França

O retorno dos Canários

O purgatório do Nantes na segunda divisão terminou. Com o empate por 1 a 1 com o Montpellier, aliado ao 2 a 2 do Troyes com o Boulogne-sur-Mer, os Canários asseguraram seu retorno à Ligue 1 uma temporada depois de sua queda. Um prêmio para quem conseguiu enfim uma estabilidade tanto dentro como fora das quatro linhas. No entanto, fica desde já a questão: o clube terá mesmo aprendido a lição para não mais repeti-la nos campeonatos seguintes?

Em 2006/07, o Nantes conheceu o auge da desorganização. Envolto em uma crise interna, provocada pela indefinição sobre a venda do clube, aos poucos o time se afundou em problemas financeiros. Sem dinheiro para contratar reforços de nível adequado, os jogadores que vieram nos últimos tempos pioraram a qualidade do elenco, com os resultados em campo cada vez mais negativos. Além disso, os poucos destaques preferiam procurar outros times para seguir carreira, como Landreau e Toulalan.

Nem mesmo o velho estilo de jogo ‘à nantaise’ funcionava mais. A escola do toque de bola refinado, com inteligência e velocidade rumo ao ataque, ficou apenas como uma boa lembrança de uma época áurea. Para completar, os Canários viram seu centro de treinamento, considerado um dos melhores do país, ficar relegado a um segundo plano. Não havia nem mesmo a possibilidade de confiar em algum jovem talento para ter alguma esperança. O rebaixamento, adiado nas temporadas anteriores, foi uma conseqüência absolutamente natural de uma sucessão de erros administrativos.

Na Ligue 2, pelo menos houve o início da resolução dos problemas que levaram a equipe a esta situação vexatória. O empresário franco-polonês Waldemar Kita assumiu a presidência do Nantes e tratou de colocar ordem na casa. Ciente das dificuldades enfrentadas na segunda divisão, ele cuidou de montar um elenco condizente com o campeonato do qual faria parte. Ou seja, nada de jogadores ‘leves’, com grande domínio de bola, facilidade para o drible e virtuosismo. Era a hora de se fazer um grupo com ‘carregadores de piano’, com garra e disposição física acima de tudo.

Essa exceção do estilo ‘à nantaise’ se encaixou bem na segundona, de gramados menos apropriados e equipes dispostas a se fechar na defesa quando visitavam La Beaujoire. O técnico Michel Der Zakarian teve os méritos por fazer seus jogadores compreenderem esse espírito, lidar com a pressão e a expectativa de uma volta rápida à elite. Ele ainda contou com uma estabilidade no emprego fundamental para ter a garantia de que seu longo trabalho de recuperação do Nantes não seria largado no meio e comprometido ao primeiro tropeço.

Agora, cabe discutir o planejamento para a temporada 2008/09. A diretoria tratará logo da provável renovação de contrato com Der Zakarian e seu assistente Baptiste Gentili. Além da manutenção de seus principais jogadores, como Shereni, Da Rocha, Goussé e Maréval, cabe estudar nomes com experiência na Ligue 1 e venham para resgatar o estilo técnico de jogo da equipe. Como o alto preço pago pela contratação equivocada de atletas ainda está fresca na memória, os Canários estão bem atentos para evitar novas bobagens.

Regra de três

A três rodadas do final da Ligue 1, a disputa pelo terceiro lugar se mostra cada vez mais acirrada. O Olympique de Marselha voltou a passar o Nancyy na tabela com a vitória por 3 a 2 sobre o Monaco fora de casa. Na parte de baixo da tabela, três clubes brigam para fugir da terceira ‘vaga’ na Ligue 2. O Paris Saint-Germain respirou ao derrotar o Auxerre por 3 a 1 e se juntou a Toulouse e Lens, os três com 38 pontos. O TFC perdeu para o Lille por 3 a 2, enquanto os Sang et Or foram superados pelo Le Mans pelo mesmo placar. Já o Strasbourg parece se conformar mesmo com a queda, pois não ofereceu resistência ao Rennes e sucumbiu por 3 a 0.

No Parc des Princes, o Paris Saint-Germain entrou em campo pressionado por um turbilhão de acontecimentos negativos nas últimas semanas. O duelo contra um instável Auxerre era sua chance para tentar se inflamar na busca por um bom resultado. Diante de um clima tenso com parte de sua torcida, um novo revés significaria mais alguns dias de terror, protestos no centro de treinamento, especulações e uma pressão quase insustentável. Ao menos restou um fio de esperança.

O PSG fez aquilo que não conseguiu cumprir em seus últimos jogos. O time conquistou uma certa margem de segurança para manejar, traduzida na blitz organizada na primeira metade da etapa inicial. O gol de Pauleta logo no começo (seu 200º no Campeonato Francês) e o de Diané deixaram a situação bem mais calma para a equipe, até com desempenho regular em algumas de suas últimas partidas. Os 2 a 0 fizeram o time da casa relaxar sem se descuidar.

O gol de Mignot traria nervosismo se marcado um pouco mais cedo, mas o PSG até soube controlar suas emoções, algo que lhe faltou nas rodadas anteriores. Diané logo colocou as coisas de volta ao seu devido lugar, e as arquibancadas do Parc des Princes enfim se sentiram livres para cantar uma vitória imprescindível para suas pretensões na temporada.

