Ligue 1

Futuro financeiro imediato da Ligue 1 em dúvida: novela sobre direitos de transmissão e discussão sobre redução salarial de jogadores

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Como se não bastasse a perda de receitas referentes às bilheterias, por conta do fechamento dos estádios em meio à pandemia, os clubes franceses atravessam uma crise inesperada devido ao fim súbito do contrato da Mediapro com a LFP (Ligue de Football Professionnel, responsável pelas duas primeiras divisões francesas) pelos direitos de transmissão. Se inicialmente parecia haver um caminho aberto para o Canal+ assumir o lote de partidas deixado pela Mediapro, diminuindo a previsão de perdas, agora a questão está completamente indefinida, e a pressão financeira imediata bate à porta.

O acordo fechado em maio de 2018 pela LFP para a transmissão da Ligue 1 e da Ligue 2 no território francês durante o período de 2020 a 2024 representou inicialmente um grande negócio. O futebol francês dava um salto de 60% em relação ao quadriênio anterior, indo de € 748,5 milhões para € 1,232 bilhão. No entanto, no meio da primeira temporada válida do acordo, devido, entre outros fatores, à crise financeira decorrente da pandemia, a sino-espanhola Mediapro, que havia comprado 80% dos lotes por mais de € 800 milhões para transmitir as partidas em seus recém-criados canais Téléfoot, deixou de pagar parcelas seguidas pelo acordo, acertou o fim da parceria e anunciou o fim próximo de seus canais.

Os clubes franceses já não viviam dias fáceis por causa da redução a zero das receitas com bilheterias, e o calote da Mediapro, que havia garantido a compra dos direitos de transmissão sem apresentar garantias, apenas cavou mais fundo o buraco.

O futebol francês olhava com ansiedade para o Canal+, que vinha mostrando as partidas do lote de 20%, na esperança de que a tradicional emissora assumisse os jogos deixados pela Mediapro. No entanto, a empresa não está com pressa de definir a situação. Pelo contrário, observando as circunstâncias atuais, se vê em posição de força na negociação e tenta estabelecer as condições das conversas.

Em entrevista ao jornal Le Figaro nesta semana, Maxime Saada, presidente do Canal+, anunciou que a empresa pretendia devolver as duas partidas por rodada a que tem direito a partir de 5 de fevereiro, data até a qual pagou pelos jogos, à LFP, para que a entidade coloque à venda o lote completo de dez jogos por jornada.

“O produto Ligue 1 se degradou completamente. A transmissão no Téléfoot reduziu fortemente a exposição da competição. Além disso, a chegada da Mediapro contribuiu para o crescimento exponencial da pirataria”, afirmou ao Figaro Saada, que, embora não tenha apresentado números, tem parte de sua ideia respaldada pelo número baixo de assinaturas coletadas pelos canais Téléfoot (apenas cerca de 600 mil) e pelo comportamento natural dos consumidores diante de mais um processo de fragmentação das transmissões.

Se o Canal+ deseja que um leilão global seja feito, a LFP tem uma leitura jurídica diferente do caso, estimando que possa apenas colocar de volta no mercado os 80% de jogos devolvidos pela Mediapro. Do ponto de vista da organizadora dos campeonatos, aceitar a ideia do Canal+ significaria angariar receitas ainda menores, já que a emissora, sublicenciando a Bein Sports, havia desembolsado € 330 milhões por 20% dos jogos, valor hoje desproporcional ao produto.

O Canal+ parece jogar com a hipótese, bem factível, de que não haverá concorrente disposto a pagar pelos 80% deixados pela Mediapro o mesmo que a tradicional emissora pagaria. A LFP então dependeria do Canal+, que iria com força nas negociações atrás do lote completo.

Em meio a isso, Maxime Saada, presidente do Canal+, reacendeu outra discussão que tem se tornado mais frequente na França: os clubes franceses precisam reavaliar o valor de seu produto, a qualidade de futebol apresentada, e pensar talvez em uma reforma para torná-lo mais atrativo. Na ânsia por um salto financeiro que a aproximasse de “concorrentes” como Bundesliga, Serie A e La Liga, a LFP acabou por aceitar um acordo possivelmente incompatível com o valor real de seu futebol, e as cifras falaram mais alto que o bom senso.

“O futebol francês ainda pode suportar um sistema de mais de 40 clubes profissionais, incluindo 20 na Ligue 1? É desejável que os clubes analisem a questão de atratividade de seu produto e aceitem fazer uma reforma. O mundo do rúgbi entendeu bem isso ao criar o Top 14, um campeonato homogêneo e atrativo”, cutucou Saada.

Após 31 de janeiro, a transmissão dos jogos pela Mediapro não está mais garantida. O acordo de ruptura do contrato entre LFP e a empresa prevê que o Téléfoot não transmita mais após essa data. Além disso, há também a ameaça de que não haja mais pagamento das parcelas do Canal+ (em conjunto com a Bein Sports) a partir de 5 de fevereiro, o que deixaria outro buraco no orçamento.

Há, então, uma pressa para definir o assunto, e, embora não eixsta data definida para um novo leilão, uma hipótese levantada internamente e revelada ao L’Équipe por fontes que não tiveram seus nomes revelados aponta para um processo acelerado, levando uma dezena de dias em vez das seis a oito semanas de costume.

Em meio a isso, para acrescentar à tormenta, Jean-Marc Mickeler, presidente da DNCG, entidade governamental responsável por fiscalizar as contas dos clubes de futebol na França, em sua última previsão, feita em 23 de dezembro, alertou os clubes da Ligue 1 para uma perda conjunta de € 800 milhões para esta temporada, enquanto o orçamento inicial apontava para déficit de € 250 milhões.

Para Mickeler, é preciso que os clubes busquem a redução de salários de seus elencos. “Sem uma redução drástica nas despesas salariais, não há sustentabilidade do modelo”, advertiu. A situação é grave ao ponto de o próprio sindicato de jogadores da França, a UNFP, sugerir aos atletas nesta semana que se sentem com seus respectivos clubes para discutir a baixa salarial, de modo a “salvar o futebol profissional, fortemente afetado pela crise atual”. Por ora, no entanto, não há indícios de alguma negociação coletiva, com o sindicato afirmando que irá acompanhar os jogadores caso a caso.

Tendo em vista a urgência imposta pelas datas, os próximos capítulos poderão se desenrolar rapidamente. Alguém terá que ceder, e o salto financeiro vislumbrado pelo futebol francês dois anos e meio atrás, um sonho que caiu por terra rapidamente, terá que esperar mais alguns anos.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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