Ligue 1

A cidadezinha, a lenda no banco, a reviravolta: 25 anos do fantástico título do Auxerre no Campeonato Francês

Sob as ordens do longevo Guy Roux, o Auxerre tirou uma diferença de 10 pontos em relação ao PSG para ser campeão

Uma cidade do interior com 35 mil habitantes que é campeã nacional. Um treinador que passou mais de quatro décadas à frente do mesmo time, levando-o dos níveis regionais à Champions League. Um elenco inferior ao dos favoritos, que tirou dez pontos de diferença em relação ao badalado adversário da capital para ficar com a taça. Todos esses elementos, por si, já valeriam uma versão futebolística de um conto de fadas. Juntos, formam a história do Auxerre. O clube provinciano treinado pelo lendário Guy Roux (44 anos totais no comando dos alviazuis, sendo 36 deles ininterruptos) saiu de uma cidadezinha da Borgonha e escalou divisões até se tornar um dos principais da França. Apostou no trabalho e no longo prazo, até levar o maior título do país, desbancando um estrelado Paris Saint-Germain que chegou a sobrar na tabela no início do segundo turno. Tudo isso aconteceu em 1995/96, quando o AJA não se contentou apenas com o Campeonato Francês, como também conseguiu a dobradinha na Copa da França. Abaixo, os detalhes dessa epopeia incrível:

O Championship Manager da vida real

As primeiras versões de Championship Manager na França tinham estampada a face de Guy Roux na capa. Afinal, o treinador representava justamente a essência do que se busca no jogo: o comandante capaz de levar um time das divisões amadoras até a Champions League. Nesta caminhada, Roux precisou de muita paciência e de um trabalho minucioso, que incluiu um aprimoramento pessoal e uma melhora nas estruturas de seu clube. Mas ninguém nega que sua longeva carreira no Auxerre está entre as relações mais bonitas já construídas na história do futebol.

Roux assinou seu primeiro contrato com o Auxerre em 1952. Ainda era um garoto que chegava às categorias de base. Sua estreia na equipe principal aconteceu aos 16 anos, no campeonato regional da Borgonha. Não ficaria por tanto tempo no time, já que, ao completar o ensino médio, deixou os alviazuis para estudar administração de empresas e direito em outra região do país. Seguia atuando como futebolista e, já formado, trabalharia como corretor de seguros. Aos 21 anos, participou de um projeto onde pôde treinar na Inglaterra, com o Crystal Palace. Tinha um desejo do tamanho do mundo de aprender.

Sua volta ao Auxerre aconteceu em 1961, quando via um amistoso internacional do time nas arquibancadas e foi chamado para fazer a tradução de um médico francês a jogadores ingleses que tinham se machucado. Neste momento, acabou convidado para voltar ao elenco. Mas, ainda aos 23 anos, Roux não queria apenas ser jogador. Pediu também para ser o treinador, o que foi recusado. O jovem não desistiria tão cedo e elaborou um documento de seis páginas, em que apresentava seu projeto para ser o técnico dos alviazuis, explicando como conduziria os treinamentos. A carta chegou à diretoria e resolveram contratá-lo, apesar da falta de experiência, mas vendo como vantagem o salário mais baixo ao iniciante. Roux ainda precisou se ausentar por dois anos para cumprir o serviço militar, mas a partir de 1964 iniciaria a ascensão desde a quarta divisão.

Enquanto cumpria seu objetivo de dirigir o Auxerre, Roux não deixou de se aprimorar. Esteve presente na Copa de 1966 e até subornou um segurança para ver escondido um treino do Brasil na Copa de 1970. Tentava aplicar suas ideias numa equipe semi-amadora do interior da França. Não se pode negar que deu certo. Em 1970, veio o acesso inédito à terceira divisão, quando o técnico largou de vez o papel de jogador para se dedicar à prancheta. Já em 1974, ocorreu o salto para a segunda divisão. Antes de chegar à elite, Roux levou a surpreendente equipe à final da Copa da França em 1979, perdendo o título para o Nantes apenas na prorrogação. Tudo para que, em 1980, garantisse a presença dos alviazuis na primeira divisão do Campeonato Francês.

Uma decisão importante de Roux neste momento aconteceu após o vice na Copa da França. O pequeno clube embolsou uma premiação gorda, mas não quis gastar em reforços para tentar o acesso. Guy Roux pensou em longo prazo e orientou os dirigentes a montarem um centro de treinamentos moderno para a época. Assim, os alviauzis passaram a contar com uma das melhores categorias de base da França. A continuidade na primeira divisão foi garantida por esses pupilos, que surgiam e ajudavam o sucesso da equipe, antes de criarem asas. O Auxerre passou a dominar os torneios de base nos anos 1980. Mais importante, revelou ótimos talentos, incluindo nomes como Eric Cantona, Jean-Marc Ferreri, Pascal Vahirua e Basile Boli.

Se ainda não foi campeão nos anos 1980, o Auxerre ganhava importância na França. Os alviauzis se manteriam na primeira divisão, começaram a ceder jogadores à seleção e fizeram boas campanhas no Campeonato Francês. O primeiro sucesso aconteceu em 1983/84, com a terceira colocação e a classificação inédita à Copa da Uefa. A partir de então, o time de Guy Roux se estabeleceu na metade superior da tabela e se habituou com as participações continentais.

