França

O adeus a Jean-Pierre Adams, o ex-zagueiro que passou 39 anos em coma e seguiu vivendo uma comovente história de amor

Símbolo do futebol francês nos anos 1970, Jean-Pierre Adams entrou em coma após um erro médico numa cirurgia teoricamente simples de joelho

A imponência de Jean-Pierre Adams o transformou numa referência do futebol francês durante os anos 1970. Combinando potência física e solidez na marcação, o zagueiro ganhou o apelido de “Rocha Negra”. Ídolo no Nice e no Nîmes, o beque se tornou um dos primeiros imigrantes africanos a defender a seleção francesa. Não disputou Copa ou Euro, mas construiu sua reputação e formou uma célebre dupla com Marius Trésor, conhecida como a “Guarda Negra”. E toda a força evidente de Adams em campo marcaria também a luta de sua vida. Ao longo de 39 anos, o defensor viveu em estado de coma. Por conta de um erro médico durante uma cirurgia no joelho, o francês atravessou mais da metade de sua existência limitado a uma cama. E depois de quase quatro décadas, o veterano teve seu descanso final. Nesta segunda, Adams faleceu aos 73 anos.

A história de Jean-Pierre Adams pode ser contada pelo lamento de uma vida ativa interrompida de maneira abrupta e inconsequente. Porém, também traz consigo uma imensa história de amor. A esposa, Bernadette, nunca deixou de cuidar do marido e o acompanhou por cada um dos últimos 14.414 dias de vida em estado vegetativo. Foi quem se negou a colocar o veterano numa casa de repouso e nunca admitiu a possibilidade de eutanásia. Tinha inclusive medo de falecer antes do marido e deixá-lo sem os devidos cuidados. Uma dedicação sem retribuições além de mínimos sinais de consciência.

“Tenho a sensação de que o tempo parou no dia 17 de março de 1982. Não há mudanças, nem boas e nem ruins. Embora ele não precise de assistência na respiração, permanece em estado vegetativo”, diria Bernadette, ao Midi Libre, em 2012 “Não penso sobre como minha vida seria sem esse acidente. Meu pesar é pelos meus filhos, que não tiveram o pai para acompanhá-los e eu estava muito ocupada em vários momentos, por mais que quisesse ajudá-los. Isso é o que me tortura”.

Jean-Pierre e Bernadette se conheceram em 1968, num relacionamento que não era aprovado pela família da noiva. A futura sogra de Adams não admitia que um homem negro de 20 anos namorasse com uma moça loira quatro anos mais velha. Por fim, a personalidade do noivo conquistou a nova família, numa época em que o então atacante apenas iniciava sua carreira no Entente BFN, um pequeno clube da terceira divisão francesa. “Ele era a alegria de viver personificada na forma humana – um cara risonho e brincalhão, que adorava sair. Sério, um sorriso estava sempre brilhando em seu rosto. Ele amava a boa vida e era amado por todos também”, contaria Bernadette, à CNN.

Bem antes do início do namoro, a vida de Jean-Pierre Adams já contava com uma jornada particular. Ele nasceu em Dacar, capital do Senegal (ainda uma colônia na época), em 10 de março de 1948. Filho mais velho em uma família grande, quando tinha 10 anos o garoto acompanhou sua avó, católica fervorosa, numa peregrinação rumo à França. Naquele momento, a família decidiria deixá-lo para estudar num colégio religioso nos arredores de Paris e por lá ele cresceria, adotado por um casal de aposentados franceses.

O futebol seria essencial para a integração de Adams. Sobrinho de um jogador em Senegal, o menino demonstrava desde cedo seu talento com a bola. E, como negro numa sociedade majoritariamente branca, ele encontrou um caminho para estreitar seus laços no gramado. Tanto quanto a imponência física, a personalidade cativante de Jean-Pierre também abria portas em sua trajetória.

Adams completou o ensino básico, mas não chegaria a ingressar na faculdade. Trabalhava numa fábrica, enquanto dava seus primeiros passos no futebol amador na cidade de Montargis. Neste momento, sua carreira chegou a ficar em risco por conta de uma lesão no joelho. Todavia, o adolescente persistia e se transferiria para o Entente BFN. Por lá, disputou seus primeiros campeonatos como semiprofissional e ganhou a estabilidade necessária para se casar com Bernadette. Contudo, também sofreria um grave acidente de carro que culminaria na morte de seu melhor amigo, responsável por sua chegada ao Entente.

Por milagre, Adams escaparia da tragédia com apenas alguns arranhões. E sua carreira decolaria naquela virada dos anos 1960 para os 1970. Primeiro, o atacante cumpriu o serviço militar obrigatório e fez fama com o time de seu batalhão. Depois, seria um dos protagonistas do Entente BFN no acesso rumo à segunda divisão do Campeonato Francês em 1970. Diante de tamanha visibilidade, por contatos feitos no exército, ele conseguiria a chance de um teste no Nîmes. O atacante participou de um amistoso contra o Rouen e fez o suficiente para convencer o clube da primeira divisão, que costumava frequentar a zona intermediária da tabela.

