No Olympique de Marseille, acabou o bando de ‘loco’

Demissão de Marcelo Bielsa surpreende diretoria, jogadores e torcida, mas treinador estava sem qualquer clima para continuar no Vélodrome

Bastou apenas uma rodada da Ligue 1 para o Olympique de Marseille se ver no meio do inferno. A derrota por 1 a 0 para o Caen em pleno Vélodrome, logo na estreia da equipe no campeonato nacional, foi o último capítulo da conturbada passagem de Marcelo Bielsa no comando da equipe. O treinador, que já não tinha tanta moral com a diretoria, resolveu dar um basta e entregou uma carta de demissão na qual deixou claro seu descontentamento.

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A decisão inesperada de ‘El Loco’ pode soar como mais uma de suas maluquices, mas ela tem um fundo de lógica. “O trabalho em comum exige um mínimo de confiança que eu não tinha com relação aos dirigentes”, detonou Bielsa. Para começar, o argentino não digeriu bem a demissão do belga Jan van Winckel, seu número 2, durante a semana. Outro motivo, porém, teve peso bem maior – e não foi o revés para o Caen.

O cerne da questão está na renovação de contrato proposta a Bielsa. Ao longo dos últimos meses, a diretoria e o treinador discutiram vários itens e chegaram a um acordo. Tanto que o argentino deu várias declarações de que permaneceria no OM e que este era seu maior desejo. A reviravolta se deu quando os dirigentes marselheses resolveram mexer no tal contrato antes de Bielsa assiná-lo. As alterações deixaram o treinador furioso – daí o sentimento de traição que o motivou a pedir o boné.

Ao contrário da última temporada, quando foi ignorado na reformulação do elenco, Bielsa participou das decisões para contratar ou liberar jogadores. Ele até mesmo avalizou o retorno de Dória, zagueiro como qual manteve uma relação pouco amistosa. Vale lembrar que ‘El Loco’ já estava desgastado no clube por conta de seu temperamento explosivo com os jogadores e a forma, digamos, pouco ortodoxa de resolver suas diferenças com atletas importantes da equipe.

A torcida, porém, tratou Bielsa como um ídolo por propor um estilo de jogo ofensivo. Foram 76 gols na última temporada, a melhor marca alcançada pelo OM em 25 anos. Durante os 14 meses nos quais permaneceu no clube, o treinador obteve uma popularidade das mais altas dos últimos tempos. Se os torcedores gritavam a plenos pulmões ‘Bielsa, no se va’, eles quiseram (e conseguiram) a cabeça de Didier Deschamps, capitão do título da Liga dos Campeões em 1993 e campeão francês em 2010, já como técnico.

Bielsa ganhou o coração dos torcedores e, de certa forma, deixou o OM em evidência na mídia por suas declarações e métodos de trabalho polêmicos. Os números dele à frente da equipe são mais cruéis. Em 41 partidas sob as ordens de ‘El Loco’, o Olympique de Marseille obteve 21 vitórias, 7 empates e 13 derrotas. Foi eliminado de forma prematura da Copa da Liga (para o Rennes) e da Copa da França (para o Grenoble, nos pênaltis).

Quando assumiu, Bielsa pegou um OM abalado pela decepcionante campanha em 2013/14 (6º na Ligue 1 e último colocado em seu grupo na Liga dos Campeões com seis derrotas). Com um elenco pouco modificado, o argentino até conseguiu maior espírito combativo e valorização da posse de bola e toques rápidos. Só que tudo ruiu quando o OM perdeu o clássico para o Paris Saint-Germain. O 3 a 2 no Vélodrome foi o ponto da virada.

O grande desgaste físico da equipe foi determinante para a queda de produção vista na segunda metade da temporada. Quando as derrotas se tornaram mais constantes, entrou de forma negativa o temperamento explosivo de Bielsa, que logo bateu de frente com os líderes do elenco e da diretoria. O argentino deixa o OM com a sensação de um trabalho inacabado, mas o clube deve respirar ares mais tranqüilos, por mais paradoxal que isso seja.

Confusão no ar

Por falar em clima pesado, a situação está cada vez mais quente nos bastidores do futebol francês. A polêmica em torno do acesso e do rebaixamento de apenas duas equipes entre a Ligue 1 e a Ligue 2 teve mais desdobramentos e promete pegar fogo. Agora, 19 clubes da primeira divisão decidiram criar um sindicato próprio, em um rompimento com a União de Clubes Profissionais de Futebol (UCPF).

A mudança nesta regra do acesso/rebaixamento só tende a aumentar o já quase abissal abismo entre os clubes da elite e os menores. E as 19 equipes da Ligue 1 (o único que não aderiu foi o Guingamp, ligado a Noël Le Graet, presidente da Federação Francesa) que decidiram pelo rompimento com a UCPF justificam sua decisão tendo em vista seus interesses, obviamente, mas também com o intuito de fortalecer a Ligue 2.

Parece estranho pensar desta forma, mas faz sentido. Os interesses de um PSG, Lyon ou Olympique de Marselha são bem distantes da realidade vivida por Laval, Ajaccio ou Le Havre. Reunidos em um grupo próprio, os dirigentes dos clubes da Ligue 1 acreditam ter maiores condições e força política de reivindicar mudanças adequadas ao seu mundo. Já os times menores também teriam mais facilidade para lidar dentro do seu universo.

Mas aí reside um paradoxo. Esta separação entre primeira divisão e o resto, por si só, já é excludente e serve como um ‘seu lugar não é conosco’ dirigido aos times de menor força. Para complicar ainda mais, dentro da Ligue 1 existem situações extremamente conflitantes mesmo com esta cisão. Ou alguém acredita que o PSG vai brigar pelos interesses do GFC Ajaccio? Há um grande risco de se tornar um clube ainda mais restrito, voltado quase que única e exclusivamente para os grandes.