pelo lado direito, mas sua timidez ofensiva assusta. Na esquerda, a situação é bem mais alarmante. Os dois nomes lançados por Deschamps passam tranquilidade zero. Contra a Geórgia, Patrice Evra teve uma atuação digna de pena. Gaël Clichy tinha a chance de ouro de colocar o concorrente no bolso e ganhar de vez a briga, mas também falhou de forma retumbante contra os bielorrussos.

Clichy foi engolido por Ribéry, dominador das ações pela esquerda. O lateral poderia ajudar o meia-atacante e lhe oferecer um apoio incondicional, mas sua atuação contida deixou Ribéry sobrecarregado e sem cobertura para seus avanços. Defensivamente, Clichy foi uma negação. As principais jogadas ofensivas da Bielorrússia saíram por seu lado, sem que o lateral deixasse sua postura passiva e combatesse com mais afinco.

A fragilidade dos laterais apenas evidencia como a defesa azul está em perigo. Contra dois adversários de força ofensiva reduzida, a França levou sufoco. A defesa se enrolou quando os rivais encetaram rápidos contra-ataques com um mínimo de organização. Se as costas de Clichy forneciam um corredor para os bielorrussos, a cobertura de Eric Abidal também se mostrou bastante frouxa.

Pontos positivos

No meio de tantas características negativas, houve alguns fatores que merecem elogios nestas duas apresentações dos Bleus. Ribéry, por exemplo, consolida-se como o verdadeiro líder desta equipe. O meia-atacante se tornou quase um Messias deste time, que depende cada vez mais das atuações inspiradas do Scarface para se livrar do caminho das agruras. Sua fase iluminada tem salvado a pele dos franceses – e, por que não, a cabeça de Deschamps.

Os dois gols marcados contra os bielorrussos são apenas uma pequena parte de seu portfólio. Ribéry deixou o lado esquerdo, pelo qual sempre deixou clara sua preferência, para ajudar em outros setores do campo. Além de se desdobrar para variar as jogadas ofensivas dos franceses, ele ainda tentou organizar seus companheiros com muita conversa. Ribéry exerce papel fundamental para o trabalho de Deschamps ao se tornar uma extensão do treinador em campo.

Samir Nasri começou no banco nas duas partidas, mas deu um sopro de criatividade ao entrar em ambos os jogos. Não dá para acusá-lo de falta de vontade, algo que o acompanhou nas vezes nas quais foi escalado como titular dos Bleus. Depois de uma Euro-2012 terrível, Nasri aos poucos tem retomado a confiança necessária para, enfim, ter uma maior regularidade em seu jogo e, claro, mais tempo em campo. Em uma equipe de pouca imaginação no meio-campo, sempre haverá lugar para quem organize o jogo e cadencie o ritmo com inteligência. Basta Nasri se convencer de sua redenção.

Já Mathieu Valbuena parece ter encontrado seu lugar no time. Contra a Geórgia, ele atou deslocado pelo flanco e teve uma atuação bastante discreta. Para o duelo contra os bielorrussos, ele atuou mais centralizado e foi fundamental para a evolução ofensiva dos Bleus. Com passes decisivos para os gols de Ribéry e Nasri, além do cruzamento para o tento de Pogba, Valbuena tem lugar cativo entre os titulares.

Em tempos de um ataque sem força, o entrosamento entre Valbuena e Ribéry tem sido a melhor opção ofensiva da seleção. A dupla esteve diretamente ligada a sete dos últimos oito gols dos Bleus. Ambos se tornaram indispensáveis para os planos de Deschamps, mas necessitam, com urgência, de companhia na frente. Jogar a responsabilidade de criação e finalização somente nas costas deles traz uma sobrecarga inadmissível.

Por fim, Paul Pogba deu o recado de que a “ala jovem” dos Bleus tem maturidade suficiente para respirar fundo, manter a calma e partir sem desespero para resolver uma situação adversa. Os bielorrussos ficaram duas vezes à frente no placar, mas os franceses tiveram o mérito de ficar de cabeça erguida. Aos 20 anos, Pogba demonstrou raça e vontade com um assistência e seu primeiro gol pelos Bleus. Um sinal de personalidade vencedora em um jovem que poderia muito bem usar a muleta da inexperiência para fugir de suas responsabilidades e jogá-las nas costas dos veteranos.

Mesmo com os pontos positivos observados nestas duas partidas, Deschamps tem a nítida certeza de que falta muito para considerar a seleção francesa pronta para a briga pela classificação para a Copa do Mundo-2014. Quando a torcida fica para um sorteio “benevolente” para definir o rival da repescagem, fica a clara sensação de que o trabalho está bem longe de ser concluído.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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