Nantes: Canários no boné

Mal a Ligue 1 começou e o Nantes já trocou de treinador. Michel Der Zakarian, de tensas relações com Waldemar Kiita, presidente do clube, cedeu seu lugar para Elie Baup, ex-Toulouse. A primeira opção dos Canários era Alain Pérrin, mas o ex-técnico do Lyon achou melhor não aceitar a proposta. A se julgar pelo temperamento do dirigente do FCN, uma decisão racional.
Kita demonstrou ser um tanto quanto imediatista, sem medir as conseqüências de seus atos a longo prazo. Embora sua relação com Der Zakarian estivesse longe de ser um mar de rosas, o treinador estava em alta no clube após conduzi-lo de volta à primeira divisão. O presidente esperou o técnico montar o elenco para a temporada 2008/09, indicar a contratação de reforços, fazer a pré-temporada e disputar apenas poucos jogos na Ligue 1 para lhe cortar a cabeça. Antes do planejamento a longo prazo, veio seu lado impulsivo. Se era para tomar uma atitude assim, que ela tomasse corpo logo após o fim da Ligue 2. Seria melhor para todo mundo.
Agora, Baup chega em um grupo abalado pela mudança repentina e pressionado para a obtenção de resultados em curto prazo. Para o treinador, a bomba tem alto poder de destruição: além das dificuldades inerentes pela situação em si, ele ainda tem que lidar com um grupo de jogadores com os quais não indicou, nem trabalhou durante um período mínimo. Com a janela de transferências fechada, a possibilidade de ajustes bateu em seu rosto.
Ao menos, o homem do boné contou com a parada para a disputa dos jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo-2010 para realizar um trabalho intensivo. Não é a mesma coisa do que uma pré-temporada bem feita, mas já servirá para Baup e o grupo de atletas se apresentarem um ao outro. Em quatro rodadas, os Canários ainda não sabem o que é vencer e ocupam a lanterna do campeonato. Um quadro delicado para quem desejava nunca mais viver de novo o pesadelo de disputar a Ligue 2.
A intenção de permanecer na elite francesa começou muito mal para o Nantes. O início da queda se deu exatamente pela instabilidade demonstrada fora das quatro linhas. Kita parece ter se esquecido disso e se preocupa em repetir a mesma receita do fracasso. Baup pode nem mesmo ter a chance de cumprir a metade dos dois anos de seu contrato com os Canários. Sua experiência no Bordeaux, Saint-Etienne e Toulouse contrasta com a vontade do presidente ter seus desejos realizados na hora, e isto certamente complicará o trabalho do técnico.
Desde o fim dos anos 80, o Nantes não era treinado por alguém que nunca defendeu as cores do clube quando foi jogador ou então já havia passado pelo banco de reservas para orientar a equipe. Baup quebra esta escrita, mas precisa contornar diversos problemas se quiser ser bem-sucedido. De cara, as tais contratações de peso do clube (como Klasnic, Gravgaard e Douglão) dão sinais de que não foram um negócio tão bom assim. Muito suor escorrerá por seu rosto, mas ele espera não ter que pegar seu boné tão cedo.
Olímpicos no topo
Em seu segundo dérbi seguido, o Lyon saiu de campo vitorioso mais uma vez. Depois de derrotar o Grenoble por 2 a 0 em casa, desta vez o OL fez o escalpo do Saint-Etienne em pleno Geoffroy-Guichard. Desde 1994, os lioneses não perdem para o ‘vizinho’ no caldeirão do adversário. Além da manutenção no topo da tabela durante a pausa para as Eliminatórias-2010, a equipe mostra um futebol vistoso, diferente da burocracia exibida em boa parte da temporada passada.
O Lyon voltou a usar sua velha, mas eficiente, tática de sufocar o inimigo nos 20 primeiros minutos de jogo. Muito desta força ofensiva se deve ao bom desempenho de Éderson, cada vez melhor entrosado com Benzema. Os dois tramaram boas jogadas, com direito a um passe de calcanhar do brasileiro para uma finalização perigosa do francês – isso sem contar a assistência para o gol do atacante no começo do segundo tempo.
Este rápido entendimento entre Éderson e Benzema tem feito estragos nas defesas rivais, mas o Lyon se destaca também lá atrás. Lloris ainda não se deu ao trabalho de buscar a bola em suas redes uma única ocasião sequer. O OL pode se dar ao luxo de ostentar uma muralha mesmo sem contar com Cris, que ficou no banco contra os Verdes, e Mensah, machucado. Improvisado no miolo de zaga com Boumsong, Bodmer se adaptou muito bem ao posto, com um senso de posicionamento adequado e a agilidade suficiente para desarmes precisos.
Até Källström, deslocado para a lateral-esquerda no lugar de Grosso, suspenso, não se saiu tão mal, embora tenha falhado na cobertura defensiva. O estilo de trabalho de Claude Puel, no qual mais vale a força do grupo, unido em torno de um ideal, do que brilhos individuais, começa a dar seus frutos.
O Olympique de Marselha divide a ponta da tabela com o Lyon após viver estressante maratona. Em 21 dias, o time jogou seis vezes, sendo dois jogos pela fase preliminar da Liga dos Campeões contra o Brann. Cansaço à parte, os marselheses cumpriram seus esforços com louvor, embora tenham passado por alguns sufocos – algo natural para quem enfrenta tantas partidas em um intervalo tão curto e logo no início da temporada.
O técnico Eric Gerets certamente tem motivos para sorrir por conta das opções para montar sua equipe. Para enfrentar o Sochaux, por exemplo, ele deu um descanso para Ben Arfa e Cana. Ziani se esforçou para articular o meio-campo, mas a dupla de zaga formada por Hilton e Erbate trabalhou para valer. Ambos sentiram dificuldades em lidar com Erding, melhor jogador dos Leões. Em alguns momentos, o Sochaux esteve com a bola nos pés por cerca de 2/3 da partida, mas sem criar grandes chances. Mais méritos da defesa marselhesa do que defeitos da equipe.
Quem tem segurado a bronca mesmo é Mandanda. O goleiro está em nítida evolução e mais uma vez salvou o Olympique, desta vez com uma defesa milagrosa em uma conclusão de Erding já nos acréscimos. O aprendizado de 07/08, quando entrou meio na fogueira para substituir o lesionado Carrasso, trouxe a ele o amadurecimento necessário para lhe dar maior segurança. Reflexos rápidos, um pouco de sorte e sangue frio; o goleiro está no caminho certo para se tornar figurinha fácil nas listas de convocados de Raymond Domenech.


