Ligue 1

Emblema do Montpellier, Hilton atingiu uma marca inédita na França: o primeiro estrangeiro com 500 jogos pela Ligue 1

Vitorino Hilton é um monumento da Ligue 1. O brasileiro segue na ativa aos 43 anos, titular e dono da braçadeira do Montpellier. No final de semana, o veterano ainda quebrou uma marca inédita: chegou a 500 partidas pela primeira divisão do Campeonato Francês. Nunca um estrangeiro havia atingido tal número de jogos no país, com outros 21 franceses superando a barreira anteriormente. Apesar da idade, o brasiliense segue demonstrando que tem lenha para queimar e para ampliar suas marcas.

Hilton jogou na Chapecoense e no Paraná, até se transferir ao Campeonato Suíço em 2001. Passaria três anos no Servette, até iniciar sua trajetória na Ligue 1. O Bastia seria a porta de entrada ao defensor no país, vestindo a camisa do clube da Córsega por meia temporada. Já em 2004/05, o beque de 27 anos seria contratado pelo Lens. Poucos imaginariam a maneira como fincaria raízes no Francesão a partir de então.

Hilton jogou por quatro temporadas no Lens, sempre como titular. Por duas vezes, acabou eleito como um dos melhores zagueiros da liga. Ganhou projeção no clube e uma chance de defender o Olympique de Marseille em 2008/09. As portas abertas no Vélodrome também permitiram que o zagueiro conquistasse seu primeiro título da Ligue 1, em 2009/10. Entretanto, Didier Deschamps mantinha Hilton com mais frequência no banco de reservas àquela altura. Com menos espaço ainda na temporada seguinte, assinou com o Montpellier a partir de 2011/12. Construiria uma das relações mais bonitas do futebol francês ao longo da última década, sobretudo pelo momento do clube.

Logo na primeira temporada de Hilton, o Montpellier conquistou a Ligue 1 pela primeira e única vez. O título foi um dos mais surpreendentes dos últimos tempos, já que o Paris Saint-Germain havia iniciado seu alto investimento sob o comando dos xeiques. Hilton era uma referência no time, eleito pela quarta vez um dos melhores zagueiros da competição – também havia levado a condecoração em seu primeiro ano em Marselha. A equipe de René Girard era bem forte, contando com Olivier Giroud, Rémy Cabella, Mapou Yanga-Mbiwa e Younès Belhanda entre seus destaques. A maioria absoluta dos mais jovens tentariam a sorte em ligas maiores. Hilton permaneceria em La Paillade para continuar escrevendo sua história.

Pouco depois do título, em outubro de 2012, entrevistamos Hilton aqui na Trivela. E o zagueiro, então com 35 anos recém-completados, mal imaginava o que o destino ainda lhe reservaria: “Acho que, por ser zagueiro e me cuidar bem, consigo jogar em alto nível por mais dois anos. Tenho contrato até o fim desta temporada, mas se rolar alguma proposta vantajosa para mim e para o clube, podemos fazer um acordo e sair. Mas no momento estou focado em jogar a Liga dos Campeões e ajudar o Montpellier”.

A Champions foi um ponto fora da curva. O sucesso não se manteria no Montpellier e o time logo voltaria a se tornar coadjuvante na Ligue 1. Mesmo assim, Hilton se manteve firme na zaga muito além dos dois anos previstos. O zagueiro começou a desafiar o tempo, ao se aproximar dos 40 anos e não diminuir o ritmo. São dez temporadas consecutivas na zaga, em todas elas disputando pelo menos 27 das 38 rodadas da Ligue 1. A temporada retrasada, quando completou 41 anos, guardou o segundo maior número de aparições do veterano. Foram 36 partidas. E nem mesmo a pandemia faria o brasiliense mudar de ideia.

Hilton completou 43 anos em setembro. Na atual temporada, disputou 17 das 24 rodadas do Campeonato Francês. Parte de suas ausências aconteceu por suspensão, com dois cartões vermelhos recebidos. Desde o início do ano, são cinco aparições como titular e capitão. Permanece como uma parte da história viva do Montpellier, mesmo que o time cumpra uma campanha modesta no meio da tabela.

Em entrevista recente à FourFourTwo, Hilton citou Zé Roberto como uma inspiração. “Minha alimentação saudável ajuda muito. Já se passaram mais de 10 anos desde que parei de comer fast food. De tempos em tempos, como pizza ou cozinho hambúrguer em casa, mas não toquei em hambúrgueres industrializados ou outras comidas do tipo na última década, e terminei tendo bem menos lesões musculares. Também não tomo álcool. De modo geral, a mente é o principal segredo. Meu cérebro pode me levar a qualquer lugar”, afirmou. “Normalmente, os técnicos preservam os jogadores mais velhos dos treinos mais duros. Mas, na minha opinião, quanto menos você se exercita, mais sofre para manter o condicionamento. Treino ainda mais que os outros – chego antes de todos para a sessão de fortalecimento muscular, às vezes fico louco o suficiente para fazer mais em casa”.

O segundo jogador estrangeiro com mais partidas pela Ligue 1 é o argentino Delio Onnis, com 449 aparições nos anos 1970 e 1980. Hilton ainda mira o recorde de jogos pelo Montpellier na primeira divisão, que é do antigo companheiro Souleymane Camara, com 320 aparições – apenas 12 a mais que o zagueiro. A longevidade do brasileiro permite que ele amplie seus números impressionantes. Seu contrato atual foi renovado em maio e permanece em vigor até o final da temporada. Ainda assim, seu plano é seguir em frente por mais um ano. Pela fome de bola, não dá para duvidar de sua capacidade.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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