O enigma Benzema
A França passou em seu primeiro teste nas eliminatórias da Copa do Mundo-2014, mas ainda precisa trabalhar mais se quiser tirar aquele dez com louvor. As vitórias contra Bielorrússia e Finlândia mostraram um time em evolução, com alguns pontos a corrigir, e a sensação de dever cumprido – ainda mais quando a próxima rodada reserva um duelo crucial contra a Espanha.
No Stade de France, os franceses fizeram uma apresentação melhor do que na estreia em Helsinque. Não que isso tenha significado um primor de jogo. Apesar do placar de 3 a 1, os Bleus voltaram a exibir problemas em seu setor ofensivo. Ao menos Didier Deschamps se mostrou consciente desta falta de punch e resolveu mexer na escalação, tentando algo diferente do visto contra a Finlândia.
De maneira geral, o 4-3-3 foi mantido; o que mudou foi a constituição deste esquema tático. No meio-campo, o técnico preferiu mandar Capoue a campo no lugar de Diaby, um dos destaques do triunfo sobre os escandinavos. No ataque, as mexidas foram maiores. Diante da inoperância de Ménez em Helsinque, Deschamps optou por montar o trio de ataque com Ribéry, Benzema e Giroud.
O plano era ter um típico centroavante (Giroud) para Benzema ter alguém com quem jogar com maior frequência. A formação anterior o obrigava a voltar demais e sair da área para buscar jogo, pois Ménez sentia dificuldades para apoiá-lo. Ribéry tem cumprido muito bem sua função, seja na esquerda ou pela direita. O esquema, porém, não funcionou exatamente da maneira como Deschamps pretendia.
Giroud foi uma figura quase nula em campo. Era para ele ser a referência dentro da área, mas o artilheiro da última Ligue 1 esteve bem tímido e não ofereceu opções aos colegas de frente. Eis aí o grande problema reconhecido por Deschamps. Os Bleus sentem demais a falta de alguém definidor de jogadas. Alguém pode se indignar e lembrar de Benzema, mas o atacante do Real Madrid passa por uma situação curiosa.
Hoje, Benzema tem lugar cativo entre os titulares, mas precisa definir sua real função em campo. No papel de camisa nove, ele tem recuado demais (nem tanto por culpa dele) ou caído muito pela esquerda. Daí a boa percepção de Deschamps de pensar em escalá-lo logo de uma vez por este lado e abrir uma vaga na ponta do ataque. Seria tudo muito bom se não houvesse outro problema.
No momento, não há alguém em uma fase tão boa que seja um candidato indiscutível ao posto. Benzema não tem concorrentes, mesmo sem marcar há seis partidas com a camisa dos Bleus. O próprio Giroud teve um começo de temporada tímido pelo Arsenal. Outros postulantes ao cargo também vivem momentos complicados. Bafétimbi Gomis só fez gols pela França em sua estreia em um longínquo 2008. Kevin Gameiro e Guillaume Hoarau foram relegados ao segundo plano no Paris Saint-Germain com as chegadas de Zlatan Ibrahimovic e Ezequiel Lavezzi.
A França sofre com este velho problema do cobertor curto. Enquanto Ribéry puder resolver quase sozinho, não há grandes questionamentos. O temor surge quando se tem seu principal rival por uma vaga na Copa logo à frente e o time ainda está enrolado, revirando seu armário para encontrar aquela peça que melhor combina com a ocasião – e com grande risco de pagar mico com algo fora de moda.
Estreia sem convencer
A campanha da França nas eliminatórias da Copa-2014 começou bem, mas sem ser brilhante. Fora de casa, os comandados de Didier Deschamps derrotaram a Finlândia por 1 a 0 e cumpriram uma tarefa primordial: não oferecer logo de cara espaços para que a Espanha pudesse tirar proveito. Com a Fúria de folga, os Bleus precisavam fazer seu dever, o que foi cumprido de forma eficiente.
Em seu primeiro jogo para valer no comando dos franceses, Deschamps queria fazer a torcida esquecer o sonolento 0 a 0 do amistoso contra o Uruguai, disputado três semanas antes. O time ainda não agradou completamente, mas houve pontos positivos tirados da magra vitória por 1 a 0 em Helsinque. Ao contrário de Laurent Blanc, DD começou sua trajetória em um torneio oficial com uma vitória – o antecessor amargou uma derrota para a Bielorrússia.
Por enquanto, o treinador viu uma boa apresentação do setor defensivo dos Bleus. O miolo de zaga formado por Sakho e Yanga Mbiwa demonstrou solidez e teve apenas um momento de hesitação, quando Hämäläinen saiu na cara de Lloris. O controle da partida ficou nas mãos dos franceses, muito por conta da superioridade nas disputas de bola. Diaby simbolizou bem este domínio por conta de seus seguidos desarmes e a marcação implacável.
Além de suas funções defensivas, Diaby teve boa contribuição no ataque. Como elemento-surpresa, ele concluiu com exatidão o presente dado por Benzema para fazer seu primeiro gol com a camisa da França. Já eram decorridos 20 minutos de jogo e a França estava em vantagem , mas o time se deparava com um problema: a falta de produtividade de seu ataque, algo que Deschamps precisa resolver com urgência.
Benzema dificilmente recebia algum passe em profundidade para tentar criar alguma jogada com seus companheiros de frente. O atacante do Real Madrid foi obrigado a recuar para tentar participar mais do jogo, mas ainda assim sentia dificuldades para tabelar com Ribéry. Ménez, que também deveria puxar a bola mais pelas pontas, fracassou de forma retumbante em sua missão.
A ausência de jogo pelas pontas exibida diante dos finlandeses, aliás, preocupa. Por enquanto, Deschamps prefere atuar no 4-3-3 por acreditar que este sistema seja mais adequado às características dos jogadores da seleção. Benzema, Ribéry e Ménez já mostraram em um passado recente que podem, sim, atuar com categoria, mas com algumas ressalvas. Ménez, por exemplo, sucumbe diante de uma marcação mais firme por não saber se virar muito bem em espaços curtos. Além disso, sua irregularidade agrava outra situação incômoda.
A seleção francesa tem como um de seus grandes defeitos pender demais seu jogo pela esquerda com Ribéry e Benzema. Como o meia-atacante do Bayern de Munique prefere não avançar tanto à linha de fundo, Benzema se vê obrigado a voltar para buscar jogo, o que diminui a presença de área e, por consequência, a força ofensiva da equipe. Com os altos e baixos de Ménez, não há a confiança necessária para explorar tanto o lado direito, o que facilita demais a vida dos adversários.
Pedir a Benzema para que fique preso na área seria um tiro no pé, pois ao sim o atacante morreria de inanição. Duas alternativas aparecem como mais viáveis e interessantes. A primeira seria avançar um dos meias para coordenar melhor a distribuição das jogadas e evitar os recuos excessivos de Ribéry e Benzema. A segunda seria escalar dois laterais de características mais ofensivas, como Jallet e Clichy, nos lugares de Réveillère e Evra. Assim, Ribéry e Ménez teriam maior liberdade à frente, aproximando-se mais de Benzema e com um time mais compacto em campo.