E cabe dizer que o Auxerre não era apenas um time formador, trazendo jogadores de renome. O patrocínio de Gérard Bourgoin, empresário que torcia pelo clube e passou a apoiá-lo ainda nos tempos de segunda divisão, garantia uma boa ajuda nesse sentido. Andrzej Szarmach, destaque da seleção polonesa, foi o primeiro craque internacional a chegar ainda no início dos anos 1980. O elenco também contrataria jogadores como Joël Bats, Enzo Scifo e Alain Roche. Guy Roux se aproximava dos 30 anos ininterruptos à frente do time e parecia dominar completamente o processo, tanto ao formar quanto ao adicionar bons futebolistas.

Apontando para o sucesso

Antes de conquistar o Campeonato Francês em 1995/96, o Auxerre deu algumas provas de força dentro e fora do país. Um momento marcante aos alviazuis aconteceu em 1992/93, na Copa da Uefa. O clube estava em sua sexta participação internacional e já tinha chegado longe em 1989/90, quando eliminou o Olympiacos até cair nas quartas de final, diante da Fiorentina. Porém, o barulho se tornou maior três anos depois, com os franceses semifinalistas. O grande feito aconteceu nas quartas, quando o Auxerre eliminou o Ajax de Louis van Gaal. Os Godenzonen tinham uma equipe pra lá de respeitável, que incluía Dennis Bergkamp, Marc Overmars, Edgar Davids, Frank de Boer, Jari Litmanen, Edwin van der Sar e Danny Blind. A queda aconteceu apenas contra uma forte equipe do Borussia Dortmund, já sob as ordens de Ottmar Hitzfeld, e apenas nos pênaltis.

Ainda faltava um pouco mais para o Auxerre disputar o título francês, mas o time de Guy Roux estava sempre nas cabeças. O treinador chegou a ser cotado para dirigir a seleção francesa depois da traumática queda nas Eliminatórias para a Copa de 1994, mas pressentia que algo grande estava por acontecer e ficou no clube. Em 1993/94, os alviazuis terminaram na terceira posição, na sexta campanha consecutiva entre os seis primeiros. Era difícil de competir pela taça em tempos prolíficos na Division 1 (como era chamada a Ligue 1), com muito investimento nos principais clubes e craques internacionais. Mas deu para Roux levar o merecido primeiro troféu naquela temporada, erguendo a Copa da França. O grande resultado aconteceu nas semifinais, quando o Auxerre eliminou um forte time do Nantes. Já na decisão, diante de 45 mil espectadores no Parc des Princes, o AJA não deu vez para o Montpellier. Ganhou por 3 a 0, com gols de Moussa Saïb, Gérald Baticle e Corentin Martins. Roux chegava ao topo, mas queria mais.

Dos 11 titulares na final da Copa da França, seis permaneceriam no elenco até a conquista da Division 1 em 1995/96. A temporada no meio das duas seria de entressafra e preparação ao Auxerre. O time faria uma boa campanha no Campeonato Francês de 1994/95, que rendeu a quarta colocação, mas longe de competir com o Nantes – que registrou naquele momento um dos melhores desempenhos da história da liga, com uma mísera derrota. Já na Recopa Europeia, o AJA bateria de novo nas quartas de final. Chegou a eliminar Dinamo Zagreb e Besiktas, mas não suportou a concorrência do Arsenal, campeão anterior.

O Auxerre, todavia, encarou um período de reformulação ao final daquela temporada de 1994/95. Alguns jogadores notáveis do clube buscaram novos rumos. Gérald Baticle foi artilheiro da Copa da Uefa em 1992/93 e também da Copa da França em 1993/94, mas arrumou as malas para o Strasbourg. Frank Verlaat era uma liderança na zaga e aceitou uma proposta do Stuttgart. Stéphane Mahé também despontava no setor e arrumou as malas para o Paris Saint-Germain. O ponta Pascal Vahirua tinha disputado até Eurocopa como jogador do clube e, depois de nove temporadas como titular, seguiu ao Caen ao lado do volante Raphaël Guerreiro, outro protagonista de longa data. Já a saída mais significativa foi do goleiro Bruno Martini, que já vinha frequentando a reserva, mas era considerado um dos melhores de sua geração e foi essencial ao sucesso do AJA na Division 1. Arqueiro da França em duas Euros, assumiria a titularidade do Montpellier.

Blanc e Martins

Mas não que Guy Roux tenha ficado parado no mercado. O Auxerre já vinha se reforçando bem desde as temporadas anteriores. Um nove relevante a chegar em 1993/94, ainda que para ser reserva, foi um garoto nigeriano (depois provado que nem era tão garoto assim) pinçado junto ao Julius Berger de seu país: o zagueiro Taribo West. Depois, em 1994/95, o melhor negócio dos alviazuis foi Sabri Lamouchi, meio-campista muito versátil que defendia o pequeno Olympique Alès. De qualquer forma, os negócios de maior peso aconteceram mesmo depois da debandada em 1995/96.

