França

Mbappé se tornou um problema para o PSG e Al-Khelaifi é um dos culpados

Estrela do clube, Mbappé se sente traído por promessas descumpridas, uma consequência do poder incompatível com um jogador que recebeu do presidente Nasser Al-Khelaifi na renovação de contrato

Nos últimos anos, nos acostumamos a ver muita fricção no relacionamento da principal estrela do PSG com a diretoria do clube. Só que este era Neymar. Desde que deixou o Barcelona, em 2017, foram diversos episódios que levaram o brasileiro e o PSG ao conflito, incluindo pedido público para deixar o clube. A história se repete: em 2022, a maior estrela do PSG entra em conflito com o clube. Só que agora a maior estrela do PSG não é mais Neymar, é Mbappé. Cinco meses após os sorrisos da renovação, Mbappé se sente traído pela direção do clube.

Kylian Mbappé era o grande nome do mercado até o fim da temporada passada, porque seu contrato com o PSG estava no fim e ele poderia escolher para onde ir. O Real Madrid era o destino mais provável e houve de fato conversas, mas, no fim, o atacante decidiu renovar com os parisienses por três anos. Cinco meses depois, o caldo parece ter entornado e surgem notícias que o jogador manifesta insatisfação e quer deixar o clube.

Inicialmente, os relatos sobre esse desejo de saída de Mbappé surgiram no Marca, um jornal espanhol que sabemos que exagera em manchetes, especialmente se há interesse do Real Madrid envolvido. Até por isso, não chamou muito a atenção. Só que os relatos começaram a surgir em outros lugares, com apurações próprias: Le Parisien e RMC, na França; ESPN, Guardian e Sky Sports, no Reino Unido. A situação parece ter sido construída: quando tantos veículos trazem a mesma informação, há alguém com interesse que essa informação se torne pública.

Fontes ouvidas pelas reportagens de ESPN e Sky Sports dizem que Mbappé está insatisfeito e pensa em sair do PSG “toda semana”. Por isso que a janela de janeiro foi citada. Ainda segundo as fontes, ele está disposto a negociar com outros clubes, mas sua preferência é o Real Madrid. Só que o seu contrato o vincula ao PSG ao menos até 2024. Seria preciso negociar um valor que o clube aceitasse, o que se mostrou muito difícil anteriormente. No PSG, o discurso é que essa insatisfação será contornada e que se espera que o jogador e os dirigentes se alinhem. Não há nenhuma intenção de negociá-lo.

Mbappé se sente traído pela direção do clube. Está insatisfeito com promessas não cumpridas pela direção, que prometeu muita coisa para ele continuar. Ao renovar o seu contrato por três anos (que depois se revelou serem dois anos com opção de um terceiro que o próprio jogador pode abrir mão se quiser), uma das promessas era que o clube agiria no mercado de transferências para equilibrar o elenco e resolver alguns problemas.

Aqui precisamos falar sobre esse poder exagerado que o PSG parece ter dado a Mbappé para definir os rumos do clube. Ou, ao menos, para exigir mudanças. É normal que os craques do time tenham alguma influência, claro, mas a impressão é que o PSG deu a chave do clube nas mãos de Mbappé. Tanto poder nas mãos de um jogador – ou ao menos a capacidade de influenciar, com a anuência da direção – não é nada saudável. E a situação atual já é uma consequência disso.

Quando falamos do mercado de transferências e a estratégia adotada pelo clube, esta seria a primeira promessa descumprida e que deixa o jogador insatisfeito. Só que o time falhou em conseguir um zagueiro, após tentar, sem sucesso, contratar Milan Skriniar, da Internazionale, e não conseguiu um camisa 9, como era o plano. Isso despertou outro problema: o posicionamento de Mbappé em campo.

O jogador reclamou recentemente, na data Fifa, sobre como precisava atuar no clube, segundo ele, com menos liberdade, já que atuava como uma espécie de centroavante. Para atuar com Neymar e Messi, ele teria que fazer uma função de pivô que se sente pouco confortável em fazer.

“O que eles pedem para mim aqui é diferente. Aqui eu tenho muito mais liberdade que no PSG. O técnico sabe que tem um 9, como [Olivier] Giroud, então posso me movimentar no espaço. Em Paris é diferente, eles me pedem para fazer o pivô, ainda que eu goste de jogar em qualquer lugar”, afirmou o jogador em setembro, quando estava na seleção francesa.

Para quem assiste o PSG jogando, é fácil perceber que essa fala de Mbappé não faz muito sentido. É verdade que na seleção francesa ele joga com Karim Benzema ou Olivier Giroud no ataque, mas o seu posicionamento no PSG passa longe de ser um camisa 9 que faz pivô.

Consultando o seu mapa de calor, isso fica ainda mais claro: tanto na seleção quanto no PSG, ele se movimenta bastante pelo campo e por vezes avança em velocidade pelo corredor esquerdo, que é o seu preferido. Passa longe de ter uma função de pivô, como ele argumentou. Os mapas são muito parecidos.

O mapa de calor de Mbappé nos jogos da Ligue 1, pelo PSG (Fonte: SofaScore)
O mapa de calor de Mbappé nos jogos da Liga das Nações, pela seleção francesa (Fonte: SofaScore)

Havia a expectativa que o PSG contratasse um centroavante de peso para o seu ataque e se livrasse de Neymar. Era essa a expectativa de Mbappé, ao menos, pelas conversas que teve com o clube. Nada disso aconteceu. O PSG procurou um novo clube para Neymar e estava aberto a propostas, mas não houve interesse no jogador por causa do seu altíssimo salário com o clube parisiense, mais até do que um possível valor de venda, que poderia ser negociado.