No novo time, Adams pôde se desenvolver sob a tutela de Kader Firoud, treinador lendário dos Crocodilos. E o atacante limitado se transformaria em grande defensor, o que se provou também vital ao clube: o Nîmes faria grande campanha no Campeonato Francês em 1970/71, com a quarta colocação e a vaga na Copa da Uefa. O resultado melhoraria com o vice em 1971/72 e garantiria a primeira convocação do jovem para a seleção francesa.

Em 1972, Adams foi chamado para disputar a Taça Independência, torneio amistoso realizado no Brasil para comemorar o sesquicentenário da independência. A partir de então, o beque tomou a posição de titular. Foi quando formou a chamada “Guarda Negra” ao lado de Marius Trésor, já uma referência no Olympique de Marseille por sua enorme qualidade técnica. Os dois zagueiros se completavam muito bem e ganhavam elogios públicos de seus pares, incluindo de Franz Beckenbauer. O apelido, aliás, seria dado por Stefan Kovacs – célebre treinador romeno que assumiu o comando da França em 1973, após ser bicampeão da Champions à frente do Ajax. “Jean-Pierre era uma rocha. Quando o atacante conseguia se livrar de suas garras, não sobrava muito, o que facilitava para mim”, contaria Trésor, à revista SoFoot.

Em pouco tempo, Jean-Pierre Adams vestiria a camisa de um dos clubes mais tradicionais do Campeonato Francês. Para a temporada 1973/74, o jovem de 25 anos assinou com o Nice. As Águias não viviam seus anos mais gloriosos, mas tinham no zagueiro uma certeza no coração de sua defesa. Não à toa, ele permaneceu nas convocações da França e também seria eleito entre os melhores de sua posição na liga pela France Football. Sua capacidade atlética, sobretudo, o mantinha em evidência. Uma pena que tal impacto não tenha necessariamente levado os Bleus para uma grande competição. Os franceses sucumbiram no grupo que tinha a União Soviética rumo à Copa de 1974 e também ficaram abaixo da Bélgica pela Euro 1976.

Neste momento, a carreira de Adams começava a entrar em declínio. O Nice seria vice-campeão francês em 1975/76, mas as muitas lesões atrapalharam o zagueiro e ele também deixaria as convocações da França. Foram 22 partidas com os Bleus no total. Em busca de novos ares, o beque retornaria a Paris em 1977. Ele defenderia o Paris Saint-Germain, na época um clube recém-fundado que tentava estabelecer suas marcas na elite do Campeonato Francês. Adams seria uma figura de peso aos parisienses, mas as limitações físicas atrapalhavam seu jogo. Depois de duas temporadas no Parc des Princes, o contrato do veterano não seria renovado.

O final de carreira de Jean-Pierre Adams foi modesto. Ele ainda defendeu o Mulhouse, antes de passar pelo amador Chalon. Aos 33 anos, então, o zagueiro decidiu pendurar as chuteiras, mas não se afastaria totalmente do futebol. No início dos anos 1980, abriu uma loja de artigos esportivos e começou sua formação como treinador. Foi durante um estágio que o ex-jogador sentiria uma lesão no joelho – aquela que impactaria na sua vida. Adams fez exames que apontaram um dano nos ligamentos. Seria necessária uma cirurgia, marcada para 17 de março de 1982. Um dia fatídico para Adams e para o futebol francês, como um todo.

Adams deixou sua casa animado, garantindo à esposa que o procedimento seria tranquilo. “Tudo vai ficar bem. Serei operado às 11 da manhã. Pense em mim de qualquer maneira, mas venha me pegar dentro de uma semana e não se esqueça do par de muletas”, teriam sido suas últimas palavras, conforme Bernadette. Naquele dia, porém, os profissionais do hospital em Lyon faziam uma greve. A anestesista precisava manejar oito pacientes ao mesmo tempo, incluindo uma criança em situação delicada, enquanto o encarregado de monitorar Adams era um estagiário – que admitiria depois não ter a experiência necessária para a tarefa que desempenhava.

Em vez de adiarem a cirurgia do ex-zagueiro, que não necessitava de urgência, os responsáveis seguiram em frente. Ele não foi entubado da maneira correta, assim como a cama não era adequada para o procedimento. E o uso de uma substância na anestesia conhecida por demandar muitos cuidados acabou culminando na fatalidade. O atleta sofreu uma parada cardiorrespiratória e a falta de oxigenação no cérebro causou danos irreversíveis. Ele nunca se recuperaria do coma.

Bernadette seria chamada às pressas para o hospital. A esposa passou cinco noites ao lado do leito de Jean-Pierre, sem que o francês desse sinais de melhora. O ex-zagueiro seria depois transferido para a cidade de Chalon, onde sofreu novamente com a negligência dos médicos e teve uma infecção nos ossos, que de novo o levou para o centro cirúrgico. Seriam 15 longos meses internado, até que o hospital informasse Bernadette que Jean-Pierre deveria ser transferido para uma casa de repouso. A esposa, no entanto, queria o seu amor sob seus cuidados em casa e se adaptaria à nova realidade. “Tento não pensar no acidente todos os dias, mas não tenho escolha. Cada vez que olho para ele, isso está presente na minha cabeça”, afirmaria, à CNN.

