O adeus a Just Fontaine, o meteoro de gols que talvez nunca se repita na Copa do Mundo
Fontaine é mais lembrado pelos absurdos 13 gols em seis partidas da Copa de 1958, mas também conquistou títulos e empilhou gols por onde passou, mesmo precisando se aposentar aos 28 anos
Just Fontaine não gostava de se gabar. Dono de um caráter humilde e afável, não era o veterano que bradava manchetes sobre seu recorde de gols em uma única edição de Copa do Mundo. Porém, o centroavante franco-marroquino não deixava de brincar com a marca – um tanto quanto assombrosa. Seus 13 gols anotados em seis partidas do Mundial de 1958, afinal, devem durar por um bom tempo como patamar inatingido no torneio. “Estamos no ano 4 mil depois de Cristo. Arqueólogos descobrem uma múmia: o homem lá dentro está vivo. É incrível! Quando a múmia finalmente é libertada, a primeira coisa que ela pergunta é: ‘Será que o recorde de gols de Just Fontaine na Copa do Mundo foi finalmente quebrado?’. Em 2 mil anos, se ainda jogarmos futebol, é bem possível que ainda façamos essa pergunta. E a resposta provavelmente será ‘ainda não'”, farreava o craque. Nesta quarta-feira, aos 89 anos, Fontaine faleceu depois de mais de seis décadas respondendo infindáveis vezes a tal pergunta. Seu nome permanecerá nesse pedestal por muito tempo ainda – talvez séculos.
A Copa do Mundo de 1958, mesmo ofuscado por um prodígio chamado Pelé, marca como Fontaine era um atacante excepcional. Ainda assim, é um recorte pequeno da excelência do artilheiro – mesmo que sua aposentadoria tenha acontecido de maneira muito precoce, em carreira encerrada aos 28 anos. Antes disso, Fontaine fez sucesso em diferentes cantos. Nascido em Marrocos, surgiu como um fenômeno na US Marocaine. Depois, mudou-se à França para defender o Nice e ampliou o número de conquistas de um time já forte. Isso até desfrutar o ápice no Stade de Reims, três vezes campeão nacional e estrela num esquadrão com o qual disputou até final de Champions. As artilharias também se somaram em diferentes competições.
Fontaine antecipava o que se imaginava de um atacante completo. Não era o mais alto e nem o mais veloz, mas possuía uma coleção de predicados que o tornavam letal. O craque anotava gols com todas as partes do corpo possíveis, tinha uma finalização precisa, sabia como espreitar os espaços, encontrava os atalhos em suas arrancadas, era exímio em driblar em espaços curtos. Seus números absurdos são resultado dessa multiplicidade de talentos. E mesmo assim “Justo”, como era apelidado, sempre foi mais elogiado por suas características humanas. Colecionou amigos dentro e fora de campo, assim como sempre foi muito carinhoso com jornalistas e fãs. Continuou presente no futebol, como técnico e como primeiro presidente do sindicato de futebolistas na França, do qual foi fundador. Continuará presente para sempre como uma lenda.

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Just Fontaine representava um caldeirão cultural em tempos coloniais. O atacante nasceu em 18 de agosto de 1933, em Marraquexe, cidade no atual Marrocos e que na época era uma possessão colonial da França. A família do garoto representava inclusive a divisão do chamado protetorado marroquino: sua mãe era espanhola e o pai era francês, funcionário de uma indústria estatal de tabaco. Era uma família com boas condições, numa casa com sete filhos. Desde cedo, Fontaine seria incentivado a praticar esportes. Chegou a se aventurar no basquete durante a juventude, o que auxiliou também seu desenvolvimento nos gramados.
Fontaine era fã de Larbi Ben Barek, atacante de origem árabe que estourou em Marrocos e fez fama não só na França, como também na Espanha. O adolescente despontou primeiro nos juvenis do Sporting Athlétique de Marrakesh, clube de sua cidade natal. Ficou por lá até os 17 anos, quando se mudou para Casablanca em razão dos estudos. Teria melhores condições também no futebol, numa cidade onde o esporte estava mais arraigado. E teria uma chance inclusive de seguir os passos de Ben Barek, na US Marocaine, potência nacional dos tempos coloniais. Já não eram os momentos mais abastados do clube, mas Fontaine auxiliaria a recuperarem parte das glórias antes do ocaso da agremiação.
Fontaine estreou na US Marocaine em 1950, aos 17 anos. E o talento do centroavante faria estrago no Campeonato Marroquino, mesmo tão jovem. Justo assinalou 62 gols em 48 partidas pela competição. Seria vice-campeão do protetorado em 1951 e colocou a mão na taça em 1952 – no último dos 15 títulos da USM no certame, após um hiato de seis anos. O time ainda excederia seu desempenho além das fronteiras, para conquistar também em 1952 o Campeonato do Norte da África, uma espécie de “Champions League” que envolvia os campeões de outras colônias na costa do Mediterrâneo. O adolescente figurou ainda na seleção do protetorado de Marrocos. Os franceses não gostaram muito daquele movimento, dadas as origens do prodígio, diferente dos árabes que dominavam o elenco marroquino. O próprio Fontaine, contudo, não tinha problemas em se identificar com o território onde nasceu e cresceu, mesmo com ascendentes europeus.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a importação de talentos marroquinos se tornou mais comum no Campeonato Francês. Larbi Ben Barek abriu portas aos seus compatriotas desde os anos 1930 e o fluxo se tornou cada vez maior rumo à década de 1950. Naturalmente, Fontaine arrumaria as malas para a Europa, ainda mais sendo francês étnico. E o responsável por sua contratação foi outro ídolo do centroavante, o veterano Mario Zatelli, argelino de origem italiana que também defendeu as cores da US Marocaine nos tempos de jogador. Antigo herói do Olympique de Marseille, Zatelli era na época treinador do Nice. Não foi uma passagem tão longa pela casamata do clube que era potência no Campeonato Francês, mas valeu para convencer Fontaine sobre sua transferência em 1953, aos 20 anos.
O Nice havia conquistado o Campeonato Francês em 1950/51 e 1951/52. O nível de desempenho vinha em queda posteriormente, mas ainda era um elenco bastante respeitável. Os argentinos Pancho Gonzáles e Luis Carniglia estavam entre as estrelas do elenco, bem como o luxemburguês Victor Nurenberg e o franco-húngaro Joseph Ujlaki. As Águias também recorriam bastante a outros jogadores nascidos no norte da África, como o franco-argelino Abdelaziz Ben Tifour, o franco-tunisiano Mokhtar Ben Nacef e o franco-marroquino Abderrahman Mahjoub. Já a braçadeira de capitão ficava com Antoine Cuissard, figura de relevo da seleção francesa no pós-guerra.
Faltava mais equilíbrio àquele Nice, como um time ultraofensivo. Por isso mesmo, a primeira temporada de Fontaine não foi tão boa em termos de resultado: os rubro-negros terminaram na nona colocação da Division 1, mesmo contando com o melhor ataque do certame. Justo guardou 17 gols dos 73 da equipe, artilheiro do elenco ao lado de Ujlaki. Em compensação, as Águias brilharam na Copa da França e terminaram com o troféu. Seria uma decisão particularmente especial a Fontaine, que teve a chance de se encontrar com o ídolo Ben Barek, então atacante do Olympique de Marseille. O aprendiz se deu melhor contra o mestre na final em Colombes, com a vitória do Nice por 2 a 1, embora o centroavante tenha passado em branco.

A estreia de Fontaine pela seleção da França não demorou a acontecer. Em dezembro de 1953, o centroavante participou de um duelo contra Luxemburgo pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. Os Bleus golearam por 8 a 0, com três gols do novato de 20 anos. Porém, ele não seria mantido no elenco por tanto tempo. Não participou da Copa do Mundo de 1954, numa campanha curta dos Bleus, mas que teve representantes do Nice graças a Cuissard e Mahjoub. Na época, Justo precisava vestir a camisa de outra seleção francesa: a militar.
Fontaine cumpria o serviço militar obrigatório. Foram 30 meses no exército, em tempos de guerra na Argélia. O centroavante não chegou a batalhar no front, até por seu status como estrela do esporte, e seguiu frequentando as partidas do Nice. Contudo, auxiliou na propaganda ao redor da seleção militar dos franceses. O jovem foi aproveitado em competições internacionais e capitaneou o time que se classificou à Copa do Mundo Militar. O atacante não esteve presente no Mundial da Argentina em 1957 e, mesmo assim, seus companheiros foram campeões do torneio, com vitória sobre a Albiceleste na decisão.
A esta altura, Fontaine fazia ainda mais barulho no Campeonato Francês. O centroavante fez uma competição ainda melhor em 1954/55, com 20 gols anotados. Faltou apenas o Nice colaborar um pouco mais, de novo na nona colocação. Já a conquista inédita de Fontaine na Division 1 aconteceu em 1955/56. O centroavante foi desfalque em boa parte do campeonato, com cinco gols em 17 partidas. De qualquer forma, os companheiros deram conta do recado. Era um elenco que tinha o acréscimo inclusive de um brasileiro, o ponta Brandãozinho, ídolo do Palmeiras. Já no banco de reservas, Luis Carniglia havia ascendido ao comando técnico.

O título do Campeonato Francês garantia o Nice na recém-criada Copa dos Campeões da Europa. Fontaine, entretanto, trocaria de clube na temporada seguinte. Vestiria a camisa justamente do Stade de Reims, vice-campeão da edição inaugural da Champions e que tinha um domínio ainda mais notável na Division 1 durante aqueles tempos. Os alvirrubros sofriam um desfalque e tanto com a venda de Raymond Kopa rumo ao Real Madrid. Justo acabou escolhido para se tornar exatamente o substituto do melhor jogador francês do período. Não decepcionaria, com sua consolidação como um craque nacional.
O Stade de Reims fez uma boa campanha no Campeonato Francês em 1956/57, mas ainda não alcançou o título, seis pontos atrás do Saint-Étienne. Ainda assim, o futebol de Fontaine se potencializou no time dirigido por Albert Batteux. O atacante contribuiu com 30 gols em 31 partidas pela Division 1, somente três tentos atrás do artilheiro da competição, o franco-polonês Thadée Cisowski. Foi quando finalmente Justo ganhou uma nova chance na seleção da França, convocado para um amistoso contra a Hungria. Passou em branco, mas teve a oportunidade de dividir o campo não somente com Ferenc Puskás, mas também com Sándor Kocsis, até então maior artilheiro em uma única edição da Copa do Mundo, com 11 gols em 1954.
Fontaine era menos frequente do que deveria nos compromissos dos Bleus. Por outro lado, o que o centroavante causava no Campeonato Francês era assombroso. A melhor temporada de sua carreira aconteceu em 1957/58, quando esquentava os motores para a Copa do Mundo. O Stade de Reims conquistou a Division 1 com ampla sobra para os concorrentes. Era um time avassalador, que anotou 89 gols em 34 partidas. Sozinho, Justo contribuiu com 34 gols em 26 aparições e finalmente recebeu o prêmio de artilheiro do campeonato. Como se não bastasse, o Reims também abocanhou a Copa da França. Fontaine desequilibrou, claro, com um dos gols na vitória por 3 a 1 sobre o Nîmes na decisão em Colombes.

Durante aquela temporada, Fontaine disputou mais três partidas pela França. Os Bleus perderam para a Hungria, antes de empatarem com Espanha e Suíça. O centroavante anotou um dos gols contra os espanhóis, mas não era totalmente cotado para ser titular na Copa do Mundo de 1958. Enquanto Kopa podia se reintegrar aos antigos companheiros, o comando do ataque ficava com René Bilard, outra figura notável do Reims. Todavia, uma lesão de tornozelo do atacante durante a reta final da preparação abriu espaço em definitivo para Fontaine no 11 inicial. Os dois eram grandes amigos, moravam no mesmo prédio, dividiam quarto na concentração e Bilard inclusive tinha o costume de lavar as chuteiras de Fontaine por superstição. Justo não deixava de lamentar o corte, mas precisava honrar a chance por ele e pelo amigo. Com apenas cinco partidas disputadas pela equipe principal da França, o centroavante estaria num Mundial. Para que seu nome ecoasse no resto do planeta e nunca mais fosse esquecido.
O entrosamento auxiliava aquela França de 1958. Albert Batteux dividia funções entre o Stade de Reims e os Bleus. O treinador convocou seis jogadores dos alvirrubros, cinco deles presentes na base titular. O capitão Robert Jonquet liderava a defesa e Armand Penverne preenchia o meio. Já o ataque contava com uma trinca de ases do clube da região de Champagne: Just Fontaine, Jean Vincent e Roger Piantoni. Isso sem falar em Kopa, oriundo do Reims e que seguia em ótima forma com o Real Madrid. A força do clube serviu de grande impulso ao time francês.
A presença de Fontaine na seleção da França gerava debate por questões políticas. Era um momento em que os países da África se tornavam independentes e formavam suas próprias seleções. O centroavante poderia ter se juntado à equipe nacional de Marrocos se assim preferisse, mas as origens étnicas francesas também tornavam compreensível sua escolha pelos Bleus. O maior entrave, todavia, se concentrava em relação aos argelinos. Às vésperas do Mundial, nomes importantes dos Bleus deixaram o território francês e se juntaram ao time da Frente de Libertação Nacional, que passou a rodar o mundo sobre a causa nacionalista argelina durante a guerra de independência. Foram vistos como “traidores”, enquanto Fontaine era apontado como um “exemplo por não virar as costas para a França”. Apesar disso, Justo apoiava os companheiros que optaram pela FLN e pela libertação da Argélia.

“Todo mundo entende os motivos pelos quais eles deixaram a seleção. Eu os entendia melhor que os outros, porque joguei por Marrocos na época do protetorado. É uma pena para as suas carreiras, mas eles tinham uma missão a cumprir e cumpriram. Eles eram argelinos acima de tudo e sentiam a alma argelina, não francesa”, afirmou Fontaine, em entrevista concedida em 2011 ao site Le Buteur. Justo inclusive garantia que os Bleus perderam forças sem os três talentos que seguiram para a FLN – o supracitado Ben Tifour, além de Rachid Mekhloufi e Mustapha Zitouni.
Fontaine também analisava que sua situação era diferente dos companheiros argelinos. O Protetorado Francês no Marrocos, afinal, oferecia condições de vida melhores que o colonialismo na Argélia. O que não fazia o centroavante renegar sua relação com os marroquinos: “Claro que me sinto marroquino! Sou, digamos assim, meio francês e meio marroquino. ‘Noss-noss’, como dizem em árabe”.
Os desfalques geraram uma pressão a mais sobre Fontaine. Sua resposta na Copa do Mundo veio na forma de muitos gols. E mesmo enfrentando um contratempo às vésperas da partida contra o Paraguai, na estreia: sua chuteira estragou e o companheiro Stéphane Bruey, atacante reserva, emprestou seu segundo par a Justo. Seriam calçados de sorte. Fontaine abriu o Mundial com três gols diante dos paraguaios, numa vitória por 7 a 3. A tripleta mostrava um bom repertório, com duas arrancadas imparáveis e o terceiro tento com um toquinho por cima do goleiro, antes de fuzilar as redes vazias. Na rodada seguinte, nos 3 a 2 sobre a Iugoslávia, foram mais dois gols – o primeiro numa finalização firme, o segundo num toque de cobertura. E a campanha na fase de grupos terminou com mais um gol, nos 2 a 0 em cima da Escócia, com mais um avanço em velocidade do centroavante.

Não foram os mata-matas que cessaram a fome de gols de Fontaine. O centroavante assinalou mais dois contra a Irlanda do Norte, de cabeça e depois chamando a zaga para dançar, com um corte desconcertante no beque. A França sucumbiu apenas nas semifinais, diante do Brasil, na derrota por 5 a 2. Mesmo assim, o primeiro gol que a Seleção tomou naquela Copa do Mundo saiu dos pés do artilheiro, para empatar o duelo de início. Justo se antecipou a Gylmar na dividida, num lance de coragem, e depois tocou para as redes vazias. A lesão de Jonquet em tempos sem substituições, no entanto, teve um enorme preço aos Bleus – não seria possível segurar Pelé. Por fim, restou a decisão do terceiro lugar. Uma vitória por 6 a 3 sobre a Alemanha Ocidental que teve quatro gols de Fontaine. O primeiro tempo viu dois gols do craque, ambos com muito oportunismo em bolas vivas na pequena área. E o goleador matou o jogo em dois contragolpes na segunda etapa, com direito a finalizações precisas.
Fontaine sobrou como artilheiro da Copa do Mundo, embora Kopa também tenha recebido condecorações individuais naquele ano de 1958. Até pelo sucesso no Real Madrid, o atacante se deu melhor na Bola de Ouro e Fontaine terminou em terceiro. Não era problema ao centroavante, livre de vaidades. E uma das cenas mais bonitas depois do sucesso no Mundial ocorreu no desembarque de volta da delegação da França no aeroporto de Orly. Entre dezenas de jornalistas e centenas de torcedores, estava presente René Bilard. Fontaine seguiu direto para dar um abraço emocionado no amigo. Muito humilde, Justo reconheceu: “Não fosse sua desventura, não seria eu a fazer tudo isso”.
Na temporada 1958/59, Fontaine e Bilard tiveram uma redenção em conjunto. O Stade de Reims terminou o Campeonato Francês na quarta posição, a despeito dos 24 gols de Justo. O grande momento dos alvirrubros aconteceu pela Copa dos Campeões da Europa. O Reims alcançou sua segunda final, com goleadas sobre os norte-irlandeses do Ards e os finlandeses do HPS Helsinque, antes de viradas nos confrontos com Standard de Liège e Young Boys. O problema seria mesmo a decisão contra o Real Madrid, que levou a melhor com a vitória por 2 a 0 em Stuttgart. Do lado merengue estavam Kopa e também Luis Carniglia no comando técnico, dois velhos conhecidos de Fontaine. Justo teve sua consolação com a artilharia do torneio, autor de dez gols, dois a mais que o brasileiro Vavá, do Atlético de Madrid.

Em 1959/60, Kopa retornou ao Stade de Reims. A linha de frente da França de 1958 poderia ser reeditada, também com Jean Vincent e Roger Piantoni, apesar da saída de René Bilard. Mais uma vez quem despontou como protagonista foi Fontaine. Os alvirrubros reconquistaram o Campeonato Francês e o centroavante novamente se sagrou como artilheiro. Justo balançou as redes 28 vezes em 28 partidas, dando a maior contribuição para uma linha ofensiva que produziu 109 gols. Seria um período no qual Fontaine também estreitou um pouco mais os laços de amizade com Kopa, outro craque com quem tinha enormes afinidades em campo e também nas ideias.
O que parecia ser o auge da carreira de Fontaine, porém, acabou interrompido de forma abrupta. O atacante de 26 anos sofreu uma fratura dupla na perna em março de 1960, durante a reta final do Campeonato Francês. Por conta disso, o craque seria um desfalque bastante sentido na primeira edição da Eurocopa, realizada meses depois em Paris. Fontaine continuou se destacando naquele ciclo depois da Copa do Mundo, com direito a 14 gols em nove partidas pela França, que incluíam tripletas diante de Portugal e da Áustria. Naquele momento, o centroavante já tinha superado Jean Nicolas como maior artilheiro dos Bleus até então. Manteria a posição por algumas décadas, até ser ultrapassado por Michel Platini nos anos 1980.
E o que parecia ser uma lesão suficientemente grave terminou por abreviar a carreira de Fontaine. O atacante disputou apenas sete partidas pelo Campeonato Francês em 1960/61, quando sofreu uma nova fratura. Também fez sua última aparição pela seleção da França, num amistoso contra a Bulgária em dezembro de 1960. Encerrou sua história pelos Bleus com absurdos 30 gols em 21 partidas. Já a temporada final da carreira de Justo aconteceu em 1961/62, quando o impacto físico das lesões que sofrera o atrapalhava enormemente. Mesmo assim, anotou cinco gols em oito partidas pelas competições nacionais, presente em seu terceiro e último título da Division 1 pelo Stade de Reims. A esta altura, quem se responsabilizava pela maior parte dos gols no comando do ataque era Hassan Akesbi, outro franco-marroquino trazido do Nîmes para substituir Fontaine.

Fontaine se despediu do futebol em julho de 1962, com apenas 28 anos. O impacto do centroavante no Campeonato Francês é inegável, com quatro títulos em nova temporadas, e por dois clubes diferentes. O centroavante totalizou 164 gols em 200 partidas pela Division 1, além dos dois troféus como artilheiro. Justo seria apontado pela revista So Foot como o 18° melhor jogador da história da liga nacional, em eleição promovida em 2022. É uma dimensão enorme, e que poderia ser maior não fosse o precoce adeus.
Não seria o fim da relação de Fontaine com o futebol, no entanto. Durante os últimos meses de carreira, enquanto se recuperava das lesões, o centroavante se envolveu bastante com um movimento fundamental no esporte francês: a criação de um sindicato para futebolistas profissionais. O grande mentor do projeto era o atacante Eugène N’Jo Léa, que havia se mudado à França para estudar e se tornou jogador profissional por prazer. O camaronês foi ídolo de Saint-Étienne e Racing de Paris, enquanto se graduava em direito em Lyon e depois fazia pós-graduação em Paris. Ao seu lado, outra figura central era o advogado Jacques Bertrand, que representava ciclistas e jornalistas esportivos. Fontaine, de qualquer maneira, possuía também uma boa base intelectual para encabeçar a iniciativa e tinha a companhia do amigo Raymond Kopa, que possuía vivência entre operários imigrantes no nordeste francês.
A União Nacional de Jogadores Profissionais surgiu em novembro de 1961, em tempos nos quais a lei do passe ainda perdurava no Campeonato Francês e os salários eram bastante baixos. A entidade serviria para pressionar por melhorias e logo teria suas primeiras vitórias, em especial numa reforma no sistema de aposentadorias. Fontaine acabou empossado como primeiro presidente da UNFP, com Kopa de vice e N’Jo Léa no cargo de secretário-geral. Justo continuou na cadeira principal até 1964, quando foi suplantado por Michel Hidalgo.

Fontaine se aventurou também como técnico e teve trabalhos relevantes. Em 1967, o ex-centroavante teve uma brevíssima passagem à frente da seleção da França, mas durou apenas duas partidas. Com duas derrotas, preferiu não ficar diante das condições ruins oferecidas. Depois, trabalhou nas estruturas do Toulouse durante a criação do clube, como observador de talentos. E a aura de Fontaine ainda serviu de marco nos primórdios do Paris Saint-Germain. O veterano comandou a equipe recém-formada de 1973 a 1976. Seria ele o responsável por conquistar o acesso inédito à Division 1, em 1974. Já existia um projeto de ambições grandiosas no Parc des Princes, apesar de passos mais modestos naqueles primeiros anos. Outros africanos, como o argelino Mustapha Dahleb e congolês François M’Pelé, eram astros em campo. A demissão de Justo, contudo, aconteceu por motivos mesquinhos: os dirigentes se incomodavam com sua proximidade com os atletas na concentração. Apesar disso, ele permanece como quinto técnico com mais partidas pelos parisienses.
Já um novo elo de Fontaine com suas origens aconteceu entre 1979 e 1981. O veterano retornou a Marrocos e assumiu o comando da seleção local. Os Leões do Atlas atravessavam um momento de transição e disputaram a Copa Africana de Nações em 1980. Fontaine, todavia, não esteve presente no torneio porque sofreu um acidente de automóvel pouco antes. De longe, soube que seus pupilos terminaram num honroso terceiro lugar. Fontaine auxiliou a preparar alguns dos destaques da geração que disputou a Copa de 1986 por Marrocos, dirigidos pelo brasileiro José Faria na ocasião. O goleiro Badou Zaki e os meias Aziz Bouderbala e Mohamed Timoumi, todos eles entre os protagonistas na campanha até as oitavas do Mundial, foram lançados na seleção adulta por Fontaine. Seria este o último trabalho do veterano como técnico, encerrado em 1981.
Desde os anos 1960, Fontaine vivia em Toulouse com a esposa. O ex-centroavante trabalhou como representante comercial da Adidas e depois abriu suas lojas de artigos esportivos, chamadas “Justo”. Também tinha duas lojas da marca Lacoste. O craque atuou pontualmente como jornalista. E, sobretudo, viveu sobre os louros de sua história. As homenagens por sua carreira costumavam ser constantes, especialmente em relação à Copa do Mundo. Fontaine seria eleito o quinto melhor jogador francês do século pela revista L’Équipe e também apareceu entre os 125 maiores jogadores dos 100 anos da Fifa, em 2004. Já em 2014, Justo esteve no Brasil para enfim receber uma Chuteira de Platina por seu recorde de gols na Copa do Mundo de 1958. A cerimônia às vésperas da abertura do Mundial contou com a presença de Ronaldo e de Michel Platini. Todo reconhecimento era justo. E eles não cessarão: a cada quatro anos, é o nome de Just Fontaine que permanece no topo dos Mundiais. Uma marca que tende a perdurar por muito tempo.




