Futebol francês

Noite maluca

Gerland teve uma noite inesquecível. O duelo “olímpico” superou qualquer esquema tático para dar vazão ao que realmente move o futebol dentro de campo: a busca pela vitória. Sem se entregar, Lyon e Olympique de Marselha fizeram um incrível 5 a 5 com direito a viradas, mudanças repentinas do panorama do jogo e uma verdadeira lição de que não se deve jogar a toalha antes do apito final.

Em quinze minutos de jogo, o placar já apontava uma vitória de 2 a 1 do Lyon. Além dos gols, a intensa movimentação de duas equipes voltadas para o ataque deixou a partida em ritmo alucinante. Com o OM dono da posse de bola, mas sem a eficiência dos lioneses nos ataques, o jogo parecia dominado pelos donos da casa. Os marselheses só arrancaram o empate ao fim do primeiro tempo em uma falha de Lloris.

Aliás, se os ataques estavam endiabrados, as duas defesas apresentaram falhas gritantes. Do lado do Olympique, Hilton teve uma atuação digna de esquecimento. O brasileiro estava fora de sintonia com sua equipe e foi facilmente batido em pelo menos três gols do Lyon. Os anfitriões também se mostraram frágeis demais na marcação. Como um todo, a defesa lionesa deu espaços demais aos adversários, como se não confiasse na força ofensiva dos marselheses. Os erros em lances de bola parada, em jogadas pelo alto, também comprometeram a exibição dos donos da casa.

Na segunda etapa, o gol de Koné mudou completamente o jogo. O OM, antes acuado, agora dava as cartas diante de um Lyon sem forças para reagir, abalado pela desvantagem. Lloris se recuperou do erro no fim da primeira etapa e salvou o OL em diversas ocasiões. Era a hora de Claude Puel aparecer, e o treinador conseguiu reverter o quadro. As entradas de Gomis e Michel Bastos nos lugares do apagado Ederson e de Källström colocou os lioneses à frente. Embora o time tenha ficado bem mais ofensivo, a defesa ficou mais exposta ainda.

Resultado: nos 15 minutos finais da partida, nada menos do que cinco gols foram marcados. Toulalan teve o azar de mandar contra suas próprias redes e definir o insano empate por 5 a 5. No duelo mais maluco da Ligue 1 até agora, o Bordeaux riu por último. Mesmo com a derrota para o Lille, os girondinos mantiveram a ponta graças à igualdade entre dois de seus maiores concorrentes ao título.

O PSG, por sua vez, segue irregular. Antoine Kombouaré decidiu usar a mesma tática da vitória contra o Sochaux e escalou a equipe num 4-2-3-1. No entanto, o time da capital demorou quase uma hora para realmente pegar no breu. Com o Nice armado em sua defesa e disposto a esperar os anfitriões tomarem a iniciativa para buscar um contra-ataque, a partida se revelou sonolenta em seus 45 minutos iniciais.

Na etapa final, as duas equipes enfim acordaram. O Paris Saint-Germain revelou, então, uma dificuldade acima do normal para ir às redes. Erding, por duas vezes, e Sessegnon tiveram chances claras de definir o jogo, mas as desperdiçaram. O ímpeto para resolver a partida sem a cautela necessária na defesa custou caro ao time da casa. E, mais uma vez, um lance de bola parada originou o gol da vitória do adversário.

O PSG teve uma falta a seu favor aos 43 minutos do segundo tempo, mas a má execução da jogada deixou o OGC à vontade para explorar o contra-ataque. Desarrumado, o time da casa apenas acompanhou o cruzamento perfeito de Mounier para a cabeçada precisa de Rémy, que deu a vitória aos Aiglons. Uma sucessão de falhas que teimam em não ser corrigidas e comprometem as chances de reação do time da capital.

