França

Meu nome é Eric

Nunca diga que Eric Cantona está sossegado ou sumido faz tempo. Uma das personalidades mais marcantes da história do futebol francês, o ex-jogador aprontou mais uma das suas e agitou o país com uma polêmica. Afinal, deu o que falar a carta publicada por alguns jornais e redigida por Cantona, de teor enigmático e que sugeria uma possível candidatura dele à presidência da França. Mais tarde, as especulações terminariam com um certo ar de frustração, mas com a prova de como o ex-atleta ainda é capaz de promover uma grande mobilização.

A tal carta foi encaminhada para prefeitos de todo o país. O intuito era o de recolher pelo menos 500 assinaturas de apoio à “causa misteriosa” levantada por Cantona. O pedido causou alvoroço; afinal, a França se prepara para as eleições presidenciais, em maio. Para alguém se lançar como candidato, precisa do apoio… de pelo menos 500 prefeitos.

Em questão de poucas horas, o debate em torno da possível candidatura de Cantona se espalhou. Trechos da carta reforçavam os boatos: “Desejo trazer uma mensagem simples, mas clara, (…) esperada por nosso país e pelos milhões de pessoas das quais nos esquecemos dos sofrimentos cotidianos”. Parecia discurso de um verdadeiro candidato em busca de votos. Não era.

Cantona esclareceu que desejava mesmo era chamar a atenção para outra coisa. O ex-jogador queria conseguir o apoio do maior número possível de pessoas para a Fundação Abbé Pierre, uma respeitável entidade que ajuda pessoas sem moradia. Tudo não passou de um jogo de cena, aproveitando a veia artística já demonstrada pelo ex-jogador, que já se arriscou como ator nas telonas.

Muitos políticos criticaram a atitude de Cantona, mas nada abala a figura do ídolo. O ex-jogador conseguiu chamar a atenção de uma grande parcela da população para uma causa nobre. Além disso, jamais afirmou com todas as letras “preciso deste apoio para lançar minha candidatura à presidência da França”. Foi mais uma jogada de mestre de quem se especializou em ser o centro das atenções.

O que vale mais: o maluco que não tem pudores de dizer que seu melhor momento da carreira foi uma voadora em um torcedor e pede aos franceses para tirar todo seu dinheiro dos bancos, em protesto contra o sistema financeiro, ou alguém com discurso ensaiado, ensaboado, prolixo? Prefiro bem mais o primeiro.

Casa nova?

Leonardo mandou o recado: o Parc des Princes era um estádio “velho e inadequado” para as necessidades do futebol atual. As declarações do diretor esportivo do Paris Saint-Germain causaram grande alvoroço e soaram quase como uma heresia. Para quem achou tais críticas como um excesso do brasileiro, os planos dos novos donos do clube da capital caminham mesmo para uma mudança.

Na quarta-feira (11), Bertrand Delanoë, prefeito de Paris, tratou de lembrar da estreita ligação do estádio com o PSG, em evento promovido pelo clube. Ele não quer perder seu tradicional hóspede, ainda mais com os planos para o Parc des Princes a médio prazo. Cabe lembrar que o local passará por reformas entre 2013 e 2015 – tudo para estar completamente renovado para a disputa da Eurocopa-2016.

Sem querer, é aí que mora o perigo. Durante este período, o PSG se mudará para o Stade de France, na vizinha Saint-Denis. Um deslocamento cujas chances de se tornar definitivo se tornam maiores a cada dia. Há rumores de que o Qatar Sports Investment (QSI) estaria interessado em entrar no capital do consórcio que administra o Stade de France. Embora os qatarianos desmintam tal possibilidade, nada impede de acreditar na completa instalação de um inquilino que promete trazer visibilidade e, enfim, dar uso constante para a bela arena.

Não se pode esconder que o Stade de France se tornou uma espécie de elefante branco. Apenas alguns jogos de rúgbi e outros da seleção francesa movimentam a arena, subutilizada e que significa um gasto de € 15 milhões anuais ao Governo, pagos ao consórcio. Portanto, também há um forte interesse político para que tamanho investimento realmente seja compensado, com um clube como ocupante definitivo e que cessaria a sensação de cifrões escorrendo pelo ralo.

Outro fator contribui para o Parc des Princes não ser o estádio dos sonhos para o QSI. Com capacidade para 47,5 mil pessoas, o local estaria longe de atender os sonhos qatarianos de transformar o PSG em clube continental. Seria uma casa modesta demais para quem pretende se tornar uma das estrelas europeias em pouco tempo. Seria, no mínimo, discutível a “equipe do futuro do futebol francês” atuar em um lugar com lotação menor do que o das futuras arenas de Lyon e Marselha (55 mil e 62,5 mil pessoas, respectivamente).

O PSG se espelha nas equipes de primeira linha do continente (Barcelona, Real Madrid e Manchester United), cujos estádios abrigam um número muito grande de torcedores. Como uma forma de pressão, o clube da capital francesa cogita mandar o clássico contra o Olympique de Marselha, em 8 de abril, no Stade de France, de acordo com o jornal Le Parisien. Seria uma forma de mostrar o potencial do time à prefeitura de Paris – isso se a arena ficar lotada.

Já começa a circular a possibilidade de demolir o Parc des Princes e construir um estádio com capacidade para até 70 mil pessoas. Trata-se de um plano complicado, tanto pelas questões logísticas como de engenharia. Fatalmente, o calendário das obras seria muito apertado; bastaria um pequeno atraso para todo o plano ruir e Paris correr grande risco de não receber jogos da Eurocopa-2016.

A prefeitura de Paris encontra-se contra a parede. Caso perca o PSG para o Stade de France, será obrigada a recorrer ao Paris FC, hoje na terceira divisão nacional, para ocupar o Parc des Princes e evitar que o estádio se torne um amontoado de concreto sem uso. Se quiser manter o atual inquilino, o órgão precisa encontrar maneiras de agradá-lo e acalmá-lo, mas com risco de gerar desconforto com a população.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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