Para o ataque, o Auxerre ganhou Stéphane Guivarc’h, que havia sido artilheiro da terceirona e da segundona em anos consecutivos com o Guingamp. Mas, embora presente na Copa de 1998, o centroavante estava longe de ser comparado ao outro acerto do AJA: ninguém menos que Laurent Blanc. Àquela altura, o zagueiro já era um dos jogadores de maior prestígio da França. Surgiu fazendo barulho no Montpellier, chegou a passar pelo Napoli pós-Maradona e depois ficaria no Saint-Étienne. Também era um nome constante nas convocações da seleção, mesmo que marcado pela queda nas Eliminatórias de 1994. E, querendo dar uma repaginada na carreira, o craque aceitou o convite para defender os alviazuis por uma temporada de empréstimo.

Guy Roux foi até o centro de treinamentos do Saint-Étienne para convencer Blanc do negócio. Não precisou de muito tempo para fazer o zagueiro abraçar o projeto e, na mesma noite, ele já estava em Auxerre para assinar o vínculo. Aos 30 anos, seria uma liderança clara aos alviazuis, não apenas pela experiência, mas também pela excelente capacidade técnica. Era o mais velho de um elenco na casa de seus 25 anos, com muitos atletas criados nas próprias categorias de base.

A formação clássica daquele Auxerre começava com Laurent Charbonnier, prata da casa que havia tomado a posição de Bruno Martini no gol. Fabien Cool, goleiro que precisaria assumir a posição durante uma lesão do titular, também era cria da casa. A defesa tinha Blanc acompanhado por Franck Silvestre no miolo, trazido do Sochaux e outro com histórico na seleção. West ficava como opção no banco, participando sobretudo quando Blanc esteve lesionado. Já as laterais confiavam nos pratas da casa Alain Goma e Franck Rabarivony.

O álbum do Auxerre (Foto: Old School Panini)

O setor mais forte daquele Auxerre era o meio-campo. O trio principal parecia se entender por telepatia, com muita fluidez e dinâmica até para trocar posições. Sabri Lamouchi aparecia na cabeça de área, com o argelino Moussa Saïb auxiliando na ligação e Corentin Martins no papel de armador. Trazido do Brest, o capitão Martins tinha prestígio inclusive na seleção. Foi ele quem vestia a 10 e deu lugar a Zinédine Zidane na estreia da lenda pelos Bleus, em 1994. Philippe Violeau era quem se revezava como principal reserva no setor, presente na maioria dos jogos. Já na frente, Christophe Cocard caía pela direita e Bernard Diomède era um tormento pela esquerda, ponta de 21 anos que surgiu na base e logo tomaria o posto de Vahirua. Guivarc’h até foi trazido para servir como homem de referência, mas, diante das muitas lesões, a titularidade ficou mais com Lilian Laslandes, centroavante mais participativo que havia chegado de um clube amador em 1992.

Guy Roux costumava ser um fiel utilizador do 4-3-3, praticante de um futebol que assimilava muitas das lições absorvidas em suas análises das principais equipes do mundo – sobretudo do Ajax. O treinador costumava imprimir um ritmo forte e apostar nas ultrapassagens. Os pontas tinham um papel central no estilo de jogo, assim como os meias que se aproximavam da linha de frente e aproveitavam os espaços. Além do mais, a chegada de Blanc potencializava a capacidade nos lançamentos, dada a qualidade técnica do zagueiro.

Outra parte essencial do trabalho estava na preparação física, algo muito exigido por Roux. O time costumava passar a pré-temporada nas montanhas para ganhar fôlego. Tal virtude seria importante em 1995/96, até pela forma como o Auxerre engrenou na reta final. Já na defesa, diante da preferência de Roux por uma marcação individual, tal potência física também se tornava essencial. Blanc era exatamente o líbero na sobra. Há um episódio emblemático contra o PSG, quando West perseguiu tanto Raí que o acompanhou à lateral do campo no momento em que o brasileiro estava sendo substituído.

A concorrência na Ligue 1

O Auxerre contava com uma equipe de respeito, principalmente com a adição de Blanc. Guy Roux, ainda assim, mantinha o discurso antes da temporada de que seu objetivo era garantir mais um ano na elite do Campeonato Francês. Podia soar como modéstia exagerada do treinador, mas também não dava para colocar o AJA no primeiro pote de favoritos. O futebol local vivia uma era dourada, de muitos talentos à disposição e impacto além das fronteiras. O Olympique de Marseille era uma ausência notável, na segunda divisão após a punição por manipulação de resultado. Mas vale lembrar que, em 1995/96, três times franceses fizeram ótimas campanhas nas copas europeias: o PSG conquistou a Recopa, o Bordeaux foi vice da Copa da Uefa e o Nantes chegou às semifinais da Champions.

O time a ser batido era mesmo o Paris Saint-Germain. Treinado por Luis Fernández, o campeão de 1993/94 vinha de uma semifinal de Champions em 1994/95. David Ginola e George Weah tinham saído, mas ainda havia uma constelação liderada por Raí. Bernard Lama, Bruno N’Gotty e Paul Le Guen eram outras referências do período. E os parisienses tinham se reforçado bastante. Tiraram Patrice Loko do Nantes, artilheiro do campeonato anterior, assim como buscaram Youri Djorkaeff no Monaco. Já o ataque ganhava Julio César Dely Valdés, contratado junto ao Cagliari.

