Ligue 1

Mbappé e Real Madrid: um casamento visto como certo até pelo PSG

Com uma disputa forte de poder nos bastidores, PSG está convicto que Mbappé tem acordo com o Real Madrid e tenta negociar o jogador nesta janela, em uma corrida contra o tempo

A novela sobre o futuro de Kylian Mbappé continua como o grande assunto desta janela de transferências. Há uma disputa feroz entre o clube e o jogador e tudo indica que será preciso encontrar uma solução antes do fim do mercado de transferências, no dia 1º de setembro. Há um terceiro envolvido, o Real Madrid. O final dessa novela parece tão óbvio que até o Paris Saint-Germain sabe que é o que deve acontecer. Até por isso, trabalha em cima dessa possibilidade.

Todo o problema é que Mbappé só tem contrato até junho de 2024. Com isso, se o PSG não vender nesta janela, Mbappé pode assinar um pré-contrato com outro clube que será válido a partir do dia 1º de julho de 2024. Por isso, o PSG quer vender agora de qualquer jeito. O atacante, porém, está tranquilo e não quer sair, prefere ficar e definir o que quer em junho de 2024. E o que ele quer, ao que tudo indica, é o Real Madrid.

O PSG tem convicção que há um acordo, não assinado, entre Mbappé e Real Madrid para que ele se transfira para o clube espanhol em julho de 2024. O clube francês não é o único a acreditar nisso. Ramón Álvarez de Mon, jornalista do Marca, acredita que a transferência vai acontecer. A questão é mais quando do que se vai acontecer.

Toda essa situação não é nova. O que é novo é a postura tanto do PSG quanto de Mbappé. Em 2021, quando tudo isso começou, foi bem diferente.

Mbappé, PSG e Real Madrid: um déjà vu de 2021

Renovação de Mbappé: PSG mentiu sobre a duração do contrato (Icon Sport)

Essa é uma novela antiga. A história de Mbappé no Real Madrid é frequente desde o verão europeu de 2021. Lá, a situação era muito similar àquela que vivemos atualmente. Mbappé tinha um ano restante do seu contrato, com fim em junho de 2022. O Real Madrid bateu à porta do PSG para levar o astro francês para lá. Os franceses, porém, recusaram todas as propostas. Até mais uma que passava dos €200 milhões.

Recusar uma proposta de mais de €200 milhões por um jogador que só tem um ano de contrato restante parece absolutamente estúpido. O PSG fez isso baseado em uma experiência anterior, quando fez algo parecido quando Neymar queria sair do clube, em 2019, anunciou isso publicamente, e o clube se recusou a negociá-lo, obrigado que ele cumprisse o seu contrato. Só que há uma diferença fundamental nos dois casos: Neymar tinha contrato, na época, até 2022. Mbappé, em 2021, só tinha contrato até 2022 também.

Mbappé queria ir para o Real Madrid em 2021. É notório que ele é um fã do clube merengue, tinha pôsteres do clube espanhol e admirava Cristiano Ronaldo. O PSG exerceu o seu poder de o manter, mesmo a contragosto do jogador. Mas como o vínculo terminaria ao final da temporada, aquela força toda que o clube demonstrou imediatamente se esvaiu assim que aquela janela de transferências fechou.

Em maio de 2021, na reta final da temporada 2020/21, o PSG anunciou a renovação de contrato de Neymar. Assim, o craque não entrou no seu último ano de contrato quando a janela de transferências abriu. Com Mbappé, o PSG não conseguiu fazer o mesmo. E por isso o interesse do Real Madrid se materializou.

Depois que o PSG recusou as propostas, a esperança era conseguir renovar com o jogador. Mbappé era ainda mais importante que Neymar nesse sentido — na época, Neymar ainda era muito valorizado esportivamente, porque sempre entregou, algo que mudaria depois, menos pelo que faz em campo e mais pelo que faz fora dele. Mbappé é uma estrela jovem, francesa e nascido nas imediações de Paris, com um forte vínculo com a cidade e o clube. Renovar com ele era fundamental.

Por isso, o PSG moveu mundos e fundos (no caso, o Qatar Sports Investments, o QSI, fundo do governo catariano que dirige o clube) para renovar com Mbappé. Só que se na época da proposta do Real Madrid o poder estava nas mãos do clube, desta vez o poder estava nas mãos do jogador. Ele poderia continuar no PSG, se quisesse, mas tinha a opção de esperar o contrato acabar, ao final da temporada 2021/22, e ir para o Real Madrid logo depois, sem custos.

