França

O gol de € 3 milhões

Estava tudo desenhado para o Olympique de Marseille amargar mais um fracasso na Liga dos Campeões. Apenas um milagre no Signal Iduna Park seria capaz de fazer a equipe francesa virar o placar sobre o Borussia Dortmund e levá-la para as oitavas de final do torneio. E ele veio dos céus – ou melhor, do banco de reservas. Mathieu Valbuena entrou em campo para mudar a história da partida, definir a heroica classificação e confirmar a sina do jogador de ressurgir quando menos se espera dele.

Há algumas semanas, Valbuena amarga a condição de reserva no OM. Em novembro, ele ficou fora da lista dos convocados por Laurent Blanc para os dois amistosos da seleção francesa e demorou para digerir a notícia. Além de passar por uma fase ruim, ainda precisava se recuperar de mais este golpe. Como em outras oportunidades, ele esperou o momento exato para dar a volta por cima, exatamente em uma grande decisão.

Desde a partida fora de casa contra o Montpellier, Valbuena passou à condição de reserva. O meio-campista parece adorar quando o Olympique mais precisa de ajuda para mostrar o seu valor. Foi assim em 2007, quando ele fez o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Liverpool fora de casa – era a primeira vez na qual uma equipe francesa triunfava em Anfield. No ano passado, o OM tinha a obrigação de vencer o Spartak Moscou. Lá estava Valbuena para abrir o caminho dos 3 a 0 dos marselheses. Agora, mais uma vez, fora de casa, ele ressurgiu.

Durante sua carreira, Valbuena precisou de muita paciência (e talento) para provar que vingaria no futebol. Com apenas 1,67m, ele foi considerado baixo demais nas categorias de base do Bordeaux. No OM, após se tornar um dos queridinhos do treinador Eric Gerets, caiu em desgraça com Didier Deschamps. Colocado de lado pelo atual técnico, o jogador suou para convencê-lo de sua utilidade, mas mesmo assim vive de altos e baixos.

O golaço de Valbuena quando o empate e a eliminação pareciam certos encerrou o silêncio ao qual o próprio jogador se colocou. A concentração total lhe rendeu o título de herói da classificação e mais uma proeza: esta foi a primeira vez na qual uma equipe francesa ganhou em Dortmund. Pelo segundo ano consecutivo, os marselheses se classificam para as oitavas da LC. Um gol que valeu três milhões de euros, valor que o Olympique de Marseille receberá por ter avançado de fase.

O primeiro tempo se encaminhava para se tornar um desastre completo. O Borussia Dortmund, com a obrigação de golear para sonhar com a classificação, sufocou o OM desde o início e abriu uma vantagem de dois gols. O BVB poderia até ampliar esta diferença sem maiores dificuldades, já que tinha o amplo domínio das ações diante de um adversário que estava nas cordas e tentava a todo custo se segurar para evitar o nocaute. O gol de Rémy nos acréscimos deu sangue novo aos comandados de Deschamps.

Na etapa final, o Borussia Dortmund perdeu muito de seu ímpeto ofensivo. Além do golpe pouco antes do intervalo, o time alemão se viu sem dois de seus principais artífices no meio-campo. As lesões de Kehl e Götze desorganizaram os donos da casa. Foi a senha para o Olympique avançar suas ações e pressionar o BVB em seu campo de defesa. Deschamps acertou ao substituir Lucho González (apático pela enésima vez nesta temporada) por Jordan Ayew, conferindo maior agressividade ao meio-campo.

Com a entrada de Valbuena no lugar de Rémy, o OM completou sua blitz para cima de um Borussia Dortmund irreconhecível. Superiores fisicamente, os marselheses exploraram muito bem o fator psicológico, ponto fraco do elenco jovem do BVB e que ainda precisa amadurecer para suportar tamanha pressão. A vaga poderia ter vindo sem tanto sufoco, mas a emocionante virada serviu para mostrar como o grupo soube separar seus problemas internos dos seus objetivos na LC.