Campeão no ano anterior, o Nantes precisava lidar com as saídas de Loko e também de Christian Karembeu. Ainda assim, o histórico técnico Coco Suaudeau mantinha outras referências do título anterior. Os talentos se concentravam sobretudo do meio para frente, com as presenças de Claude Makélélé, Reynald Pedros e Japhet N’Doram. Vice em 1994/95, o Lyon tentaria manter a toada sob as ordens de Guy Stéphan. Pascal Olmeta e Marcelo Dijan eram jogadores importantes, enquanto o ataque via estourar Ludovic Giuly e o artilheiro Florian Maurice.

O lendário Guy Roux

O Monaco tinha uma equipe forte, especialmente ao aproveitar os espólios do Olympique de Marseille. Do timaço celeste do início dos anos 1990 vieram Fabien Barthez, Basile Boli, Éric Di Meco e Sonny Anderson. Enzo Scifo era o armador alvirrubro, enquanto Lilian Thuram e Emmanuel Petit firmavam suas carreiras. O ataque ainda via surgir um prodígio chamado Thierry Henry, aos 17 anos. O Bordeaux não faria uma boa campanha, mas merecia muito respeito no papel, a começar por Zinédine Zidane. Trazia ainda Bixent Lizarazu, Richard Witschge e Christophe Dugarry.

E ainda havia equipes médias que davam um caldo, num nível parecido com o Auxerre. A sensação do período foi o Metz, que chegou a liderar no início da temporada. A qualidade se concentrava na dupla formada por Robert Pirès e Cyrille Pouget. Aquele time ainda reunia um trio camaronês composto por Patrick M’Boma, Rigobert Song e Jacques Songo’o. O Lens era outro em bons tempos, com Tony Vairelles, Titi Camara e Marc-Vivien Foé. O Rennes tinha Sylvain Wiltord, o Bastia contava com o artilheiro Anto Drobnjak, o Montpellier trazia Laurent Robert, o Strasbourg era orquestrado por Aleksandr Mostovoi e possuía Frank Lebouef na zaga. Tradicional formador, o Cannes reunia Patrick Vieira e Johan Micoud. Até o Saint-Étienne que cairia depois trazia valores, como Grégory Coupet e Willy Sagnol. Em tempos anteriores à Lei Bosman, boa parte dos talentos locais seguia no país.

Um começo que não inspirava

Se o velho Guy Roux dizia que o Auxerre não era candidato, talvez tivesse mesmo uma ponta de razão. O início dos alviazuis no Campeonato Francês foi ruim. Não que a tabela ajudasse muito. Logo na estreia, o AJA pegou ninguém menos que o campeão Nantes fora de casa. Deu a lógica, com a vitória dos Canários por 1 a 0 no Estádio de la Beaujoire. O Auxerre ganhou a primeira na segunda rodada, goleando por 4 a 0 o recém-promovido Gueugnon. Silvestre, Guivarc’h, Martins e o substituto Abdelhafid Tasfaout anotaram os gols. E o resultado da terceira rodada foi razoável, um 2 a 2 contra o Monaco no principado, com Guivarc’h e Saïb buscando o empate no segundo tempo após os alvirrubros abrirem dois tentos de vantagem. Todavia, os alviazuis depois perderiam em casa para o Lens por 1 a 0 e na visita ao Montpellier por 3 a 1. Depois de cinco rodadas, com apenas quatro pontos, o time aparecia somente uma posição acima da zona de rebaixamento.

O Auxerre deu uma guinada a partir da sexta rodada. Então, logo mostrou que poderia mesmo manter seu alto nível de desempenho das temporadas anteriores. A boa sequência começou com goleada, 5 a 1 sobre o Cannes no Estádio de l’Abbé-Deschamps. Laslandes foi o destaque com dois gols, num placar que só se alargou com três tentos depois dos 37 do segundo tempo. Depois, 4 a 0 em cima do Le Havre. Tasfaout garantiu o 1 a 0 em cima do Strasbourg, assim como Diomède buscou o 1 a 0 contra o Lyon em Gerland. A quinta vitória consecutiva foi de virada, por 2 a 1, na visita do Rennes a l’Abbé-Deschamps. Neste momento, o AJA somava 19 pontos e subia à terceira colocação, tentando se aproximar dos líderes PSG e Metz.

A sorte até pareceu bater à porta do Auxerre, com a visita ao Metz na rodada seguinte. Porém, o time de Guy Roux não aproveitou a oportunidade. Pelo contrário, perdeu por 3 a 1 já na reta final do duelo e permitiu que os aurirrubros assumissem a primeira colocação. O AJA até se recuperou, batendo em sequência o Martigues por 2 a 1 (com um golaço de Lamouchi no final) e o Nice por 3 a 1. Mas um novo baque ocorreu no 14° compromisso, a visita ao Parc des Princes para pegar o PSG. Os alviazuis até entraram em campo à frente na tabela, ocupando o terceiro lugar. Acabaram perdendo por 3 a 1, com Raí comandando o triunfo. “Tomamos uma lição de futebol. Por 30 minutos, não vimos a bola”, diria Roux.

O final de outubro foi um dos momentos mais difíceis para o Auxerre na temporada. A equipe também perdeu o jogo seguinte, em casa, contra um Lille que lutava contra o rebaixamento. E depois veria a eliminação contra o Nottingham Forest na segunda fase da Copa da Uefa. Após superar os noruegueses do Viking, o AJA teria um desafio bem mais duro contra os ingleses, treinados na época por Frank Clark. A derrota por 1 a 0 dentro do Estádio de l’Abbé-Deschamps na ida foi a mais dolorosa. O Auxerre finalizou 26 vezes e ainda foi prejudicado pelo árbitro Pierluigi Collina, que não validou um gol legal. Já na visita ao Forest em City Ground, o empate por 0 a 0 se tornou suficiente para a classificação dos alvirrubros. Neste momento, os alviazuis mergulhariam de cabeça em sua campanha no Francesão, no qual apareciam sete pontos atrás do Metz.

O final do primeiro turno guardou uma boa sequência ao Auxerre. Começou com a vitória por 1 a 0 na visita ao Bordeaux, gol de Saïb. Depois os alviazuis também venceram o Bastia por 3 a 0, com dois de Laslandes. Mas nada comparado aos 5 a 0 pra cima do Saint-Étienne, em pleno Geoffroy-Guichard, onde o AJA nunca tinha vencido um jogo. Tudo bem que os Verdes depois cairiam, mas aquele foi um show particular de Corentin Martins, com um gol e duas assistências. Cocard e Laslandes foram outros destaques do atropelamento. Enquanto o Auxerre pegava o elevador, o Metz atravessava uma fase ruim e acabava ultrapassado pelos alviazuis na vice-liderança. A ponta agora era do PSG, dono do melhor elenco do campeonato, quatro pontos à frente dos interioranos.

A empolgação do Auxerre, todavia, logo acabaria contida. O time foi surpreendido pelo Guingamp em casa e perdeu na última rodada do primeiro turno. Segundo as palavras de Guy Roux, aquele jogo “marcava os limites” de seu time. Depois, empatou com o fraco Gueugnon, antes de perder em casa para o Monaco e empatar fora com o Lens.  A sequência de quatro rodadas sem vencer indicava certa irregularidade, dando a impressão de que os comandados de Guy Roux não teriam fôlego para pensar em título. Afinal, o PSG nadava de braçada e pegava embalo na ponta.

Naquele momento, ocorreu a pausa de inverno. Os parisienses lideravam com uma vantagem de seis pontos sobre o Lens, novo segundo colocado. Já o Auxerre caía à quarta colocação, com dez pontos a menos. Até já surgia um discurso de que o troféu ia ao Parc des Princes, reforçado por declarações soberbas dos próprios jogadores. A sequência invicta do clube da capital durava 11 rodadas, com apenas duas derrotas após 22 compromissos. Nem todos botavam sua mão no fogo, ainda assim. Coco Suaudeau, o treinador campeão com o Nantes no ano anterior, tomou de 5 a 0 no Parc des Princes em dezembro. Apesar disso, foi profético: “Antes do campeonato, disse que o Nantes abriu uma brecha e que o Auxerre poderia ser o sucessor. Não estou dizendo que eles podem ser campeões, mas é o único time que pode bater o PSG no fim. O meio-campo de Guy Roux é uma joia, não tem equivalente na França”.

A vitória mais simbólica

Não é que o clima do PSG estivesse tão bom neste momento, apesar de tudo. O técnico Luis Fernández indicava sua intenção de sair do clube ao final da temporada e havia uma faísca surgindo na capital. E enquanto os líderes perdiam fôlego na retomada, o Auxerre demonstrava mais regularidade na volta ao campeonato em janeiro de 1996. Pra começar o ano bem, foram três vitórias por 1 a 0, sobre Montpellier, Cannes e Le Havre. A eliminação na Copa da Liga diante do Monaco parecia não pesar tanto. Depois disso, o AJA perdeu para o Strasbourg (gol do velho ídolo Baticle), derrotou o Lyon e caiu para o Rennes. Mesmo as oscilações não eram tão preocupantes, num momento em que o PSG vinha em queda livre e só tinha vencido um dos sete jogos anteriores, com três derrotas consecutivas.

Faltando mais dez rodadas, o Auxerre aparecia na terceira colocação, com 48 pontos, mas a situação era bastante aberta. O PSG mantinha a liderança com 51, enquanto o Monaco somava 49. O Metz estava na briga com 48, assim como Lens e Montpellier com 46. Uma injeção de confiança sobre o AJA aconteceu na Copa da França. Primeiro eliminou o Lyon, com uma vitória inacreditável por 1 a 0, considerando que os Gones carimbaram a trave cinco vezes – três no mesmo lance. Depois, despachou o Le Mans, até pegar exatamente o PSG nas oitavas de final. Dentro de l’Abbé-Deschamps, os alviazuis se impuseram contra um rival que dava sinais de desgaste, ganhando por 3 a 1. Laslandes fez dois, enquanto Lamouchi completou a contagem. Uma expulsão dos parisienses antes de meia hora também ajudou. O resultado era uma motivação a mais para que o time de Guy Roux pegasse embalo antes da reta final da Division 1.

