FrançaLigue 1

Os 80 anos de Guy Roux, a lenda que treinou o Auxerre por mais de quatro décadas

Diversos clubes possuem personagens históricos que são suas bandeiras. Jogadores ou treinadores que, tamanha dedicação à instituição, acabam simbolizando a identidade. Ainda assim, raríssimos conseguem atingir o patamar de Guy Roux. O veterano francês simplesmente é o Auxerre. Defendeu o clube em seus tempos de jogador e, a partir dos 23 anos, assumiu como técnico. Foram mais de 44 anos no comando da equipe, 36 deles ininterruptos. Chegou a um time amador, que não passava das divisões regionais. Levou-o ao profissionalismo, à primeira divisão, à Liga dos Campeões. Conquistou quatro títulos na Copa da França e um no Campeonato Francês. Revelou diversos ídolos da seleção, a ponto de ser convidado para dirigir os Bleus após a Copa de 1998. Uma lacuna que, apesar de tudo, não faz falta em sua trajetória. É uma lenda, que completou 80 anos de vida nesta quinta. Geralmente lembrada pela longevidade absurda no AJA, sua carreira vai além.

Como treinador, além de um bom estrategista para alavancar o Auxerre, Guy Roux sempre foi visto como uma figura paternalista e bonachona. Um treinador de extremos cuidados com seus jogadores, para que rendessem ao máximo. Por vezes, cuidados exagerados. Há tantas anedotas que falam sobre as vezes em que o comandante saía nas boates atrás de seus atletas ou até mesmo conferia a quilometragem de seus carros para saber o quanto rodaram. A “rede de informantes” espalhada pela Borgonha garantia o controle rígido. Mas nada que diminuísse o trato afável, que rende elogios até hoje – a ponto de Éric Cantona, seu pupilo, venerá-lo publicamente.

Guy Roux é bastante popular na França. As primeiras versões do Championship Manager no país, por exemplo, levavam o seu nome. Até torcidas rivais costumavam exaltá-lo nas arquibancadas. E sempre com uma visão engajada. Militou pela independência da Argélia e participa de diferentes campanhas em combate às doenças coronarianas. Foi próximo de diversos estadistas franceses. Inspirado por Charles de Gaulle na infância, seu trânsito era tamanho que chegou a ligar para o presidente François Mitterrand quando Cantona estava ameaçado de ser preso na Inglaterra, ao acertar sua famosa voadora no torcedor do Crystal Palace. O veterano recebeu condecorações de Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy, além de ser amigo de infância do antigo primeiro ministro Lionel Jospin. E como técnico, sua política se fazia no sindicato dos treinadores, permanecendo como presidente por 24 anos.

A aura de Guy Roux supera o seu papel à beira do campo. Ainda assim, está extremamente atrelada ao seu empenho para transformar o Auxerre em um clube importante. Não se fala sobre o passado do futebol francês sem mencionar aquele senhor que trabalhou tanto para chegar ao topo do país. Afinal, ele também representa o esporte local, por vezes provinciano, mas com sua história e suas paixões.

Nascido em 1938, na cidadezinha de Colmar, próxima à fronteira com a Alemanha, Guy Roux teve sua vida determinada pelos conturbados momentos da Europa na primeira metade do Século XX. Marcel Lory, seu avô materno, chegou a ser prisioneiro dos alemães durante a Primeira Guerra Mundial. Já seu pai, Marcel Roux, se mudou a Colmar justamente para atividades militares, logo se casando com Alice Lory, sua mãe. Em 1940, Marcel Roux foi a combate na Segunda Guerra Mundial e também se tornou prisioneiro dos alemães. Assim, tentando proteger a família, o avô Marcel Lory levou o guri a Appoigny, um vilarejo minúsculo, localizado na região da Borgonha e vizinho da cidade de Auxerre.

Guy Roux passou parte da infância em Appoigny e estava lá quando a Segunda Guerra Mundial terminou. Logo reencontraria seu pai, liberto na Tchecoslováquia. Junto com Marcel Roux, o garoto passou seis meses na Alemanha, antes que o coronel fosse transferido à Indochina. Além disso, sua mãe descobriu ser portadora de uma hemiplegia, doença que provocava a paralisação de metade do seu corpo. O avô teria papel central na criação do menino.

Neste momento, Guy Roux foi mandado de volta a Colmar, onde se apaixonou pelo futebol. De tanto acompanhar os jogos e os treinos do SR Colmar, seria adotado como mascote pelo goleiro do clube. Além de ajudá-lo nos treinamentos, o garoto também se tornou gandula da equipe, que disputava a primeira divisão do Campeonato Francês. Em 1950, aos 11 anos, o fanático voltou a morar em Appoigny. Foi sua porta de entrada ao Auxerre, pouco tempo depois. Em 1952, assinou o seu primeiro contrato, para atuar nas categorias de base. Era o início de uma história que se desdobraria pelas quase sete décadas seguintes.

Aos 16 anos, Guy Roux fez sua estreia pela equipe principal do Auxerre, disputando o campeonato regional da Borgonha. Dois anos depois, ao completar o ensino médio, deixou os alviazuis e se mudou à região de Limousin. Por lá, conciliava a carreira amadora com os estudos de administração de empresas e direito, além de trabalhar como professor. No entanto, seguiria por outros rumos, abrindo sua empresa e atuando como corretor de seguros. O futebol, de qualquer forma, permanecia como a sua paixão. Ao participar de um projeto de estudos, ganhou a oportunidade de treinar no Crystal Palace, sob as ordens de Arthur Rowe. Tinha 21 anos quando viajou à Inglaterra. Contudo, na volta à França, viu as portas se fecharem no clube que defendia na época, o Limoges.

O reencontro com o Auxerre aconteceu totalmente ao acaso, em 1961. Guy Roux estava nas arquibancadas para assistir a um amistoso contra o Crewe Alexandra. Entretanto, dois jogadores visitantes se lesionaram e os ingleses pediram, no sistema de som do estádio, que alguém fizesse a tradução do inglês ao francês para os médicos. O ilustre se voluntariou e, mais do que isso, acabou atuando como substituto no duelo. Serviu para que o presidente dos alviazuis oferecesse uma vaga de volta no elenco. O jovem aceitou, mas desde que fosse jogador e técnico – algo rechaçado pelo cartola, pela pouca experiência do rapaz.

Então, Guy Roux resolveu ser teimoso. Elaborou um documento de seis páginas, no qual apresentava o seu projeto como técnico do Auxerre e explicava a maneira como conduziria os treinamentos da equipe. A carta foi submetida à diretoria e, em um momento no qual procuravam um novo treinador, resolveram contratá-lo – sobretudo, por seu salário baixo. Em tempos modestos nos alviazuis, sua missão era conquistar o campeonato regional da Borgonha e colocar o time na terceira divisão do Campeonato Francês.

Os primórdios de Guy Roux como treinador-jogador tiveram os seus percalços. Ele seguia sua formação na área de seguros e não conseguia comparecer ao clube todos os dias. Já em setembro de 1962, às vésperas de completar 24 anos, abandonou o posto para cumprir o serviço militar. Passou um tempo servindo na cidade alemã de Trier, onde também treinava o time de futebol do pelotão. O retorno ao Auxerre aconteceu em 1964, recontratado depois de campanhas nas quais os alviazuis precisaram se safar do rebaixamento. Neste momento, ele inicia a parceria com o presidente Jean-Claude Hamel, que assumiu o cargo em 1963 e permaneceu no poder até 2009. O jovem jogador-treinador recolocou o time nas primeiras colocações. Além disso, aproveitou a Copa do Mundo de 1966 para viajar à Inglaterra e adquirir mais experiência, bancando parte de sua viagem como correspondente de um jornal local.

Já os sucessos começam a partir de 1969/70, com a conquista da Divisão de Honra da Borgonha, protagonizando uma campanha arrasadora. Pela primeira vez, o Auxerre subia à terceira divisão nacional. Guy Roux abandona o posto como jogador para assumir apenas a prancheta e, novamente, viaja à Copa do Mundo para aprender um pouco mais. O francês chegou a pagar um policial para entrar no centro de treinamentos da seleção brasileira e assistir a um treinamento da equipe de Zagallo. Lições logo assimiladas e levadas à modesta realidade na França.

Ao longo de seus anos na terceirona, o Auxerre sempre se manteve entre os cinco primeiros colocados, embora o novo acesso tenha acontecido ao acaso. Em 1973/74, os alviazuis terminaram na quarta colocação, atrás das equipes reservas de Lyon, Saint-Étienne e Olympique de Marseille. Como os times B não podiam ascender à segunda divisão, já profissional, Guy Roux terminou por comemorar a promoção. Um passo a mais para o fortalecimento sistemático do clube, com uma estrutura mais estabelecida ao seu redor e uma mente brilhante no comando. Aprender, aliás, era uma palavra de ordem ao técnico. Ele viria também à Argentina para a Copa de 1978, passando alguns dias pelo Brasil, onde acompanhou as atividades do Botafogo.

