Ligue 1

A transferência de Messi para o PSG representa uma cisão, mas também é um sinal dos tempos do futebol

Através de suas redes sociais, o clube parisiense começou a publicar diversas imagens em referência ao craque

Lionel Messi é o novo craque estelar do Paris Saint-Germain. Desde que o Barcelona anunciou o fim das negociações pela renovação do camisa 10, o Parc des Princes parecia seu destino certo. Não necessariamente por um acordo anterior, mas pela falta de possibilidades no mercado, em que apenas a fortuna catariana do clube francês parecia capaz de bancar um dos maiores da história. Após dias sem muitas surpresas, mas de evidente pesar do argentino por uma mudança que não gostaria, o anúncio aconteceu nesta terça – ainda sem dizer com todas as palavras. O PSG publicou diversos vídeos indicando o acordo com Messi, antes que a oficialização ocorresse ao final do dia. Nesta quarta, acontecerá uma entrevista coletiva com a provável apresentação.

A reviravolta na carreira de Messi é daquelas que botam à prova qualquer um que acredita piamente no romantismo do futebol. Mesmo pelos conflitos do camisa 10 com a antiga gestão do Barcelona, que fizeram o craque manifestar seu desejo de buscar novos rumos, os últimos meses reiteraram o apreço da lenda pelo clube onde atravessou a maior parte de sua vida. A partir de meados da temporada passada, Messi foi o de sempre, aquele que carregava um Barça enfraquecido. E a volta de Joan Laporta à presidência indicava como os entraves tinham ficado para trás. Até uma semana atrás, era difícil acreditar que um dos maiores da história deixaria sua casa.

Messi deixa o Barcelona num contexto amplo, com diferentes explicações, mas que em nenhum momento passa pela vontade sua. É difícil não acreditar no choro genuíno da entrevista coletiva ocorrida durante o final de semana, quando havia o sinal concreto de que, sim, a história da lenda blaugrana tinha fim. O rompimento, paradoxalmente, leva a outro lado do futebol, oposto ao romantismo de ver o 10 apenas com uma camisa. Ele diz mais sobre o caos na administração do Barça, sobre as ambições de constituir uma Superliga Europeia, sobre disputas políticas e econômicas nos bastidores do esporte. Diz também sobre uma bolha financeira que torna o futebol muito difícil de se sustentar e que, de certa forma, a própria maneira como Messi (ao lado de Cristiano Ronaldo) elevou a modalidade a níveis estratosféricos ajudou a gerar.

Messi aceitou ser parte de uma readequação do Barcelona, ao abrir mão de 50% dos seus salários para continuar no clube. Nem assim as contas respeitariam os limites propostos por La Liga. Difícil pedir para que Messi se desprendesse de mais dinheiro, não porque precise, mas por uma própria questão de orgulho. Se a sua permanência se tornou impossível, ela correspondia a uma administração que dilapidou receitas e gastou mundos sem montar novos elencos competitivos para o camisa 10. E também havia a própria questão da Superliga, da qual o Barça não abriu mão, já que não pretendia perder sua autonomia na queda de braço com La Liga. Preferiu perder o maior nome do clube.

Em tempos de um dinheiro irreal no futebol, Messi elevou tanto seu patamar que sobraram pouquíssimos para bancar seu talento, sobretudo num momento de crise econômica global. Em tempos de um dinheiro irreal no futebol, a lista de clubes possíveis ao craque incluía basicamente aqueles que dão um jeito nas regras de responsabilidade financeira e se sustentam graças a projetos de poder. Sem mais o Manchester City na jogada, sobrou o Paris Saint-Germain. Sobrou o clube que representa bastante a esses tempos do futebol, mas que também parece representar uma quebra à história de vida de Messi no Barcelona – mesmo que inserida, obviamente, num mundaréu de grana gerada pela própria imagem do gênio na Catalunha.