Além de Neymar ter ficado, não chegou um centroavante, como era esperado. Robert Lewandowski era o nome mais falado, mas ele acabou no Barcelona. Não chegou nenhum outro nome de peso para o ataque e o trio que forma o setor em campo é composto por três jogadores que não atuam como camisa 9. Mbappé já admitiu que a relação com Neymar tem “altos e baixos” e a sensação é que está mais em baixa do que em alta ultimamente.

Mbappé também não era conhecido por episódios de estrelismo. Desde que surgiu na base do Monaco, era visto como um jogador humilde e maduro, ainda mais sendo tão jovem. Suas declarações sempre bastante sóbrias indicavam isso. Só que isso mudou desde a renovação em maio.

Mbappé foi tratado como o centro do projeto do PSG. Afinal, é um jogador francês e até o presidente da França, Emanuel Macron, pediu para que ele continuasse no Paris. Com a situação absolutamente favorável na negociação, Mbappé passou a ser o maior salário do PSG e ganhou todos os agrados que o clube podia oferecer. Segundo a revista Forbes, Mbappé receberá US$ 128 milhões para a temporada 2022/23. Foi a primeira vez que um jogador de futebol desbancou Lionel Messi e Cristiano Ronaldo na lista em oito anos.

Tudo isso parece ter subido à cabeça de Mbappé. Ele passou a agir de forma diferente, inclusive dentro de campo. Ficou famoso um vídeo que o atacante abandona o lance depois de pedir a bola e não receber. Ele vira de costas para a bola, o lance continua e a bola passa sem ter ninguém para tocar nela – se ele tivesse seguido a jogada, possivelmente estaria ali para marcar o gol.

As reclamações constantes também passaram a ser presentes. Especialmente porque com o novo técnico, Christophe Galtier, e com Neymar e Messi no time, Mbappé não tem rendido o mesmo que na temporada passada. Continua jogando bem, fazendo gols, mas deixou de ser o principal jogador do time, algo que tem se alternado entre Neymar e Messi.

Mbappé parece ter uma sede de protagonismo que não aceita deixar de ter um papel de líder técnico e destaque do time, ainda que ele continue como um grande destaque. Não parece bastar ser um destaque, o francês parece querer ser o principal destaque. Menos do que isso parece pouco para ele.

É curioso que Neymar tenha sido um problema para o PSG em termos de comportamento e mesmo de relacionamento com a diretoria durante algum tempo, mas justamente quando o brasileiro parece estar muito bem, tanto fisicamente quanto em comportamento, Mbappé assumiu esse estrelismo que muitas vezes foi atribuído brasileiro. Mbappé, tal qual Neymar antes, segue brilhando em campo, mesmo que em intensidade menor que na temporada. Mbappé segue sendo um craque em campo, mas o comportamento fora se tornou um problema para o PSG. E um problema que o próprio PSG ajudou a criar, como falamos abaixo.

O papel de Al-Khelaifi na crise

O L’Equipe, diário esportivo dos mais respeitados na França, conta algo que é importante para entender o problema. O jornal publicou na terça que Nasser Al-Khelaifi tinha um problema com o diretor esportivo Luís Campos, com quem teve um atrito em 2019. Embora Campos fosse um nome que agradasse Mbappé, Al-Khelaifi era reticente e só decidiu contratá-lo por uma ordem direta do Catar.

Em 2019, em um jogo entre Lille x PSG, Al-Khelaifi foi reclamar com o árbitro e Luis Campos, que estava presente, respondeu: “Aqui não é o Catar”. A resposta do então dirigente do Lille irritou Al-Khelaifi e os dois passaram a discutir, com o catari gritando “Quem é você?”. Há ainda outro episódio: em 2021, Luis Campos participou da negociação que tiraria Mbappé do PSG para levá-lo ao Real Madrid. Mais um fato que irritou Al-Khelaifi.  

Luis Campos não quis participar diretamente do mercado e, assim, o presidente do PSG fez um movimento que é bastante problemático: colocou Antero Henrique de volta no clube, responsável por mergulhar no mercado e tratar de compras e vendas. Al-Khelaifi sabia que isso atiçaria uma rivalidade entre os dois, que passam longe de ter uma boa relação.

Ainda há um fato pior: Antero Henrique já tinha sido diretor esportivo no PSG e saiu sob muitas críticas pelo trabalho que fez no clube. Com isso, Al-Khelaifi atendeu aos pedidos dos chefes do Catar para contratar Luis Campos, mas ao mesmo tempo colocou alguém para rivalizar com ele e, assim, minar o seu trabalho. É difícil não ligar esse fato ao mercado insatisfatório feito pelo PSG, que conseguiu algumas contratações, mas não fechou com jogadores das posições-chave que precisava.

Luis Campos é muito ligado a Mbappé, com quem tem contato próximo desde que o atacante tinha 14 anos. Caso Mbappé saia, é muito provável que Luis Campos também deixe o clube, já que há esse conflito com o presidente do PSG.

Seja como for, o PSG tem mais um problema para resolver. Um problema que em parte a própria direção do clube criou pensando mais em contratar estrelas e em fomentar egos e vaidades do que ter um projeto esportivo. Assim como foi com Neymar antes, o PSG precisará resolver essa questão e não parece que será fácil desatar esse nó. Especialmente quando o presidente do clube é alguém como Nasser Al-Khelaifi, que tem se mostrado um gestor pouquíssimo competente. Aliás, talvez mais esse episódio mostre que esse discurso sobre gestão eficiente não passa disso mesmo, um discurso. Que o projeto do PSG é mesmo despejar dinheiro e torcer para dar certo.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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