Marinheiro só

A França vinha de seis vitórias consecutivas e esperava manter sua série de triunfos diante da Croácia no Stade de France, na estreia de seu uniforme de “marinheiro”. O empate sem gols deixou um gosto de frustração na torcida, que ainda não perdoou Franck Ribéry pelos acontecimentos de Knysna. O resultado deixou uma certeza para o técnico Laurent Blanc: o trabalho de reconstrução da equipe ainda não está concluído, embora siga um caminho adequado. No entanto, algumas soluções para velhos problemas começam a aparecer diante dos olhos do treinador.
Blanc cumpriu aquilo que havia prometido antes da partida e promoveu uma série de mudanças com relação ao time que havia batido Luxemburgo por 2 a 0. Assim, Réveillère, Clichy, Ménez, Diarra e Matuidi ganharam oportunidades entre os onze. Um sinal claro de que a concorrência está aberta. No entanto, as dificuldades para furar o bloqueio croata logo apareceram.
Aí está o grande desafio de Blanc: encontrar a melhor maneira de fazer o setor ofensivo de sua equipe funcionar de forma eficiente. Quando insiste em escalar Gourcuff, os Bleus perdem qualidade no meio-campo, fruto da fase ruim vivida pelo jogador do Lyon. Samir Nasri, por outro lado, corrige muito bem as falhas de seu companheiro, mas aí os problemas se mudam para a hora de finalizar – como mostraram Karim Benzema e Loïc Rémy.
Em raras ocasiões, os croatas deixaram seu campo de defesa para se aventurar à frente. Hugo Lloris teve muito pouco trabalho, tanto por conta da postura defensiva adotada pelos adversários como pelas atuações destacadas de Alou Diarra e Blaise Matuidi. Reserva contra Luxemburgo, Diarra voltou em grande forma à equipe e formou bela dupla com Matuidi, ambos com precisão nos desarmes.
Para Blanc, o amistoso contra a Croácia serviu para evidenciar algo de vital importância. O treinador está com a solução em suas mãos para o lado direito do ataque dos Bleus. Assim como contra o Brasil, Jérémy Ménez se mostrou uma opção interessante, com bons avanços, jogadas em velocidade e movimentação constante. Titular, ele se mostrou bem mais inspirado do que Ribéry, cuja preferência sempre foi atuar pelo lado esquerdo, apesar de sempre ser escalado onde menos gostar de atuar.
Na comparação entre Ménez e Florent Malouda, titular pela esquerda, o jogador da Roma ganhou com larga vantagem. Em um primeiro tempo marcado mais pela superioridade das defesas, Ménez ao menos buscou o jogo, tentou criar alternativas e se mostrou uma opção mais perigosa do que Malouda, inexistente do outro lado e praticamente escondido em meio aos defensores croatas.
Blanc, ao mexer na equipe, optou por tirar Malouda e Ménez e colocar Ribéry e Rémy, respectivamente. O meia-atacante do Bayern de Munique ganhou pesadas vaias como presente, mas respondeu a elas com uma atuação interessante pelo seu lado preferido. Ele não foi decisivo como em jogos anteriores, mas provou que seu lugar é mesmo pela esquerda. Uma lição que o treinador não deve se esquecer para as próximas partidas.
Os grandes perdedores
Vencer Luxemburgo sempre foi obrigação. Talvez por isso a vitória por 2 a 0 sobre o frágil adversário, mesmo jogando fora de casa, nem deva ter tanta importância assim para os Bleus. Também não é para tanto. Os comandados de Laurent Blanc obtiveram sua sexta vitória consecutiva e seguem tranquilos nas eliminatórias da Eurocopa-2012. Mais do que o triunfo, os franceses celebram a consolidação de seu processo de recuperação pós-Copa.
Esperava-se muito a respeito dos retornos de Franck Ribéry e Patrice Evra, dois dos principais personagens do vexame sul-africano. A volta da dupla aos Bleus era mais do que natural, embora vozes (principalmente da política) tenham bradado como absurda a decisão de Blanc lhes dar uma nova oportunidade. Se eles são os melhores em suas posições e são indispensáveis para a seleção, a pior punição seria privar a França de contar com jogadores de tamanha importância para a equipe.
Contra Luxemburgo, porém, Ribéry e Evra tiveram atuações bastante discretas. O meia-atacante só se mostrou perigoso quando foi para o lado esquerdo do campo, nos 15 minutos finais da partida. Já Yoann Gourcuff… A cada jogo, o meia do Lyon prova que não merece fazer parte do elenco dos Bleus. Tudo bem, ele fez um dos gols da vitória por 2 a 0, mas isso não o redime dos seguidos erros cometidos.