Lesões, cicatrizes e estrelas

André-Pierre Gignac definitivamente passa por um inferno astral. Em péssimo momento, o atacante do Olympique de Marseille mergulhou mais fundo em sua fase turbulenta. Todos se lembram da ríspida discussão entre ele e o técnico Didier Deschamps após a derrota para o Olympiacos na Liga dos Campeões. O episódio serviu para queimar ainda mais seu filme no clube, mas os dias posteriores mostraram que sua situação poderia piorar, como diz o sábio postulado da lei de Murphy.

Após o polêmico episódio contra a equipe grega, Gignac foi afastado do elenco profissional, mas foi reintegrado após apresentar suas desculpas a Deschamps. Isso, porém, não foi o suficiente para o atacante limpar totalmente sua barra com o treinador. Em má fase técnica, o jogador entrou em campo na parte final do jogo contra o Caen. Foram poucos minutos, mas suficientes para Gignac sofrer uma lesão muscular na coxa que o tirará dos gramados por pelo menos seis semanas.

Além de Gignac, há outro jogador que espera ansiosamente a chegada de 2012 para que as energias do novo ano o atinjam para tirá-lo da penumbra. Há cerca de um mês, Javier Pastore e a torcida do Paris Saint-Germain tentam encontrar o futebol que alçou o meia à condição de uma das principais esperanças do time da capital nesta temporada. O argentino se tornou alvo de críticas cada vez mais vorazes e as têm respondido na mesma proporção.

Após um plano traçado pelo PSG para fazer Pastore aparecer na imprensa e tentar amenizar sua situação, o argentino chutou o balde em uma entrevista para a So Foot. O meia, enfim, admitiu que não se sente bem e não consegue se expressar da maneira como deseja. O discurso de que sua queda de produção em campo se deve ao cansaço provocado pela maratona de jogos pelo time da capital e pela seleção argentina também mudou.

A queixa promete criar mais polêmica sobre o já pressionado treinador Antoine Kombouaré. Pastore reclamou de seu posicionamento em campo. “No Palermo, jogava como um camisa dez. Aqui, atuo como um segundo atacante”, comentou, antes de jogar mais lenha na fogueira. “No PSG, jogo em um setor e não saio dele. É o que me pedem e eu faço isso, mas não me sinto livre. Desde que cheguei aqui, são raras as vezes nas quais peguei a bola em uma região na qual sabia que poderia incomodar os adversários”, acrescentou o jogador com um galão de gasolina nas mãos.

Sobrou ainda para os companheiros de equipe, a quem também depositou certa parcela de culpa por sua má fase. Para Pastore, “na França se joga de cabeça baixa” – um claro recado a jogadores cujo individualismo em excesso gera seguidos questionamentos. Para ser mais direto, foi uma mensagem sutil a Nenê e Ménez, conhecidos pelo desejo de querer resolver a situação por seus próprios pés.

Enquanto Gignac e Pastore enfrentam dificuldades, Olivier Giroud navega em uma nuvem junto com o Montpellier. Contra o Sochaux, o atacante marcou três gols e foi o nome o triunfo que colocou a equipe no topo da tabela da Ligue 1. Diante do Lorient, ele voltou a exibir sua classe e justificou com sobras sua condição de melhor jogador do momento do campeonato – e, lógico, provou que faz por merecer uma vaga entre os Bleus.

Giroud já demonstrou seu faro de gol nesta Ligue 1, mas o Lorient sofreu na pele com outra faceta do jogador. Foram nada menos do que três assistências para seus companheiros, em mais uma atuação de gala – coroada com o gol final na goleada por 4 a 0 sobre os Merlus. O atacante chegou à marca de 12 tentos em 15 partidas, liderando com sobras a tábua de artilharia do torneio. Enquanto os astros enfrentam problemas, Giroud brilha e leva o Montpellier às alturas.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo