Ligue 1

Bordeaux está sob risco de falência após proprietário norte-americano abandonar clube à própria sorte

Fundo de investimentos King Street não vai mais financiar o clube e o colocou sob proteção do Tribunal do Comércio

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Seis vezes campeão da Ligue 1 e um dos clubes mais tradicionais da França, o Bordeaux vive uma temporada terrível de futebol pouco inspirado, vestiário rachado, resultados ruins e risco real de rebaixamento para a Ligue 2. Como se o desastre esportivo não fosse suficiente, o clube agora vive um pesadelo administrativo após, nesta quinta-feira (22), o seu proprietário, o fundo de investimentos norte-americano King Street, anunciar que estava abandonando a instituição à própria sorte.

Em um comunicado publicado no site oficial do clube, o fundo afirma não desejar mais dar suporte e financiar os compromissos atuais e futuros do Bordeaux. Com a ação, entrega o controle do clube ao Tribunal de Comércio de Bordeaux, que terá que negociar as dívidas com os credores e encontrar um novo comprador de forma a evitar a falência da instituição. No pior cenário possível, estamos falando de um recomeço nas divisões amadoras do futebol francês.

Uma situação tão catastrófica como a atual não se explica de forma simples e tem raízes que vão além dos donos atuais. Em 1999, inspirado na empreitada do Canal+ no PSG, o grupo de TV francês M6 decide se aventurar no futebol e adquire o Bordeaux. Apesar de historicamente honrar com seus compromissos no clube, o grupo estabelece, a partir da conquista da Ligue 1 de 2008/09, uma operação irresponsável, vivendo acima dos seus meios e pagando salários incompatíveis a jogadores que não traziam o retorno em campo. Para piorar, a partir de 2015, a mudança do tradicional Estádio Chaban-Delmas, no centro da cidade, para o Matmut Atlantique, construído para a Eurocopa 2016 nas bordas da cidade, passa a representar não apenas o distanciamento de seus torcedores como também gastos suplementares, na casa de € 4 milhões por ano.

Embora a situação assumida pelos norte-americanos não fosse das melhores, desde que o King Street comprou o clube no final de 2018, a gestão tem sido das piores no Campeonato Francês, e o fim que agora se anuncia já vinha sendo previsto por torcedores, que há muito tempo protestam contra o fundo – inicialmente pela gestão distante do povo e pela falta de um projeto esportivo, mais tarde pelo caminho ao qual vinham levando o clube financeiramente, passando por uma mal-sucedida mudança de identidade visual com o novo escudo controverso adotado desde junho de 2020.

Entre 2017 e 2020, o Bordeaux viu sua folha salarial aumentar de € 49 milhões para € 69,9 milhões. Nos bastidores, funcionários de alto escalão e dirigentes vivem com salários “parisienses”, como descreveu uma fonte ao jornal L’Équipe. Para sustentar uma máquina dessas, precisaria haver em campo uma equipe competitiva, capaz de se classificar constantemente para competições europeias, mas a realidade girondina esteve distante disso nos últimos anos.

Em tempos normais, a situação já seria delicada, mas ela acabou seriamente agravada pelo momento perigoso que vive o futebol francês. Além da perda de receitas de bilheteria causada pelo fechamento dos estádios devido à crise do coronavírus, a liga francesa viu seu lucrativo negócio pelos direitos de transmissão das duas primeiras divisões nacionais com a Mediapro ir para o buraco ainda na metade da primeira temporada do acordo. Entre o que já havia sido pago pela Mediapro e aquilo que o Canal+, novo detentor dos direitos, se comprometeu a pagar, as cifras previstas para a LFP, organizadora das duas primeiras divisões francesas, caíram de € 1,1 bilhão para € 670 milhões na campanha 2020/21, afetando diretamente os clubes.