O PSG fez o que podia. Deu a ele um salário estratosférico, maior que qualquer jogador da Europa (algo em torno de €70 milhões por temporada) e um vínculo de apenas dois anos, até 2024, com uma opção de renovação exclusiva do jogador para 2025. Isso além de bônus financeiros robustos por conquistas. Há ainda uma influência enorme de Mbappé nas decisões esportivas do clube e o francês teria pedido um projeto melhor e era a favor da contratação de Luis Campos para a diretoria parisiense. Isso foi feito.

Clube e jogador sempre negaram que ele tivesse qualquer influência nas decisões da diretoria de futebol. E nem precisavam admitir. O ponto é que o PSG não queria desagradar o craque e, mesmo que ele não tivesse oficialmente poder de vetar ou pedir algo, ele tinha influência para fazer com que suas opiniões tivessem um imenso peso.

A temporada 2023 da novela começa com Mbappé informando ao clube, logo que saiu de férias, que não exerceria a cláusula de renovação a qual tinha direito e que aumentaria o vínculo com o PSG até 2025. Isso despertou a fúria do PSG, que quer a renovação a qualquer custo. Diante da negativa de Mbappé, quer vendê-lo e ao menos fazer dinheiro. Só que agora, quem não quer é o jogador, que prefere passar mais uma temporada no clube de Paris e sair, sem custos, em 2024 para escolher o seu destino — a essa altura, todos sabem que é o Real Madrid o destino desejado.

PSG acena com proposta de renovação e ameaça

Torcedor com a camisa d Mbappé (Icon Sport)

O PSG quer que a venda aconteça agora. Chegou a aceitar uma proposta do Al Hilal, da Arábia Saudita, pelo jogador, mas o jogador recusou. O clube tem feito movimentos para pressionar o jogador, como excluir Mbappé da excursão de pré-temporada no Japão e Coreia do Sul. Depois, excluiu o atacante dos treinamentos com o elenco principal e designou que ele trinasse com os jogadores que não fazem parte dos planos, separado dos demais.

Em meio a essa guerra toda, o PSG tentou uma renovação de contrato com o jogador. Segundo Fabrizio Romano, houve uma proposta de renovação que teria uma cláusula de rescisão de €200 milhões para 2024. Isso, porém, seria inválido, porque é proibido ter cláusulas de rescisão na França. Isso significa que a cláusula, mesmo sendo colocada no contrato, seria inválida.

Ou seja: o PSG poderia recusar uma proposta do valor da cláusula e alegar que a cláusula, por ser ilegal, é inválida. O Marca, sempre muito ligado ao Real Madrid, até chega a especular se o clube francês não estaria tentando enganar Mbappé. Considerando o quanto o jogador tem ficado atento a contratos, parece improvável que ele caísse nessa.

Eis que entra um outro aspecto importante nessa disputa. O PSG tem ameaçado, sem usar todas as palavras, que Mbappé não jogará nem um minuto. Ficará treinando separado o tempo todo. Isso é algo que pode virar contra o PSG em vários aspectos, tanto legais quanto esportivos.

A começar pelo aspecto trabalhista. Já foi feito isso com Hatem Ben Arfa, anos atrás. O clube o deixou treinando em separado e, após ação junto ao sindicato, o clube foi ameaçado e poderia ser punido. Tiveram que voltar atrás. Ao menos ele precisa ter permissão para treinar com os demais jogadores, mesmo que nunca seja escalado.

O segundo aspecto é esportivo. O PSG, sem Mbappé, necessariamente fica mais fraco. O time passará por turbulências e, especialmente na Champions League, terá duelos pesadíssimos. Um resultado ruim (ou uma série deles) pode fazer com que a pressão das arquibancadas e da crítica aumente e haja uma pressão para que o jogador volte. E aí a situação seria terrível: ele voltaria como salvador da pátria, com moral e ainda sem renovar contrato.

É bastante provável que o fim dessa novela seja mesmo Mbappé se transferindo para o Real Madrid nesta temporada. Até porque todo o controle da história está, neste momento, nas mãos de Mbappé. Ele tem um salário irreal até para o Real Madrid, com €70 milhões por temporada (Benzema ganhava cerca de metade disso no Real Madrid). Ele provavelmente aceitaria ganhar menos, mas só para o Real Madrid. Se ele quiser sair agora, pode falar com o Real Madrid para que faça uma proposta.

O único poder que o PSG tem é tentar o melhor acordo financeiro possível, tirando o máximo de dinheiro do Real Madrid. Neste momento, aquela proposta de €200 milhões é algo que não deve mais acontecer. Já se falou em algo como €80 milhões. O Real Madrid provavelmente terá muito mais poder que o PSG nessa negociação e tende a conseguir algo mais próximo ao que quer do que o PSG.

Só teremos certeza sobre essa novela quando a transferência acontecer ou quando fechar a janela de transferências, no dia 1º de setembro. O que acontecer primeiro.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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