Gourcuff vive má fase técnica há tempos, como mostra sua passagem decepcionante pelo Lyon nesta temporada. Mesmo assim, Blanc confia em sua recuperação, mas ela parece cada vez mais distante. Diante de Luxemburgo, o jogador foi incapaz de se aproximar do ataque, o que comprometeu a atuação de Karim Benzema, muito isolado na frente. Além disso, Gourcuff foi impreciso até mesmo nas bolas paradas, sua especialidade.
Alguns dias antes do jogo, Blanc ressaltou a importância deste tipo de jogada diante de um adversário que entraria em campo disposto a se defender. Enquanto Gourcuff fracassou de forma categórica pela enésima vez, Samir Nasri dá sinais evidentes de que tem um lugar cativo entre os titulares. O meia do Arsenal esteve na origem no gol marcado por Phillipe Mexès, mostrou uma boa movimentação e visão de jogo – algo que seu colega passou bem longe.
Quem também perdeu espaço na seleção francesa foi Gaël Clichy. Após a Copa-2010, o lateral esquerdo do Arsenal viu cair no colo a chance de ser titular dos Bleus. Com o problema de Eric Abidal, operado para a retirada de um tumor no fígado, seria natural esperar que ele ganhasse de evz a posição. No entanto, Clichy anda com prestígio em baixa. Ele viu Evra voltar à seleção após cumprir sua punição e ser escalado por Blanc contra Luxemburgo.
Para piorar, Clichy nem foi relacionado para o banco de reservas. Com uma feroz concorrência em seu setor, o lateral esquerdo tem no amistoso contra a Croácia sua final de Copa do Mundo. Uma boa atuação no Stade de France lhe garante uma vaga com Blanc. Do contrário, ele deve se contentar em torcer pelos companheiros pela televisão.
Saída melancólica
Brandão está de volta ao Brasil. O atacante deixou o Olympique de Marselha e foi para o Cruzeiro, no qual ficará até o fim do ano por empréstimo. O clube mineiro terá a opção de contratá-lo em definitivo por € 4 milhões. Quem ainda acredita no retorno do jogador para a França deve extinguir suas esperanças. Para a Ligue 1, ele não volta tão cedo. Não há mais clima depois das acusações de que teria estuprado uma jovem.
Seja inocente ou culpado, Brandão agora terá usa imagem sempre associada ao escândalo, pelo menos na França. A volta ao Brasil foi sem dúvida a melhor solução para todos. O jogador deixa o inferno no qual se tornou sua vida nas últimas semanas, enquanto a Justiça francesa trabalha para resolver o caso. O Olympique de Marselha ganha mais sossego para trabalhar nos momentos decisivos da Ligue 1. Por fim, o Cruzeiro se reforça com um bom atacante.
O Olympique de Marselha estava com um abacaxi nas mãos. Não dava simplesmente para aplicar qualquer tipo de punição ao brasileiro, ou mesmo coloca-lo no banco de reservas. A implacável perseguição da mídia e, principalmente, da torcida, acabariam por consumi-lo mais rapidamente do que se ele estivesse na prisão. Para todos os efeitos, Brandão já foi julgado pelo tribunal mais passional – e por isso mesmo mais irracional – possível.
Basta ver as reações das torcidas organizadas do OM. Vários líderes destes grupos se mostraram favoráveis à saída do atacante, mas veem a questão sob outro prisma. Para eles, Brandão “é falso” e “não tem valor algum”, em uma triste condenação antes mesmo da análise dos fatos. Ou seja: se permanecesse no Olympique de Marselha, o jogador sofreria com uma insuportável pressão.
Antes mesmo do escândalo, Brandão já vinha sendo hostilizado pela torcida. O atacante teve um desempenho pífio nesta temporada pelo clube, com apenas um gol marcado em 19 partidas na Ligue 1. Mesmo assim, o treinador Didier Deschamps deixava clara sua confiança no brasileiro – tanto que o escalou 13 vezes como titular. O técnico gostaria de ter uma conversa com o jogador antes de se decidir por sua sida, mas não teve esta oportunidade.
Com a despedida de Brandão pela porta dos fundos, Deschamps fica com opções cada vez mais reduzidas para compor o ataque do Olympique de Marselha. Agora, restam André-Pierre Gignac, Loïc Rémy e Jordan Ayew para as rodadas finais da Ligue 1. Com tão poucas alternativas, e mesmo com a má fase de Brandão, o OM deve se complicar na briga com o Lille pelo título. Os marselheses têm muito o que se lamentar, principalmente o comportamento tacanho de sua própria torcida.


