França

Mounier durou três dias no Saint-Étienne, antes de ser enxotado pela própria torcida

Na sexta-feira, o Saint-Étienne apresentou Anthony Mounier. Emprestado pelo Bologna até o final da temporada, com opção de compra por €2 milhões, o ponta era desejo antigo do clube. Vestiu a camisa com gosto e prometeu se dedicar na nova etapa da carreira. Durante o final de semana, o novato já viajou com o time para Toulouse, onde sua equipe derrotou o time da casa por 3 a 0. Das arquibancadas, o jogador de 29 anos aplaudiu os seus novos companheiros. Já na segunda, deixou Saint-Étienne. Voltou à Itália, assinando com a Atalanta nesta terça, no último dia da janela de transferências.

A trajetória-relâmpago de Mounier parece obra de um conto de ficção. Mas, acredite, o contexto consegue ser ainda mais escabroso. O atacante foi “expulso” pelos próprios torcedores do Saint-Étienne. Desde a última semana, quando a possibilidade de acertar com o jogador começou a se tornar concreta, os protestos aconteceram em diferentes pontos da cidade. A corrente contrária se intensificou com a apresentação e também marcou presença em Toulouse. Só que a situação ficou insustentável. O novato chegou mesmo a receber ameaças de morte em suas redes sociais e por telefone. Na volta de sua primeira viagem com o elenco, preferiu pegar um voo separado, por segurança. A mudança repentina à Bérgamo se torna completamente compreensível.

Nascido em Aubenas, na própria região de Auvergne-Rhône-Alpes (onde fica Saint-Étienne), Mounier iniciou sua carreira no outro lado da grande rivalidade local. O garoto chegou ao Lyon quando tinha 12 anos e se profissionalizou nos Gones, defendendo a equipe principal por duas temporadas. No entanto, independentemente da animosidade ferrenha existente entre os dois clubes, o simples fato de ter vestido a camisa dos oponentes não seria impeditivo. Ao longo da história, 41 jogadores “viraram a casa” em Rhône-Alpes, sem que ninguém recebesse uma represália dessas. O pior aconteceu depois, quando o atacante já havia deixado Gerland.

Em 2012, quando defendia o Nice, Mounier não escondeu sua paixão de infância. Em pleno Estádio Geoffroy-Guichard, após gol da vitória marcado por um companheiro no último minuto, ele comemorou gritando que os verdes haviam “se ferrado”. Não parou por aí. No ano seguinte, quase se transferiu ao Saint-Étienne. Quando estava tudo certo, o clube declinou e fechou com Franck Tabanou. À mídia local, o atacante falou que “era até melhor assim, porque continuava torcendo pelo Lyon e não seria mal recebido em seu time de coração”. Já em 2015, atuando pelo Montpellier, ele declarou ao jornal Midi Libre: “O Saint-Étienne é um clube que eu particularmente não gosto, desde criança. Comecei cedo no Lyon e logo aprendi que era proibido perder para eles”.

Na apresentação ao Saint-Étienne nesta sexta, Mounier tratou de jogar panos quentes na conversa. Disse que eram águas passadas: “Estou pronto para me explicar diante dos torcedores, para que tenhamos um bom começo. Eu cometi erros na minha juventude. Pedi ao presidente a possibilidade de encontrá-los”. A conversa não colou, assim como as fotos (na maior cara de pau) apontando para o escudo e estendendo um cachecol ‘por amor dos verdes’. No mesmo dia, uma faixa foi colocada em frente ao CT dos verdes: “Nossas cores nunca serão as suas”. Já no duelo com o Toulouse, mais insultos, além das ameaças.

A sorte de Mounier é que ele ainda não havia sido inscrito oficialmente no elenco do Saint-Étienne, em processo que seria feito no início desta semana. Caso isso acontecesse, ele não poderia assinar com um terceiro clube na mesma temporada. Assim, com o caminho livre, os franceses acertaram o retorno do jogador ao Bologna, logo repassado para a Atalanta. Terá seis meses para refazer a carreira em Bérgamo e tentar esquecer os dias traumáticos em Saint-Étienne. Agora, já sabe que não deve passar perto do Estádio Geoffrey-Guichard tão cedo. Obviamente, nada justifica as ameaças que o atleta recebeu. Mas faltou um pouco de noção da realidade, ainda mais por tudo o que ele já falara e fizera no passado.

mounier

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo