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O sentimento de vergonha é grande em Marselha. Depois de sete anos de ausência da Champions League, o Olympique de Marseille retornou à competição da qual é o único campeão francês, mas passou longe de honrar seu legado. Com mais uma derrota para o Porto, chegou a quatro revezes em quatro rodadas e está eliminado do torneio. O fracasso significativo força o OM a olhar para o espelho, recalcular seu trajeto e concentrar suas forças na Ligue 1.

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A queda por 2 a 0 para o Porto na quarta-feira (25) levou o Marseille a uma sequência de 13 derrotas na principal competição de clubes do mundo, se isolando na liderança de um ranking indesejado: o de pior sequência de derrotas na história da Liga dos Campeões, superando o Anderlecht de 2003 a 2005.

Que a volta à Champions seria um desafio duro ao OM, todos sabiam. Ainda assim, um grupo com Porto, Manchester City e Olympiacos, por mais que fosse difícil, era em teoria uma disputa abordável. No entanto, a forma humilhante como aconteceu a eliminação precoce acabou sendo uma lição pesada, uma revelação do quão distante de ser minimamente competitivo a nível continental o clube está.

A participação na Liga dos Campeões era especial ao clube por motivos esportivos, mas talvez ainda mais por questões financeiras – e são justamente elas que ajudam a entender como a equipe veio tão enfraquecida para o seu retorno à competição, incapaz de se reforçar à altura do desafio.

O Marseille é hoje uma empresa que opera no vermelho. Na temporada 2017/18, o clube fechou o balanço com déficit de € 78,5 milhões. Em 2018/19, último registro fechado, a perda foi de € 91 milhões. Já neste cenário, os Phocéens, observados de perto pela Uefa e seu fair play financeiro, foram punidos em € 3 milhões e tiveram que reservar previamente 15% de suas receitas com a Champions League 2020/21 (e 2021/22, caso se classifique novamente) ao pagamento de sanções à entidade. A situação, que já era dura, foi então piorada com a crise do Coronavírus e seus efeitos econômicos ainda a serem revelados.

Neste cenário, é imprescindível que a campanha na Ligue 1 2020/21 seja novamente de destaque, como no ano passado, para que o clube possa de novo estar na Liga dos Campeões. Para além da importância esportiva de se participar da principal competição de clubes do mundo e do peso que se classificar com frequência tem para suas pretensões nela, a presença na Champions é hoje questão de necessidade.

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Posto isso, todo o foco deve ser agora no Campeonato Francês, sem distrações. Uma reação tardia, com bons resultados nas duas rodadas finais da fase de grupos da Champions League, levando a uma classificação à Liga Europa pelo terceiro lugar da chave, seria uma forma de recuperar parte do orgulho ferido, mas, consequentemente, apresentaria também um importante desafio de gestão de elenco e prioridades com que hoje a equipe de André Villas-Boas não seria capaz de lidar.

Mesmo com toda a atenção voltada para a Ligue 1, a empreitada não será fácil. Esportivamente, a equipe ainda patina em busca de estabilidade e uma sequência significativa de boas atuações, e a situação é complicada pelo momento vivido por suas duas maiores estrelas. Dimitri Payet ainda não se reencontrou e está longe do nível de futebol que apresentou em 2019/20. Já Florian Thauvin tem contrato até o fim desta temporada, e as duas partes começaram só há pouco a negociar uma renovação. A indefinição que paira sobre sua cabeça e a possibilidade de que assine um pré-contrato com outra equipe em janeiro inevitavelmente pesam sobre o campeão do mundo.

A seu favor, Villas-Boas espera motivar seus jogadores a partir do retrospecto recente dentro do próprio Campeonato Francês. Se a campanha na Champions League tem sido um pesadelo, na Ligue 1 os Phocéens vêm de uma sequência positiva de resultados a partir da qual pode ganhar impulso para o desenrolar da temporada. Nas últimas seis partidas, foram três vitórias e três empates. O OM é o 6º colocado, com 18 pontos em nove partidas, tendo feito dois jogos a menos que os cinco clubes à sua frente. Em caso de vitórias nos encontros atrasados, chegaria teoricamente aos mesmos 24 pontos do líder PSG.

Por fim, embora este não costume ser o método dos vencedores, o Marseille pode olhar para o lado e buscar consolo no fato de que boa parte das principais equipes da França vivem temporada abaixo do esperado. O Paris Saint-Germain vê sua lista de críticos aumentar diante do nível de futebol apresentado, a sensação Rennes encalhou, já está também eliminada da Champions League e vem de seis derrotas nos últimos sete jogos por todas as competições, o Nice de Patrick Vieira vive momento ruim, com três derrotas nas últimas três partidas e início de temporada frustrante.

Mesmo aqueles que têm motivo para maior esperança por seus bons resultados recentes, Lille, Lyon e Monaco, se sustentam sobre ventos positivos que podem rapidamente mudar de direção. Cenário posto, a disputa no Francês parece aberta a qualquer um que possa se organizar, colocar a cabeça no lugar e jogar por cada resultado. Este mesmo OM, com André Villas-Boas, já fez isso muito bem no ano passado.