Não é a primeira vez na qual o PSG toma um gol no fim da partida, em especial pela desatenção de seu sistema defensivo. Os erros de posicionamento em cobranças de falta também contribuem para deixar a defesa exposta. Desde o início da temporada, os parisienses insistem em repetir estas falhas, o que já deveria merecer a atenção especial de Kombouaré.

O Grenoble, por sua vez, tem motivos de sobra para comemorar. A equipe, que havia perdido todos – sim, eu disse todos – os seus jogos anteriores na Ligue 1 enfim sentiu o gostinho de conquistar seu primeiro ponto na temporada. O mais incrível foi o rival que cedeu o empate sem gols ao GF 38: o Monaco, em pleno estádio Louis II. Pressionados diante da teórica fragilidade dos visitantes, os jogadores do ASM foram um arremedo daquilo que já apresentaram no campeonato.

Guy Lacombe mandou a campo seu tradicional 4-5-1, com Coutadeur mais recuado para permitir a Gudjohnsen apoiar Park. Contudo, o Monaco se mostrou extremamente apático, sem imaginação alguma em seu meio-campo. A sonolência também afetou a defesa, que quase permitiu ao Grenoble ficar em vantagem no placar. O GF 38, por sua vez, também estava armado num 4-5-1, mas com vocação defensiva e somente Akrour no ataque.

Uma das principais explicações para o fracasso do Monaco está no ataque. Sem Nenê, o time do principado apostou suas fichas em Mollo. Com contrato prestes a vencer e na obrigação de substituir o destaque do time na temporada, o jovem sentiu o peso e contribuiu decisivamente para o tropeço. Melhor para o Grenoble, que escapou de igualar o recorde negativo do Manchester United no longínquo ano de 1932.

Classificação com problemas

Um dia após o Bordeaux se classificar para as oitavas de final da Liga dos Campeões, o Lyon não deixou por menos e também selou sua passagem para os mata-matas do torneio. O empate por 1 a 1 diante do Liverpool no Gerland mostrou o poder de reação da equipe, que perdia para os Reds, mas também evidenciou alguns problemas internos. Na saída para o intervalo, Jérémy Toulalan e o treinador Claude Puel tiveram uma ríspida discussão.

Com as numerosas ausências na defesa, o treinador foi obrigado a escalar o volante no setor. Toulalan, que já não gosta de atuar fora de sua posição de origem, estourou ao ouvir críticas de Puel. Segundo o diário L’Équipe, o técnico teria pedido ao jogador para que jogasse mais simples e parasse de querer driblar. Govou teve que se intrometer para evitar que a confusão se inflamasse. A aparente resolução do caso não esconde o descontentamento de Toulalan.

Na temporada passada, quando o Lyon conviveu com uma grande leva de jogadores contundidos, Toulalan chegou a quebrar o galho como lateral. Puel, sabendo da versatilidade do volante, nem pensou duas vezes quando precisou deslocar alguém com as lesões de seus zagueiros. Logo no primeiro jogo da fase de grupos da LC, contra a Fiorentina, Toulalan teve um desempenho muito bom e provocou a expulsão de Gilardino – o que foi a chave para a vitória do OL.

Entretanto, embora cumpra à risca com o que lhe é ordenado, Toulalan deixa bem clara sua preferência por sua posição original. Contra o Saint-Etienne, por exemplo, não foram poucas as vezes nas quais ele atuou mais avançado. Talvez o volante tema perder seu espaço para a concorrência dentro da seleção francesa, daí a necessidade de defender seu território a unhas e dentes.

Sem dúvida, Toulalan já provou suas qualidades em campo e não deveria se sentir tão ameaçado nos Bleus. Tudo o que o Lyon menos precisa neste momento é de uma crise interna, logo em um momento no qual o time se encontrou em campo e exibe um futebol de bom nível. Classificado com antecedência, de forma tranquila, em um grupo que contém o forte Liverpool (derrotado em pleno Anfield e ferido a ponto de estar à beira da eliminação) deveria deixar o OL mais seguro de suas forças, e não buscando um problema para conturbar o ambiente.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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