O retorno ao Campeonato Francês seria importante, com o confronto direto contra o Metz em l’Abbé-Deschamps. O empate por 0 a 0 não foi o resultado dos sonhos, mas pelo menos mantinha o AJA no bolo. Para ajudar, o time pegou logo após o lanterna Martigues e goleou por 4 a 0, com uma tripleta de Martins. Depois também venceu o Nice por 3 a 1, fora de casa. Tal resultado alçou o Auxerre para a segunda colocação. Até que acontecesse o confronto direto com o PSG dentro de l’Abbé-Deschamps.

O PSG entrou na rodada com 60 pontos, cinco a mais que o Auxerre. Monaco, Lens e Metz seguiam na corrida, mas mais distantes. Um triunfo dos parisienses teria muito peso neste momento. Não foi o que se viu na Borgonha. O AJA protagonizou seu resultado mais emblemático naquele campeonato. Bateu os líderes por 3 a 0, sem piedade. Foi uma senhora atuação ofensiva dos alviazuis, que não se intimidaram com as estrelas do outro lado. Diomède foi o personagem do jogo, infernizando o garoto Cédric Pardeilhan na lateral direita, uma escolha emergencial de Luis Fernández por causa dos desfalques. Aos 44, o ponta esquerda abriu o placar. O segundo gol veio aos 15 do segundo tempo, com Martins. Por fim, a pá de cal surgiu num gol contra de Patrick Colleter. Roux, ainda assim, mantinha um discurso contido: “Logicamente pensamos no título, mas nossa tabela é bem mais difícil. Para conseguir, dependemos de um fracasso do PSG e não acredito que isso vá acontecer”.

A ultrapassagem ainda não ocorreu com aquele triunfo, mas era questão de tempo. Dois pontos atrás dos líderes, o Auxerre pegou o ameaçado Lille fora de casa. Goleou por 4 a 0, com dois de Martins e dois de Lamouchi. Enquanto isso, o PSG se complicou no Parc des Princes ao perder do Metz por 3 a 2. Pirès deu sua forcinha, ao anotar dois gols. Neste momento, o AJA tomava a primeira colocação do Paris Saint-Germain, para não sair mais. O time de Guy Roux consolidou a posição na partida seguinte, ao ganhar do Bordeaux por 2 a 0 em l’Abbé-Deschamps, tentos de Blanc e do iluminado Martins.

A dobradinha se desenha

Se tudo parecia dar certo para o Auxerre no Campeonato Francês, o time também dava passos firmes na Copa da França. Nas quartas de final, bateu o Valence por 2 a 0. Depois, na semifinal, pegaria outro adversário da segundona – mas, este, muito mais tradicional: o Olympique de Marseille. Os celestes encaravam um momento de reconstrução após o escândalo de manipulação de resultados e a saída de Bernard Tapie, mas ainda reuniam jogadores renomados do porte de Tony Cascarino, Manuel Amoros e Bernard Casoni. A visita do AJA ao Vélodrome aconteceu exatamente depois do triunfo sobre o Bordeaux.

Não seria um jogo fácil na Provença. O empate sem gols prevaleceu durante os 90 minutos e se seguiu durante boa parte da prorrogação. A dois minutos do fim, Lamouchi até parecia garantir a classificação do Auxerre, mas o Olympique empatou nos acréscimos com Bernard Ferrer. O placar de 1 a 1 levava a decisão aos pênaltis. Então, pesaria a eficiência dos representantes da Division 1, ganhando na marca da cal por 3 a 1, com Charbonnier defendendo o tiro decisivo de Cascarino. Na final, Guy Roux tentaria barrar um conto de fadas do outro lado, já que o adversário seria o Nîmes, que corria riscos de rebaixamento na terceira divisão.

Aquela semifinal, aliás, serviu para deixar em evidência o “mascote” do Auxerre naquela temporada: ninguém menos que Gérard Depardieu, o ator mais famoso da França na época. O astro era amigo de Gérard Bourgoin, o patrocinador do clube. Assim, tinha passe livre para os vestiários e eventos dos alviazuis. “De início, ficamos todos surpresos com Depardieu. Ele tinha uma aura extraordinária, vinha principalmente depois dos jogos. Foi uma força motriz, nos motivava à sua maneira, pagando bebidas. Guy Roux estava com medo de perdermos um pouco o controle e não gostava muito das noitadas. Mas, como era supersticioso e tínhamos bons resultados quando Gérard aparecia, ele deixou passar”, contaria o ponta Christophe Cocard, em entrevista à SoFoot.

Corentin Martins e o troféu da Copa da França

Antes de pensar na final da Copa da França, o Auxerre ainda precisava manter a concentração no Campeonato Francês. Faltavam apenas mais quatro rodadas para o fim da competição. O retorno não foi tão tranquilo, com o empate por 1 a 1 contra o Bastia na Córsega. O Paris Saint-Germain pegava em casa o lanterna Martigues e tinha sinal verde para recuperar a ponta. Contudo, ajudou os líderes e fracassou com o empate por 0 a 0. O PSG ruía. Luis Fernández confirmava sua saída ao final da temporada, jogadores eram barrados por indisciplina e outros ocupavam o departamento médico.