A saída de Messi do Barcelona sequer satisfaz aqueles mais ávidos por vê-lo em outro clube, porque queriam o talento da lenda posto à prova em uma liga mais competitiva – o que o levaria obrigatoriamente para a Premier League. A Ligue 1, pelo contrário, vê uma disparidade ainda maior que em La Liga, onde ao menos há um trio de competidores a cada edição. Se o último Campeonato Francês primou por uma emocionante disputa, isso pareceu corresponder mais à irregularidade do PSG, que responde agora com um caminhão de reforços titânicos. E, sobrando ou não nas competições domésticas, o time de Mauricio Pochettino ainda tende a ser cobrado única e exclusivamente pela Champions League que falta na sala de troféus do Parc des Princes.

Messi ainda pode escrever uma grande história no Paris Saint-Germain, claro. Se há o objetivo de conquistar a Champions, os parisienses levam o melhor nome à disposição. Mais uma Orelhuda para a galeria faria mais jus ao talento do camisa 10, de campanhas tão sofridas com o Barcelona nos últimos anos, assim como corresponderia ao investimento suntuoso dos franceses. Até pelos outros reforços trazidos nesta janela de transferências, fica mais difícil de dizer que o argentino estará mal servido de companheiros. Muito pelo contrário, ele dividirá o campo não apenas com outros gigantes, mas com tantos amigos. Terá ao seu lado Neymar e Ángel Di María, dois dos melhores parceiros da carreira.

A passagem de Messi pelo PSG muito provavelmente corresponderá à glamourização do futebol. O Parc des Princes será um epicentro não somente da bola, mas da moda, como já tinha se firmado nos últimos tempos. Cada partida do camisa 10 será um show lucrativo. Mas também corresponde a um futebol predatório, no qual apenas a Champions parece importar, na qual pouquíssimos clubes concentram o talento. Algo que se vivia em La Liga e tende a se amplificar na Ligue 1. Corresponde a um futebol que traduz bem mais um jogo de poder, no qual a ausência dos parisienses na Superliga só aumentou as influências e as vistas grossas ao que acontece em suas contas. Corresponde a um futebol que não é global no acesso, mas é na captação de dinheiro, para poucos.

Romantizar a ligação de Messi com o Barcelona é levar em conta o guardanapo em que foi assinado o primeiro contrato, mas não o burofax. É se lembrar das injeções tomadas para se auxiliar o crescimento do garoto e se esquecer das injeções financeiras. É exaltar as parcerias com Ronaldinho, Xavi, Iniesta, Suárez ou Neymar em campo e ignorar as outras tantas parcerias escusas nos camarotes do Camp Nou. O futebol não mudou de uma hora para outra. Mas talvez esse rompimento e essa transferência, por todo o contexto, sejam a passagem que mais jogue na cara dos românticos como esses traços são apenas uma parte da história. Uma parte inclusive que vende, para a roda da fortuna girar.

Messi também é um produto disso. É um motor disso, como um dos atletas mais bem pagos da história. E o Paris Saint-Germain, ainda que pareça um intruso no conto de fadas que se pretendia contar, é bem mais um personagem importante que se encaixa na realidade ao redor do futebol. No caso, o único capaz de pagar o que vale Messi neste exato momento em que a oportunidade surgiu.

Talvez seja estranho pensar em Messi com a camisa do PSG, até pelo contraste com as lágrimas na despedida do Barcelona. Pelas cifras, nada poderia fazer mais sentido. E é bem capaz que aqueles que resistem à transferência nesse momento se rendam na primeira sequência de dribles no Parc des Princes. A magia do camisa 10 é um pouco disso também, considerando que ele fazia muita gente relevar a arrogância expressa pelo Barcelona em tantos momentos e focar na mais pura arte com a bola grudada aos pés.

Messi é único, e por isso bilhões de pessoas ao redor do mundo não querem perdê-lo de vista. O PSG ganha todas essas atenções e pode ganhar mais em campo, mesmo que pareça difícil se dar por convencido sobre o fim de uma história tão idealizada com o Barcelona. E o movimento de Messi escancara um pouco mais como o futebol de alto nível é muito mais negócio do que aquela bolinha que a gente batia descalço com os amigos no meio da rua. Messi está no centro disso, muito embora alimente sonhos em tantas crianças descalças que seguem batendo sua bola na rua.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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