França

Muitas semelhanças; desfecho diferente

O Stade de France estava com um cheiro de Parc des Princes durante a partida contra a Bósnia pelas eliminatórias da Eurocopa-2012. Os franceses jamais se esquecerão daquele França e Bulgária de 1993, quando bastava um empate para a equipe se classificar para a Copa do Mundo de 1994. Laurent Blanc estava em campo naquele fatídico 17 de novembro, quando os búlgaros sepultaram as esperanças dos Bleus com uma vitória por 2 a 1. O ex-jogador se tornou treinador e por pouco não amargou um fiasco tão retumbante quanto aquele ocorrido há quase 18 anos.

O empate por 1 a 1 com a Bósnia em casa, graças a um pênalti bastante contestado, guarda muitas semelhanças com o clima vivido em 1993. Há 18 anos, os comandados de Gérard Houllier tinham duas partidas em casa (Israel e Bulgária) para decidir sua classificação para a Copa de 1994. A equipe treinada por Blanc também teve dois jogos diante de sua torcida para definir sua ida à Euro 2012 (Albânia e Bósnia).

A “Era Houllier” começou com tropeços, com derrotas em um amistoso e diante da Bulgária, em seu primeiro jogo oficial. Em seguida, a equipe engrenou e conquistou uma série de bons resultados antes do grande fracasso. Blanc também teve um início parecido: viu a seleção perder para a Noruega em um amistoso e sofreu uma derrota surpreendente para Belarus na abertura das eliminatórias da Euro de 2012.

O desfecho, porém, foi bem diferente e Blanc, de certa forma, livrou-se do fantasma de Emil Kostadinov – o búlgaro que destruiu os sonhos franceses em 93. Só que os Bleus reviveram outro episódio que causou muita controvérsia: a classificação para a Copa de 2010, na repescagem, diante da Irlanda. Se os irlandeses reclamam até hoje de Thierry Henry e sua “mão de Deus”, os bósnios podem se queixar – e muito – do pênalti que selou os rumos do jogo no Stade de France.

A França até começou com o domínio territorial, mas aos poucos cedeu ao jogo mais compacto da Bósnia. A defesa azul, que voltou a demonstrar sinais de fragilidade, resistiu apenas 40 minutos, quando Dzeko abriu o placar. O público presente ao Stade de France não reagia, em um retrato fiel do estado de espírito da equipe dentro de campo. Para o segundo tempo, Blanc ajustou o time para o esquema 4-4-2 que havia dado tão certo no triunfo contra os albaneses.

Com Kevin Gameiro e Marvin Martin, enfim os franceses tiveram mais opções ofensivas. A evolução foi nítida. Se no primeiro tempo os Bleus levaram perigo apenas uma vez com Rémy, as chances apareciam cada vez mais na etapa final. O pênalti convertido por Nasri foi um golpe para os bósnios, incapazes de buscar forças para tentar a classificação direta para a Euro de 2012.

Foi o mínimo necessário, mas a seleção francesa ainda dá sinais de que precisa corrigir muitos pontos se quiser fazer um bom papel na Ucrânia/Polônia. A instabilidade defensiva parece ser a principal dor de cabeça para Blanc. Por outro lado, o treinador tem a impressão nítida que o 4-4-2 desponta como o esquema tático mais adequado para a equipe exibir um estilo de jogo mais equilibrado e que realmente incomode o adversário. O técnico agora precisa trabalhar para que outra semelhança não marque sua gestão; para isso, nada de complôs e do clima instável alimentado por Raymond Domenech e que culminou com o vexame de Knysna no último Mundial.

Uma velha novidade

Contra a Albânia, a França entrou em campo com um sistema ao qual está se acostumando aos poucos. Blanc optou por um 4-4-2, do qual era adepto em seus tempos de Bordeaux. O sistema teve uma maior aceitação do que o anterior, um 4-2-3-1 que teimava em não encaixar. A vitória por 3 a 0 sobre os albaneses, que não são adversários dos mais temidos, serviu para o treinador e os jogadores ganharem mais confiança para a partida decisiva contra a Bósnia.

Uma das principais críticas aos Bleus nos últimos tempos era sua falta de imaginação ofensiva. O novo sistema fez com que os franceses se desdobrassem no meio-campo, mas as chances de gol se multiplicaram. Independentemente da fragilidade da Albânia, a França exibiu um futebol mais consistente e de maior peso no ataque, com apoio mais forte tanto dos seus atacantes como dos meias de criação.

Muito do sucesso do 4-4-2 diante da Albânia se deveu à boa atuação de Loïc Rémy. O atacante do Olympique de Marselha demonstrou fôlego e teve pernas suficientes para dar profundidade ao ataque azul. Cabe lembrar que os Bleus teimavam em se amontoar no meio-campo, geralmente com avanços tímidos até a intermediária. Rémy soube explorar muito bem os espaços deixados pela defesa albanesa e deu alternativas de ataque aos seus companheiros de equipe.

Muitos desses buracos foram semeados por Samir Nasri. O meia do Manchester City respondeu às expectativas sobre seus ombros quanto à organização da equipe. para se ter uma ideia de como foi sua participação no triunfo por 3 a 0, ele deu nada menos do que 116 passes certos. Em todos os seus jogos com a camisa dos Bleus, ele havia conseguido, no máximo, 69 toques corretos em um mesmo jogo.

Além de concentrar os esforços criativos da equipe, Nasri teve a visão de jogo necessária para abrir as jogadas quando necessário. Caindo mais pelo lado direito, ele também teve boa movimentação. O meia não hesitou em atuar mais centralizado em algumas oportunidades, liberando espaços para as entradas de Mathieu Debuchy e Rémy pelos flancos. Para completar, Nasri soube alternar muito bem o ritmo da partida, ora priorizando passes longos, ora toques rápidos.

Por falar em Debuchy, ele foi uma alternativa interessante para aparecer no ataque. Chamado de última hora para suprir a ausência de Sagna, ele não decepcionou: em seu primeiro jogo como titular dos Bleus, a camisa não pesou sobre seus ombros. Debuchy tomou conta de seu lado, mostrou-se eficiente no plano defensivo e até arriscou alguns chutes a gol. Nada mal para quem chegou às pressas; ele demonstrou que não é mais um simples reserva.

No Stade de France, a vitória sobre a Albânia foi construída de forma tranquila. Mesmo com uma equipe devastada por uma onda de lesões, os Bleus conseguiram se virar muito bem e ganharam importante dose de confiança para enfrentar a Bósnia. Como se verificou no fim das contas, este estado de espírito teve importância fundamental para os franceses arrancarem o empate e se classificarem para a Eurocopa de 2012.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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