Em julho de 2020, para passar pelo crivo da DNCG, órgão que fiscaliza a saúde financeira dos clubes na França, o King Street havia feito um aporte financeiro de € 27,5 milhões ao clube. Mais tarde, em dezembro, injetou mais € 40 milhões para cobrir o déficit da temporada atual, afetado pela questão sanitária e dos direitos de TV mencionadas acima. Estes aportes garantiram que o clube pudesse honrar seus compromissos da temporada atual, mas o crescimento da dívida, que está hoje projetada em torno de € 73 milhões, é algo que o King Street não quer assumir.

A decisão de colocar o Bordeaux sob controle do Tribunal de Comércio é um procedimento que visa encontrar acordos com os credores, em especial o fundo Fortress, ao qual o clube deve € 50 milhões, segundo o L´Équipe, possivelmente anulando parte da dívida ou a parcelando. O passo seguinte seria, então, encontrar um novo comprador. Agora sob tutela do Tribunal de Comércio, a aquisição, em si, aconteceria sem custos ao eventual comprador, que, por outro lado, precisaria assumir a dívida.

Com a situação colocada, o L’Équipe fala em alguns possíveis cenários daqui pra frente. No mais positivo, um comprador apareceria imediatamente, e o clube retomaria suas atividades. No pior deles, sem acordo com os credores e sem a possibilidade de parcelamento da dívida, o clube pode se ver diante de um plano de liquidação judicial e, sem um comprador, tendo que declarar falência e recomeçar nas divisões amadoras do futebol francês.

Ao menos publicamente engajado com o clube desde a sua eleição como prefeito da cidade em 2020, Pierre Hurmic afirma que a prefeitura está em contato com dois potenciais compradores. Crítico da gestão King Street, o prefeito afirma querer garantir que os possíveis novos proprietários demonstrem “ligação com o clube, amor pelo futebol e vontade de territorializar o clube”.

Um nome, em especial, parece tomar a frente entre os candidatos a possível comprador do Bordeaux. Bruno Fievet, empresário que passou o último ano negociando com o King Street uma possível compra do clube, havia recentemente largado a ideia, diante da resistência do fundo de investimentos. Com a nova situação, diz estar pronto para voltar às negociações.

“Tínhamos recebido uma resposta negativa após uma oferta que fizemos em setembro. Eu não via a luz no fim do túnel neste projeto de aquisição, mas ela chegou hoje. Concretamente, vamos discutir com o tribunal para saber sob quais condições o clube está à venda”, afirmou à rádio RMC.

Paralelamente ao risco de falência e queda da Ligue 1 no tribunal, o Bordeaux enfrenta uma luta complicada dentro de campo para se manter na primeira divisão nacional. A primeira metade de temporada se anunciava positiva para a equipe, ao menos nos resultados, e uma vaga para a Liga Europa ainda estava de certa forma ao alcance dos girondinos, que, ao fim da 21ª rodada, se encontravam a sete pontos do quarto colocado, o Monaco. No entanto, na 22ª rodada, a derrota por 2 a 1 para o Lyon deu início a uma sequência de dez derrotas, um empate e apenas uma vitória.

A cinco rodadas do fim, o Bordeaux ocupa hoje a 16ª colocação, com 36 pontos, cinco a mais que o Nîmes, 18º colocado, na repescagem. O timing terrível da bomba fica ainda pior visto que, neste fim de semana, os girondinos enfrentam o Lorient, 17º colocado e concorrente do Bordeaux na briga pela permanência.

O Bordeaux terá muito em jogo nas próximas semanas, seja nos gramados ou nas salas e corredores do Tribunal de Comércio. Que um clube de tamanha estatura tenha sido largado em uma posição tão delicada por um fundo de investimentos norte-americano apenas dias depois de donos estrangeiros bilionários tentarem tomar para si o controle da elite do futebol europeu, é para se colocar em questão todos os mecanismos que estão hoje em vigor para decidir quem pode ou não tomar controle de clubes de tradição centenária.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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