Na sequência, o Auxerre se reencontrou com o Saint-Étienne em l’Abbé-Deschamps. Neste momento, o AJA colocou uma mão na taça. Diomède e Laslandes garantiram o triunfo por 2 a 0, enquanto o antepenúltimo Lille também aumentava a derrocada do PSG ao ganhar por 1 a 0. O time de Guy Roux aumentava a diferença na dianteira para três pontos e os favoritos até caíram à terceira colocação, ultrapassados pelo Metz. Então, veio a final da Copa da França contra o Nîmes.

Dois anos depois, o Auxerre voltava ao Parc des Princes para tentar levar um título nacional. Guy Roux pôde escalar força máxima, mas era importante não se descuidar de um adversário que não tinha peso sobre os ombros e havia eliminado Saint-Étienne, Strasbourg e Montpellier. O Nîmes até encerrou o primeiro tempo em vantagem, quando Omar Belbey abriu o placar. Porém, o AJA fez valer sua capacidade na segunda etapa. Blanc buscou o empate aos sete minutos do segundo tempo. Já o gol da vitória por 2 a 1, o do título, surgiu aos 43. Laslandes terminou como herói, numa cabeçada certeira. Na cerimônia de premiação, Guy Roux protagonizou um gesto belíssimo ao convidar Pierre Barlaguet, o treinador derrotado, para também levantar o troféu.

A história depois daquela final, aliás, é anedótica. O patrocinador do Auxerre havia armado uma festa no salão principal do Gran Trianon, palácio de Louis XIV nas proximidades de Versalhes. Guy Roux permitiria que os jogadores aproveitassem, mas deu hora marcada no começo da madrugada para todos voltarem. “O título ainda está em jogo, então celebraremos no dia do título”, dizia. E o treinador protagonizou uma de suas histórias mais famosas, exatamente no Gran Trianon.

Quando bateu o horário, Roux garantiu que todos fossem dormir. Ficou na porta do palácio até as cinco da manhã, para verificar se ninguém retornaria. O técnico tinha um estilo superprotetor e bonachão, mas também com pitadas autoritárias. Reza a lenda que na Borgonha existia uma rede de informantes para garantir que seus atletas não exagerariam nas noitadas e ele até anotava a quilometragem de seus carros. Roux também pregava peças nos times que visitavam l’Abbé-Deschamps, do tipo que desligava a calefação dos vestiários no inverno e ligava o aquecedor no verão. Os episódios de superstição também são conhecidos – colhia uma flor amarela em todos os dias de jogos. Mas Roux, sobretudo, era uma figura querida pelo ar paternal e pela forma como conseguia desenvolver seus pupilos, muito didático em seus ensinamentos.

O Campeonato Francês é azul e branco

Afastando-se do título, o PSG teve um consolo e tanto na Recopa Europeia. Os parisienses vinham em grande campanha no torneio continental, eliminando adversários fortes como Parma e Deportivo de La Coruña. E a decisão, antes da penúltima rodada do Campeonato Francês, permitiu que os parisienses levassem um inédito troféu continental ao derrotarem o Rapid Viena por 1 a 0 no Estádio Rei Balduíno. Retornariam à Division 1 de ressaca, pegando um Bordeaux precisando dos pontos para se afastar de vez dos riscos de rebaixamento.

O Auxerre entrou na penúltima rodada já podendo ser campeão. E, com a combinação de resultados, nem precisou vencer seu compromisso contra o Guingamp fora de casa. O empate por 1 a 1, com gol de Diomède para abrir o placar, bastou. A festa, ainda assim, seria permitida com a ajuda de terceiros. O PSG empatou por 2 a 2 na visita ao Bordeaux, enquanto o Metz perdeu para o Nantes por 1 a 0. Auxerre, definitivamente, se tornava o novo epicentro do Campeonato Francês. Uma cidadezinha com menos de 40 mil habitantes dominava a temporada do futebol local. A epopeia de Guy Roux em seu Championship Manager da vida real estava completa.

“Nós tínhamos rádios no banco neste jogo. Cinco segundo depois do apito final, vejo à minha direita Gérard Bourgoin (o patrocinador do clube) explodindo de alegria. Estava esperando, queria ouvir por mim mesmo, queria ouvir o resultado do Paris. Ali me regozijo, saio ao campo em disparada. Creio que, neste momento, inclusive Usain Bolt teria me visto pelas costas”, contaria Roux, em entrevista ao jornal L’Yonne Républicaine, tempos depois. “Creio que o êxito do Auxerre foi um triunfo da paciência. Nunca houve uma questão de mudança drástica ou de ganhar o campeonato a qualquer preço. Pudemos esperar nosso momento, sem botar em perigo todo o esforço, e o que aconteceu compensou o que não tivemos no passado”..

Ainda havia o jogo da comemoração na última rodada. O Auxerre recebeu o Nantes, num encontro que praticamente representava a passagem de coroa. Mais de 20 mil torcedores se espremeram no Estádio de l’Abbé-Deschamps, no que era um recorde de público ao local. Os jogadores pintaram o cabelo de azul e branco para a celebração. Guy Roux preferiu ficar nas arquibancadas e homenagear o assistente Dominique Cuperly com o comando na ocasião.