Em 1979, o Auxerre teve a honra de disputar a final da Copa da França pela primeira vez, contra o poderoso Nantes. Mais de 46 mil pessoas assistiram ao jogo no Parc des Princes. Os nanicos seguraram o empate por 1 a 1 ao longo do tempo regulamentar, mas não resistiram à força dos Canários na prorrogação, com a vitória por 4 a 1. Do outro lado, alguns personagens históricos do futebol francês, como Henri Michel e Maxime Bossis. A campanha ao menos rendeu dois milhões de francos e o dinheiro foi usado para construir um moderno centro de treinamentos ao clube, inaugurado em 1982. Já em 1980, o acesso inédito à Division 1 se consumou com uma vitória sobre o Cannes.

O Auxerre demorou pouco para embalar na elite do Campeonato Francês. Depois de duas campanhas medianas, os alviazuis se firmaram na parte de cima da tabela, sobretudo após a inauguração do novo CT. Naqueles tempos, tinham feito um grande negócio no mercado ao buscarem na Polônia o atacante Andrzej Szarmach, lenda de sua seleção que havia atingido a idade mínima para atuar no exterior – em tempos nos quais, diante do regime comunista, apenas atletas acima dos 30 anos podiam deixar o país. Foi o primeiro representante do AJA em uma Copa do Mundo, presente no Mundial de 1982. Só que além dos reforços, o treinador também contava com a capacidade de formação de suas categorias de base. Não à toa, de 1982 a 1986, o Auxerre conquistou seus três primeiros títulos na Copa Gambardella, principal torneio de base da França. Seriam mais quatro troféus depois disso, três delas até a virada do século.

O primeiro grande destaque individual formado pelo clube foi Jean-Marc Ferreri. O meia participou do acesso à primeira divisão e se firmou na elite do Campeonato Francês, a ponto de ser convocado à seleção na conquista da Euro 1984. Era um dos representantes do clube, ao lado do goleiro Joël Bats, contratado junto ao Sochaux em 1980. O prodígio ainda participaria do Mundial de 1986, antes de ser vendido ao Bordeaux. Pouco depois, quem despontou foi Pascal Vahirua, ponta taitiano que se tornou o primeiro polinésio a representar os Bleus em uma competição internacional, a Euro 1992. E os alviazuis também seriam responsáveis por apresentar Basile Boli, zagueiro de enorme presença física e muita qualidade técnica, que em 1990 partiria ao Olympique de Marseille para se tornar o herói do único título francês na Champions.

Ainda assim, o maior jogador revelado por Guy Roux no Auxerre não foi nenhum destes. Segundo as palavras do próprio treinador, ninguém supera Éric Cantona. O comandante do Auxerre o conheceu aos 15 anos e precisou vê-lo ao longo de dez minutos para ter certeza de seu talento. Logo falou com seus pais e o incorporou às categorias de base do AJA. “Cantona foi o jogador mais técnico que treinei. Eu o amava porque, quando treinava mal durante a semana, queria se redimir e fazia uma atuação incrível. Ele podia me olhar nos olhos e dizer: ‘Professor, você quer que eu ganhe este jogo? Nós te daremos a vitória’. Mas também era o jogador de temperamento mais forte. Eu tinha que o manter nos limites aceitáveis para saber como lidar”, avaliou Roux. Cantona jogou sob seu comando de 1983 a 1988, quando foi vendido ao Olympique de Marseille, após chegar à seleção principal.

Se os anos 1980 não renderam títulos significativos ao Auxerre, o clube se manteve competitivo. Chegou a terminar a Division 1 na terceira colocação em 1983/84, o que valeu a classificação inédita para a Copa da Uefa, competição na qual acabaria se tornando participante costumeiro. Além disso, Guy Roux recebeu em duas oportunidades o prêmio de melhor treinador do país, em 1986 e 1988. Na virada aos anos 1990, o patamar dos alviazuis já era outro. Tanto que passaram a contratar jogadores de renome internacional, como Enzo Scifo, Alain Roche e Laurent Blanc.

