Ligue 1

Vladimir Petkovic se despede do excelente trabalho à frente da Suíça e será o treinador na reconstrução do Bordeaux

Responsável por eliminar a França na Euro 2020, Petkovic trabalhará na Ligue 1 e terá uma missão dura no Bordeaux

Vladimir Petkovic deixou a Euro 2020 como um dos treinadores mais valorizados da competição. A Suíça excedeu as expectativas ao eliminar a França num jogaço e também dificultar a vida da Espanha nas quartas de final, fazendo sua melhor campanha numa competição internacional em mais de seis décadas. E o respeito conquistado por Petkovic entre os franceses o levará para a Ligue 1. O técnico se despediu da seleção suíça após sete anos de trabalho e dirigirá o Bordeaux. Será a face da reconstrução dos girondinos, que atravessam momentos delicados nos seus bastidores.

Aos 57 anos, Vladimir Petkovic treinou diversos clubes da Suíça após pendurar as chuteiras. Chegou a comandar com certo sucesso Bellinzona e Young Boys, o que abriu as portas para seu principal trabalho antes de assumir a seleção: a Lazio. O suíço permaneceu na Itália por uma temporada e meia. Não chegou a causar grande impacto na Serie A, sem passar da sétima colocação, mas marcou seu nome na história dos biancocelesti ao conquistar a Copa da Itália em 2012/13 – na decisão contra a Roma no Estádio Olímpico. Porém, acabaria demitido em janeiro de 2014, após uma goleada sofrida contra o Verona.

A chegada de Petkovic na seleção da Suíça aconteceu após a Copa do Mundo de 2014, substituindo o lendário Ottmar Hitzfeld. E o comandante teve uma boa passagem pela equipe nacional. Conseguiu classificar os helvéticos a todas as competições internacionais do período e sempre botou o time nos mata-matas, apesar da queda nas oitavas durante a Euro 2016 e a Copa do Mundo de 2018. O treinador aprimorou uma espinha dorsal promissora e colheu seus principais frutos na Euro 2020. Mesmo que alguns destaques individuais não estivessem em seu melhor, a Suíça foi altamente competitiva e peitou favoritos nos mata-matas.

Nestes sete anos, Petkovic treinou a Suíça por 78 partidas e manteve um aproveitamento próximo dos 60% em pontos conquistados. A Eurocopa serviu de vitrine ao bom trabalho e, diante da visibilidade, ele resolveu aproveitar o momento para capitalizar em busca de um novo clube. Assim, chega respaldado para dirigir o Bordeaux. A situação dos girondinos em campo não é muito favorável, com o 12° lugar na temporada passada mascarando os riscos reais de rebaixamento e ficando bastante aquém da tradição do clube. Todavia, é nos bastidores que a agremiação precisa se reerguer, depois de momentos de extremos riscos atravessados durante os últimos meses.

Mal gerido pelo grupo americano King Street, dono da agremiação, o Bordeaux acumulou perdas diante das consequências da pandemia e flertou com a falência. O fundo de investimento abandonou o barco em abril e entregou a agremiação sob controle do Tribunal de Comércio de Bordeaux, que precisou renegociar dívidas e procurar novos donos. Sem que os interessados apresentassem garantias necessárias, o processo de venda se arrastou até junho, quando foi anunciado um acerto com o empresário Gérard López pela compra dos girondinos. Ainda assim, no início de julho, o Bordeaux teve seu rebaixamento à Ligue 2 anunciado após o King Street ignorar o Fair Play Financeiro da competição e não assumir as dívidas. Entretanto, o clube recorreu e reverteu a situação, com os novos fundos assegurados pelas mudanças na administração.

Gerard López, vale lembrar, presidiu o Lille de 2017 a 2020. A gestão do empresário luxemburguês nos Dogues foi conturbada, com problemas financeiros e punições temporárias aplicadas por conta de irregularidades. Ainda assim, ele conseguiu revelar um bom número de jogadores e levantar dinheiro com as vendas. Porém, por conta das enormes dívidas, precisou vender o Lille no meio da temporada passada e não estava mais na presidência quando a equipe conquistou a Ligue 1. Agora, o Bordeaux marca sua nova empreitada no futebol francês.

“Estamos muito orgulhosos de poder recrutar Vladimir Petkovic. Ele tem o perfil perfeito para ingressar em um projeto de longo prazo com o clube. Pessoalmente, também preciso agradecê-lo por sua determinação e seu desejo de se juntar a nós. Isso fez a diferença. Recrutar um treinador com tal aura e currículo também é uma prova da nossa ambição para essa temporada. Agradeço à federação suíça pelas negociações saudáveis que facilitaram a saída de Vladimir Petkovic”, comentou Gerard López.

Diante desse cenário, Petkovic precisará conduzir dentro de campo um clube em ampla reconstrução. Por enquanto, o Bordeaux pretende se restabelecer na metade de cima da tabela antes de retornar às copas europeias, e não deve fazer loucuras no mercado. O suíço não receberá reforços estelares, assim como lidará com uma pressão bem maior do que a vivida na seleção, considerando a insatisfação da torcida com os antigos donos pela dilapidação do patrimônio e pela falta de um projeto esportivo. Antes do anúncio do novo técnico, uma das primeiras decisões de Gerard López como proprietário foi exatamente resgatar o antigo escudo dos girondinos, numa tentativa de reconciliação com os torcedores.

O contrato de três anos assinado por Vladimir Petkovic indica confiança em suas capacidades e tempo para estabelecer as bases de um novo trabalho no Bordeaux. Resta saber se o entorno irá contribuir para isso, entre a mudança de rumos na gestão e as próprias cobranças da torcida. Pelo que fez na Suíça, contudo, o treinador parece suficientemente capacitado para ter sucesso com os girondinos. A chance de resgatar um clube tradicional é a prova do reconhecimento pelo que fez na Euro 2020.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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