Em campo, o show esteve completo com o triunfo por 2 a 1. Ainda que os Canários tenham aberto o placar, Diomède empatou e o capitão Martins selou sua temporada fantástica com o tento definitivo aos 45 do segundo tempo. A apoteose ocorria no desfecho de uma história um tanto quanto improvável, que uma realidade mais aberta do Campeonato Francês permitia. O AJA fechou a liga com 72 pontos, quatro a mais que PSG e Monaco. O Metz, a outra surpresa daquele ano, terminou em quarto. Detalhe ainda que o AJA registrou o melhor ataque (66 gols marcados) e a melhor defesa (30 gols sofridos), além de ser o melhor mandante e o melhor visitante. Mesmo que a taça tenha dependido de uma arrancada no segundo turno, não se negavam os méritos dos campeões.

“Ser campeão com um clube pequeno, um clube de camponeses, é grandioso. Eu me lembro da loucura, uma comunhão na cidade. Foi legal esnobar os clubes ricos. Aquela temporada culminou uma jornada longa do nosso elenco. Jogávamos pelo clube, não ligávamos para o dinheiro. Ficávamos de seis a sete anos no mesmo time, então as coisas aconteciam de forma automática em campo, o que nos fez competir com PSG, Monaco, Bordeaux ou Nantes. Foi um bom momento com amigos”, contou Cocard, à SoFoot. “Não sofríamos a mesma pressão de outros times. Em 1994, conseguimos o primeiro troféu, a Copa da França, depois continuamos. Para uma cidade daquele tamanho, era lindo. Nós éramos acessíveis, nos misturávamos com os locais”

O Auxerre não conseguiria preservar seu elenco para a temporada seguinte. Blanc era uma perda imaginada e, mesmo que o Saint-Étienne tivesse sido rebaixado, saiu para o Barcelona ao término de seu empréstimo. Martins também aproveitou seu sucesso para assinar com o Deportivo de La Coruña, onde não provocaria o mesmo impacto. Cocard seguiu ao Lyon, enquanto Guivarc’h foi cedido por empréstimo ao Rennes, antes de retornar. Nomes como Steve Marlet, Antoine Sibierski e Ned Zelic até chegaram, mas o AJA passou longe de repetir o desempenho no Campeonato Francês e terminou na nona colocação.

Pelo menos deu para fazer um bom papel na Champions League. O Auxerre se classificou num grupo duro, que também contava com Ajax, Rangers e Grasshopper. Os franceses ganharam os três compromissos fora, inclusive em Ibrox e na Johan Cruyff Arena, o que rendeu a liderança da chave à frente dos Godenzonen. Nas quartas de final, porém, o Borussia Dortmund reapareceu no caminho. O time de Ottmar Hitzfeld estava ainda melhor do que quatro anos antes e venceu os dois jogos, encerrando a participação dos alviazuis, antes de ser campeão continental naquela temporada.

O Auxerre do jogo do final

Aos poucos, outros destaques deixaram o Estádio de l’Abbé-Deschamps. West foi para a Inter, Saïb assinou com o Valencia, Laslandes seguiu ao Bordeaux, Guivarc’h parou no Newcastle, Lamouchi virou atleta do Monaco, Charbonnier chegou ao Rangers, Goma se mudou ao PSG, Diomède se transferiu ao Liverpool. Se havia um orgulho ao Auxerre naquele momento, era seu reflexo na seleção. Blanc, Lamouchi e Martins foram os representantes alviazuis na Euro 1996. Já a Copa de 1998 incluiu Charbonnier, Diomède e Guivarc’h como campeões do mundo. Guy Roux poderia fazer o mesmo caminho, ao ser convidado para substituir Aimé Jacquet após o título mundial. A diretoria, desta vez, não permitiu que o treinador seguisse sua vontade e não o liberou.

Com o time caindo à metade da tabela após perder seus protagonistas, Guy Roux deixou o Auxerre em 2000, anunciando sua aposentadoria. Queria descansar e passou o bastão a Daniel Rolland, que o acompanhou durante quase todo o período como técnico do segundo quadro. Todavia, seu retorno aconteceu já em 2001/02. Roux levou o AJA a uma nova terceira colocação naquela edição da Division 1, restabelecendo o time na metade de cima da tabela. Além disso, conquistou mais dois troféus da Copa da França em 2003 e 2005. Era mais que suficiente para sua despedida definitiva em 2005, ainda revelando jogadores como Philippe Mexès, Olivier Kapo, Djibril Cissé e Bacary Sagna. Aos 66 anos, encerraria sua história na casamata, com tempo ainda a uma rápida e frustrada passagem pelo Lens que durou dois meses.

Guy Roux ainda continuou nos corredores do Auxerre, nos papéis de vice-presidente e de consultor das categorias de base. Os alviazuis, no entanto, nunca mais desfrutariam o mesmo sucesso. Até ficaram na terceira colocação da rebatizada Ligue 1 em 2009/10. Contudo, foram rebaixados em 2011/12 e nunca mais saíram da Ligue 2. A segundona parece mais condizente ao tamanho da agremiação. Tal ausência na elite até valoriza o que fez Guy Roux naquela cidadezinha, ao colocá-la no mapa do futebol europeu e desfrutar os maiores títulos na França. É um dos grandes contos de fadas boleiros.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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