De uma equipe simpática e competente, o Auxerre de Guy Roux se transformou em uma máquina de ganhar títulos. Em 1992/93, o aviso aconteceu na Copa da Uefa, quando os franceses eliminaram o Ajax para alcançar as semifinais, eliminados pelo Borussia Dortmund. Já em 1993/94, conquistaram a Copa da França, superando o Montpellier na final. Entre os destaques, alguns jogadores que se projetaram à seleção, como o capitão Corentin Martins e o atacante Lilian Laslandes.

A grande temporada de Guy Roux no Auxerre, ainda assim, aconteceu em 1995/96. O clube celebrou o bicampeonato da Copa da França, superando o Nîmes na decisão. Já o feito histórico se concretizou dias depois, com a dobradinha nacional, ao faturar também o Campeonato Francês. O principal concorrente era o timaço do Paris Saint-Germain, mas a categórica vitória por 3 a 0 sobre os parisienses em meados de março botou o AJA na liderança. Conquista confirmada pouco menos de dois meses depois, em empate contra o Guingamp. Embora tenha perdido alguns jogadores importantes, os alviazuis contavam com um time fortíssimo. O goleiro era Lionel Charbonnier, reserva na Copa de 1998. O miolo de zaga contava com Laurent Blanc e Taribo West. Sabri Lamouchi e Corentin Martins comandavam o meio, participando logo depois da Euro 1996. Já na frente, Bernard Diomède e Stéphane Guivarc’h despontaram rumo ao Mundial de 1998. Pela terceira vez, Roux recebeu o prêmio de melhor técnico do país.

O Auxerre não manteve a toada nas temporadas seguintes, embora tenha alcançado as quartas de final da Champions em 1996/97, superando o Ajax na fase de grupos e novamente sucumbindo ao Dortmund. As campanhas na Division 1 eram mais modestas, por mais que o clube quase sempre terminasse na metade superior da tabela. E o moral de Guy Roux era tão grande que, depois de recusar o comando da seleção francesa em 1994, ele voltaria a ser convidado pela federação em 1998, para suplantar Aimé Jacquet na sequência do título mundial. Desta vez, foi o AJA quem não o liberou. Ainda hoje ele lamenta a oportunidade perdida, embora a paixão se sustentasse um pouco mais.

Em 2000, diante dos 34 anos ininterruptos no comando do Auxerre, Guy Roux ensaiou sua aposentadoria. Afirmou que queria descansar e passou o bastão a Daniel Rolland. Um ano depois, com a saída do novo treinador, o veterano já estava de volta para dirigir os alviazuis. Mesmo com uma cirurgia cardíaca neste intervalo, foram mais quatro temporadas ininterruptas, com destaque à quarta colocação no Campeonato Francês em 2003/04. Mais do que isso, faturou mais dois títulos na Copa da França, superando o PSG de Ronaldinho em 2003 e o Sedan em 2005. Tempos de outros destaques projetados pelas categorias de base – como Philippe Mexès, Olivier Kapo, Djibril Cissé e Bacary Sagna, além de outros que chegaram jovens, a exemplo de Jean-Alain Boumsong e Benjani. O quarto título na copa foi a deixa para que, aos 66 anos, pendurasse definitivamente a prancheta.

Em 2007, Guy Roux ainda voltou a trabalhar como treinador, para uma rápida passagem pelo Lens. Na época, a legislação francesa não permitia que um técnico acima dos 65 anos fosse contratado, mas abriu-se uma exceção à lenda. Pena que a experiência não durou mais que dois meses, ainda em agosto de 2007, com o veterano explicando o fracasso às dificuldades da idade e aos problemas de adaptação. Sua casa era outra. Voltou ao Auxerre como vice-presidente e também como consultor nas categorias de base. Sua imagem estará eternamente associada aos alviazuis, que hoje não passam de um clube médio na Ligue 2. Desde 2012, o AJA não figura mais na elite, acumulando campanhas modestas na segundona. O saudosismo ao redor de Guy Roux é enorme.

Guy Roux permanece como uma personalidade bastante popular na França. Segue procurado para fazer as mais diferentes propagandas e, diante de seu aniversário de 80 anos, foi festejado pelos torcedores do país. Uma história não se constrói do nada. E uma história de paixão que dura mais de 60 anos, transformando um clube interiorano em potência nacional, menos ainda. O legado permanecerá por muito tempo, enquanto durarem as memórias sobre seus times campeões e sobre as estrelas que revelou. Ao que tudo indica, por mais alguns séculos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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