Magno Novaes: “Fui para a Europa sem ter time para jogar”

No futebol, existem alguns jogadores que vingam logo de cara, na primeira oportunidade, e constroem uma carreira de sucesso ao longo dos anos. Outros, porém, vencem pela persistência, pela teimosia em não aceitar um “não” como resposta definitiva nas portas que bate. É o caso do goleiro brasileiro Magno Novaes, hoje titular do Bastia e um dos melhores da posição na Ligue 1, que não viu chances de seguir profissionalmente no futebol brasileiro, mas não desistiu.
Com passagens pelas categorias de base de São Paulo, Corinthians e Bahia, Magno defendeu também o Democrata-MG, mas se viu sem alternativas no Brasil. Foi para o Chipre e jogou no Moulins, da terceira divisão francesa, entre 2005 e 2007, mas precisou voltar ao Brasil por causa da morte da mãe, vítima de leucemia.
Na hora de retomar a carreira, Magno conta que foi abandonado pelo seu empresário. “Se dependesse dele, acho que hoje eu seria caixa de supermercado”, diz o goleiro, que pagou do próprio bolso a passagem de volta para a França. Com apenas € 50 no bolso, voava para uma aventura incerta, mas logo arrumou emprego no Arles Avignon, onde se destacou e chamou a atenção do Bastia, que o contratou em 2008. Há quatro anos no clube da Córsega, ele já atuou pelas três principais divisões francesas e conta um pouco dessas aventuras em entrevista à Trivela. Confira:
Muito se ouve no Brasil sobre jogadores enganados por empresários que passam dificuldades. Você chegou a viver alguma história parecida?
Quando eu perdi minha mãe, em 2007 e precisei voltar ao Brasil. Passei um ano sem jogar e meu empresário na época me largou, deixou de procurar equipe para mim. Acho que, se eu dependesse dele, estaria trabalhando como caixa de supermercado hoje. Fui para a França com o meu dinheiro, só com € 50 no bolso, fiquei na casa de alguns amigos e um deles me arrumou uma oportunidade no Arles Avignon.
Como foi esse período no Arles e a ida para o Bastia?
Foi importante para eu me firmar na França. Acabei me destacando por defender pênaltis em algumas partidas. Fizeram algumas matérias sobre mim, e isso ajudou a chamar a atenção do Bastia, que me contratou em 2008. Disputei a segunda divisão em 2008/09, e caímos para a terceira divisão na temporada seguinte. Fiquei aqui, joguei a terceira divisão a segunda e agora estou na Ligue 1.
No final da temporada passada, você foi eleito o melhor goleiro da segunda divisão francesa e teve propostas de equipes grandes para deixar o Bastia. Quais foram esses clubes e por que você decidiu ficar?
Não foram propriamente clubes grandes. Recebi convites do Brest e do Nice. Financeiramente, as propostas eram melhores, mas eu decidi ficar por tudo o que já vivi por aqui. Já conheço o clube, sei como funcionam as coisas e minha família está adaptada à cidade.
Como é o estilo de jogo praticado na segunda divisão francesa? É mais aguerrido ou mais técnico? E as torcidas? São mais fanáticas ou comportadas?
Temos uma das melhores segundas divisões da Europa aqui, com jogadores muito técnicos e clubes com grande torcida atuando, sobretudo no sul do país. Mas há também times com pouca torcida, isso é muito variado.
E a torcida do Bastia?
É muito fanática. A capacidade do estádio aqui é de 17 mil pessoas, e sempre temos um publico entre 14, 16 mil por jogo. E eles não ficam parados nunca. O clube tem 10 mil sócios, o que é muito numa cidade com 43 mil habitantes. A torcida aqui tem traços mais latinos, canta músicas na língua corsa, que é o idioma falado aqui na região da Córsega, que é bem parecido com o italiano.
Essa busca por manter uma identidade própria ajuda a acirrar a rivalidade com o Ajaccio, certo?
Sim, sim. A rivalidade é fortíssima. Quando pegamos o calendário da temporada, a primeira coisa que vemos é a data dos jogos contra o Ajaccio. As partidas sempre têm casa cheia, com lotação máxima, e até um pouco de bagunça no bom sentido (risos). No último jogo, que foi fora de casa, 4 mil torcedores do Bastia viajaram para acompanhar o time.
O Bastia está há quatro jogos sem perder e atualmente ocupa a 11ª colocação na Ligue 1. Quais as expectativas do clube para a temporada?
Vou ser sincero. Nosso objetivo é ficar na primeira divisão. Se o time terminar o campeonato em 17º lugar, daremos uma festa. Mas se ficarmos lá em cima não vamos reclamar.