O ‘jogo da salvação’ será mesmo entre Toulouse e PSG. Os Violetas se entregaram diante da superioridade do Lille, em busca de uma vaga em competições européias e caíram por 3 a 2 fora de casa. O LOSC saiu atrás no placar, mas graças a sua vontade, até maior do que a técnica, conseguiu virar para 3 a 1 ainda no primeiro tempo. De nada adiantou Mansaré marcar o segundo do TFC, pois os comandados de Claude Puel finalmente encontraram sua referência no ataque.

Frau, Kluivert, Fauvergue e Youla foram escalados na expectativa de se tornarem os homens-gol dos Dogues. Nada feito. Kevin Mirallas vem crescendo nesta reta final de temporada; o jovem belga já havia se destacado ao marcar duas vezes no triunfo por 3 a 1 sobre o Olympique de Marselha e voltou a brilhar com outras duas bolas na rede do Toulouse. Se mantiver o mesmo nível de suas atuações, o atacante certamente levará o Lille a outros triunfos incontestáveis e reverterá a imagem do clube de fazer o mínimo para vencer.

No Toulouse, há de se lamentar duas derrotas seguidas mesmo jogando razoavelmente bem. Há de se lembrar que o 1 a 0 sofrido para o Bordeaux em casa foi definido apenas nos acréscimos. Como visitante, o time não perdia há quatro jogos, com duas vitórias seguidas na casa de seus adversários. Seu 4-3-3 ofensivo mostra bom poder de fogo na frente, mas a dupla de zaga formada por Arribagé e Fofana acaba exposta demais. Há necessidade de se correr tantos riscos? Se Mathieu se resguardar um pouco mais em suas funções de combate, já será um auxílio de grande valia.

Para o Lens, o ideal nestes três jogos restantes está em transformar sua defesa em uma muralha. Contra o Le Mans, o time perdia de 2 a 0 com apenas 25 minutos de bola rolando. Qualquer plano vai por água abaixo diante de uma desvantagem dessas em tão pouco tempo. Pelo menos os Sang et Or terão dois confrontos em casa, embora nenhum deles possa ser considerado como uma barbada: Monaco e Bordeaux. Para completar, uma visita contra o Lille no dérbi do norte francês. O técnico Jean-Pierre Papin mal esconde suas preocupações.

O Strasbourg já prepara suas malas para o retorno à Ligue 2. o Racing acumulou sua oitava derrota seguida com o 3 a 0 sofrido para o Rennes. Os números explicam melhor a má fase da equipe: em suas onze últimas partidas, o RCS perdeu dez vezes. Nos sete jogos mais recentes, a equipe marcou apenas um gol. Com Nancy, Caen e Olympique de Marselha como seus próximos adversários, a luta pela permanência na elite parece perdida, com os jogadores prontos para jogar a toalha. O time demonstra uma incapacidade total de levantar a cabeça e incorporou o espírito da derrota. Embora apenas três pontos separam o clube dos seus concorrentes mais próximos, essa falta de ambição impede qualquer chance de se pensar positivo e buscar um resquício de forças em algum canto perdido na Alsácia.

Liga dos Campeões

O Bordeaux tem motivos de sobra para lamentar o empate sem gols com o Nice. Como o Lyon ficou no 2 a 2 com o Caen, os Marine et Blanc desperdiçaram a chance de ficar a apenas dois pontos do líder. Se há um lado bom nessa história toda, os girondinos ao menos tiveram um consolo: eles confirmaram sua classificação direta para a Liga dos Campeões. Resta agora ao Olympique de Marselha e Nancy se matarem para garantir a terceira e última vaga no torneio continental.

O OM encarou o Monaco no estádio Louis II, em um dérbi longe de seus melhores dias. Com o clube monegasco sem Piquionne, Menez e Meriem, o treinador Ricardo Gomes se viu obrigado a recorrer aos jovens Gakpé e Gonzalez para incomodar a defesa dos marselheses. Ele só conseguiu seu objetivo ao promover a entrada de Bakar, o que fez o setor ofensivo da equipe deixar um pouco de sua timidez de lado. No entanto, de nada adiantou esses esforços com os deslizes de Monsoreau e Cufrè no combate.

Desta vez, a linha de frente marselhesa contou com uma tarde inspirada de Nasri. Quando seu principal articulador consegue encaixar seu melhor tipo de jogo, Niang, Akalé e Cissé agradecem. Houve ainda um bom poder de reação, pois o OM ficou duas vezes na frente no placar e viu seus adversários igualarem – no segundo gol, Mandanda falhou e foi encoberto. Em vez de baixar a cabeça, o Olympique não desistiu e acabou premiado com o gol da vitória.

Como o Nancy fraquejou diante do Valenciennes e ficou no 1 a 1, continua a indefinição pelo último lugar do pódio. Duas equipes irregulares neste fim de temporada seguem na briga, mas a maior experiência do OM nestes momentos decisivos deve fazer a diferença a seu favor.
 

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Equipe Trivela

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