Na época, o casal tinha dois filhos pequenos: Laurent, de 11 anos, e Frédéric, de quatro anos. Bernardette criava os dois meninos, enquanto dava a máxima atenção para Jean-Pierre em seus cuidados. A esposa construiu uma casa adaptada para receber o ex-zagueiro, que ela apelidava de “A Casa do Belo Atleta Adormecido”. Moravam em Nîmes, onde praças esportivas homenageavam a “Rocha Negra”. Diante da situação financeira delicada da família, PSG e Nîmes fizeram doações para os Adams, enquanto a federação francesa começou a pagar uma pensão mensal. Além disso, alguns clubes e ex-jogadores levantaram fundos através de partidas amistosas ao longo dos anos. A solidariedade também foi essencial para Bernadette sustentar as contas.

Diante do erro médico, porém, Jean-Pierre Adams nunca recebeu uma indenização plausível. Os tribunais conduziram lentamente o julgamento dos médicos que operaram o ex-zagueiro. Somente em 1994 que a anestesista e seu assistente foram considerados culpados pelas lesões involuntárias. Receberam uma multa equivalente a 750 euros e uma sentença de um mês na cadeia que só precisariam cumprir em caso de reincidência. Enquanto isso, o hospital em Lyon nunca sequer admitiu as falhas no procedimento ou pediu desculpas aos familiares.

A vida de Bernadette se resumiria aos cuidados de Jean-Pierre, com o auxílio esporádico de enfermeiros e fisioterapeutas. Dava banho no marido, trocava suas roupas, servia sua comida. Até ligava a televisão em jogos de futebol e botava discos de música brasileira, entre os favoritos do ex-jogador, à espera de alguma reação. Não esmorecia, mesmo sem respostas além de pequenos movimentos dos olhos. “Falo com ele o tempo todo – sobre TV, o que está no correio, qualquer coisa. Sempre há movimento ao redor dele. Ele está sempre ao nosso lado. Digo que ele não entende minhas palavras, mas pode haver momentos em que ele tem um flash de memória. Talvez por um instante, apenas um instante, ele entenda alguma coisa”, afirmaria Bernadette, à CNN.

A companheira sequer tirava períodos de descanso em sua dedicação, já que alguns dos sinais mínimos de lucidez transmitidos pelo ex-zagueiro reagiam à presença do amor de sua vida. As ações de Jean-Pierre se resumiam basicamente a abrir ou fechar os olhos, digerir alimentos e respirar sem auxílio de aparelhos, mas seu comportamento mudava com Bernadette longe. “Ele sente, cheira, ouve e pula quando um cachorro late. Mas não consegue ver”, complementaria a esposa ao jornal Le Parisien. “É tão raro que eu saia por alguns dias… Não ajuda, mas eu me sinto culpada. Sinto que ele me espera, pensando quando chegarei em casa”.

Em seus aniversários, Jean-Pierre continuou recebendo presentes de Bernadette e dos filhos. Laurent virou jogador e teve uma breve passagem pelo Nîmes. O ex-zagueiro se tornou avô de três crianças. A seleção francesa ganhou duas Copas do Mundo, além de duas Eurocopas. Outros tantos jogadores de origem africana defenderam os Bleus, alguns deles também nascidos em Dacar. Porém, o tempo seguiu parado na cama de Adams, numa rotina que se repetiu por quase quatro décadas. “Ele não envelhece, a não ser por alguns cabelos brancos”, diria Bernadette, ao Midi Libre, em 2012.

A cada ano, a imprensa francesa fazia questão de recontar a história de Jean-Pierre e Bernadette. Veículos estrangeiros também retrataram a longa caminhada da família Adams. A paciência da esposa, seja no afeto diário ou no sonho de vê-lo sair do coma, estava expressa em cada reportagem. “Minha história obviamente não tem nada a ver com a eutanásia. Se Jean-Pierre quisesse morrer, ele teria deixado isso claro para mim. Ele parece bem, seu rosto está sereno. Eu não acho que gostaria de ouvir um médico me dizer que sua condição não melhorará. Um dia, quem sabe, ele vai acordar e aí…”, diria Bernadette ao Le Parisien, num raciocínio incompleto que indicava o tamanho de sua esperança. “Se um dia a ciência médica evoluir, por que não? Haverá um dia em que saberão fazer algo por ele? Não sei”, afirmaria também, à CNN.

As reticências, nesta segunda, viraram ponto final – mas sem negar o tamanho do afeto nesses anos todos de cuidado. A esperança experimentada diariamente por Bernadette corresponde a um sentimento maior, que conduziu o casal além de todas as limitações de Jean-Pierre e do pesar pelo ocorrido há 39 anos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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