O Nice passa por um estado de graça. Sem ninguém dar a menor pelota para o time no começo da temporada, os Aiglons colecionam bons resultados e surpreendem com a quarta posição na Ligue 1. De time que lutava para não cair, passou para estrela com um orçamento de apenas € 29 milhões. A última vítima foi o Lille, que enfrenta um momento completamente diverso. O LOSC, sempre considerado como um dos favoritos às primeiras posições, amarga resultados ruins e um modesto décimo lugar.
Em campo, muito desta reviravolta se deve ao trabalho de Claude Puel. O técnico chegou ao clube com a missão de se virar com pouco dinheiro para a contratação de reforços e as atenções da diretoria para a conclusão das obras do Allianz-Riviera, novo estádio dos Aiglons. Experiência para isso ele tem de sobra, já que passou por algo parecido quando esteve à frente do Lille (que ironia…) entre 2002 e 2008.
Puel conseguiu agregar qualidade ao time ao dosar a experiência de jogadores como Civelli, Digard, Pejcinovic e Ospina com promessas como Neal Maupay, de 16 anos e autor de dois gols nos 123 minutos nos quais ficou em campo. O Nice também teve uma dose de sorte no mercado. O OGC apostou em nomes que estavam subaproveitados (como Dijonnais Bauthéac, Pied et Kolodziejczak). O grande golpe, porém, foi a chegada de Dario Cvitanich. O custo-benefício foi excelente: onze gols para um jogador que custou a bagatela de € 400 mil.
Neste princípio de 2013, o Nice ratificou sua condição de carrasco das equipes do norte francês. Primeiro, trucidou o Valenciennes com uma goleada por 5 a 0. Uma semana depois, com a mesma impiedade, derrotou o Lille por 2 a 0 na casa do adversário. Um resultado que coroa a excelente série do OGC, que nos últimos 11 jogos na Ligue 1 obteve oito vitórias (uma delas contra o Paris Saint-Germain e outra sobre o Rennes, seu concorrente direto), dois empates e apenas uma derrota (para o Lyon).
Diante do Lille, o Nice teve um início bastante tímido. Os donos da casa exerceram uma pressão daquelas desde o pontapé inicial, mas esbarraram novamente em um de seus problemas recentes: o time até consegue roubar a bola, mas não sabe o que fazer com ela em seguida. Os Aiglons estavam nas cordas, mas o LOSC teimava em errar seus golpes bem na hora de nocautear o rival.
Os números provam como o Lille sente dificuldades no momento da definição. Mesmo com 55% da posse de bola e a forte pressão na etapa inicial, a equipe só finalizou seis vezes durante 90 minutos – e apenas duas delas na direção do gol! Já o Nice, que praticamente assistiu ao rival jogar nos 45 minutos iniciais, teve 12 conclusões a gol, sendo cinco delas certas.
Qual foi a chave para a mudança deste panorama? O Nice alterou sua postura em campo no retorno dos vestiários. Nada de esperar o Lille; a ordem foi devolver a pressão e incomodar os meio-campistas, que viam a bola queimar aos seus pés. O caso mais exemplar foi o de Marvin Martin, completamente perdido e em péssima fase. Estava preparada a receita para a vitória, sacramentada com os gols de Civelli e Maupay.
Lille em queda
Se de um lado o Nice comemorava mais uma vitória convincente, do outro predominava a tensão. O público presente ao Grand Stade tratou de colocar para fora toda a sua ira com as prestações nada honrosas de sua equipe. O alvo principal foi o presidente Michel Seydoux, cobrado por ter desmanchado o bom time das últimas temporadas e por onde colocou o dinheiro advindo destas transferências.
O próprio treinador Rudi Garcia enxovalhou seus jogadores e os acusou de excesso de individualismo. Em campo, um solitário Dimitri Payet caminha no deserto escaldante no qual se transformou o ataque do Lille, outrora tão decantado por sua qualidade. Contratado por € 10 milhões, Martin paga por sua inconstância e não consegue ser aquele talentoso meia que apareceu no Sochaux e mereceu até convocações para a seleção francesa.
Sem aquela alma ofensiva, este Lille coleciona vexames, como a eliminação na Copa da Liga diante do Saint-Étienne. A ida de Mathieu Debuchy para o Newcastle rendeu algo em torno de € 7 milhões ao LOSC, que procura desesperadamente por um atacante. A solução para a seca do ataque, que marcou somente 26 gols em 21 partidas da Ligue 1, porém, está na formação de seu meio-campo. Ainda vale insistir tanto em Martin? O momento parece propício para lhe oferecer um período de aprimoramento técnico e físico, pois ainda há tempo para o time reagir.
Luto
O Paris Saint-Germain entrou no gramado do Chaban-Delmas ainda abalado pela morte de Nick Borad, membro da comissão técnica da equipe. Mesmo em meio ao clima pesado por estas circunstâncias, o PSG impôs ao Bordeaux sua primeira derrota em casa nesta temporada. Sem ser brilhante de novo, o time fez o mínimo para vencer por 1 a 0 e alcançar o Lyon na liderança.
O sistema defensivo do PSG sofreu baixas importantes. Nada da dupla de zaga formada por Thiago Silva e Alex (ambos lesionados), nem a proteção de Thiago Motta (suspenso). O Bordeaux pouco fez para aproveitar estas ausências. Embora tenham tido boas opções com Trémoulinas e Mariano pelas laterais, os Marine et Blanc se espelhavam nos parisienses na sonolência de seu meio-campo.
Isolado no ataque dos girondinos, Yoann Gouffran foi engolido por Camara e Sakho, substitutos dos brasileiros no miolo da zaga. O técnico Francis Gillot se viu de mãos atadas, pois não tinha como encontrar uma solução tática para melhorar o aproveitamento ofensivo de sua equipe. As chances do Bordeaux se resumiram a insistentes cruzamentos para a área, para a alegria da defesa visitante.
O gol de Ibrahimovic, em assistência de Lucas, foi um achado em meio à completa falta de inspiração do PSG. O time não encanta, mas ao menos se mostra eficiente: completou seis jogos seguidos sem sofrer gols e, quando possível, resolve suas partidas nas poucas ocasiões criadas para se manter firme na briga pelo topo.


