França

A Ligue 1 é tão fraca como diz John Textor?

Dono do Botafogo e do Lyon criticou a competitividade da elite do futebol francês em ataque à Ligue 1

John Textor, responsável máximo pela administração do Botafogo e também do Lyon da França, criticou a competitividade da Ligue 1, que corresponde à elite do futebol francês. Na última quinta-feira, o empresário esteve presente no “Business of Football Summit”, evento organizado pelo jornal britânico Financial Times, em Londres e expressou sua indignação em relação à falta de competitividade do Campeonato Francês, que há muito tempo, conta com a hegemonia do Paris Saint-Germain.

Segundo John Textor, a Ligue 1 sempre terá o mesmo vencedor enquanto nada for feito para mudar o patamar dos demais clubes, que brigarão sempre pelo segundo lugar. Na visão do empresário norte-americano, isso tirará o interesse do público, seja para ir ao estádio acompanhar os jogos, ou mesmo pela televisão, já que o PSG, por conta do poderio financeiro que tem, sempre estará à frente dos adversários, diminuindo a capacidade competitiva da competição.

“Todos estão lutando pelo segundo lugar, é o mesmo time que vence todos os anos. Outros clubes estão competindo com o governo, não com uma empresa privada. Eu pergunto ao Nasser  (presidente do PSG): “Alguém está se divertindo? Por que você gosta disso?”, indagou Textor durante o evento.

Levantamento aponta que Ligue 1 é a quarta mais valiosa do mundo

No início da temporada, a Pluri Consultoria, em parceria com o Lance!Biz publicou um levantamento curioso a respeito do valor de mercado das principais ligas da Europa. A Ligue 1 é a quinta mais valiosa do mundo, com um valor de mercado na casa dos 3,57  bilhões de euros. A Premier League é a soberana do ranking, com mais de 10 bilhões de euros em valor de mercado. Contudo, as quatro demais ligas que estão à frente da elite do futebol francês não estão muito longe em termos financeiros.

A segunda liga mais valiosa do mundo segundo o levantamento é a La Liga, com 4,68 bilhões, seguida pela Serie A, com 4,53 bilhões e pela Bundesliga, com 4,11 bilhões. Ou seja, a distância da Ligue 1 para a elite do futebol espanhol em termos de valor de mercado é de 1,1 bilhão de euros, o que não é uma distância tão grande quando comparada à Premier League.

Ranking demonstra que Ligue 1 está equiparada em valor de mercado com outras ligas. Foto: Trivela

Em termos de valor de elenco, a elite do futebol francês é também a quinta colocada, tendo como elencos mais caros o do PSG, avaliado em um bilhão de euros, seguido pelo Rennes, com um elenco avaliado em 321 milhões de euros, pelo Mônaco com 318 milhões e pelo Olympique de Marselha, que tem um grupo de jogadores avaliado em 311 milhões. A média dos times na França supera a Real Sociedad, por exemplo, que tem um valor de elenco na casa dos 375 milhões de euros.

Portanto, pelo menos na capacidade financeira, a Ligue 1 não está tão longe assim das demais grandes ligas do Velho Continente e atualmente é melhor em todos os quesitos que o Campeonato Português, por exemplo, sexta maior liga em termos de valor de mercado e de elenco.

Número de torcedores nos estádios da Ligue 1 tem aumentado

Sem dúvidas a Ligue 1 precisa de um maior investimento para melhorar a competitividade da competição, mas um dado curioso vai contra ao que Jhon Textor teme em relação ao interesse do público na liga. Por mais que a média de público que vai aos estádios na elite do futebol francês seja inferior ao da segunda divisão do futebol alemão, o Campeonato Francês tem batido recordes de média de público nos últimos anos.

Na última temporada, por exemplo, a média de torcida nos estádios foi de 23.810 espectadores, na atual edição, a previsão é que até o fim do campeonato sejam registrados uma média de 26.797 torcedores por partida, contrariando totalmente a reclamação apresentada por Textor. Em 2022/2023, mais de nove milhões de pessoas adentraram aos estádios franceses para acompanhar os 358 jogos da Ligue 1. Além disso, 17 dos 18 clubes que disputam a primeira divisão do futebol francês registraram ocupação de mais de 81% da capacidade de seus estádios.

Segundo levantamento apresentado pela própria Ligue 1, o Olympique de Marseille registrou 62.716 torcedores na última temporada, sendo o clube que mais levou espectadores ao campo, seguido pelo PSG com 47.418 e o Lyon, clube de Jhon Textor, que manteve uma média de 46.701 nos jogos disputados no Groupama Stadium. Portanto, os números mostram que mesmo com a disparidade do PSG em relação aos demais times, o Campeonato Francês continua atraindo torcedores para acompanhar a competição.

Diferença de pontos mostra disparidade técnica nas principais ligas da Europa

Se considerarmos a diferença de pontos somados entre o primeiro e os demais colocados da Ligue 1 e das grandes ligas da Europa, observemos que a disparidade técnica entre os clubes não é exclusividade da elite do futebol francês. Nas últimas cinco temporadas, o PSG venceu por quatro vezes o Campeonato Francês, chegando a somar 16 pontos a mais do que o vice-campeão. Na primeira temporada do período analisado, em 2018/2019 o time da capital francesa foi campeão com 91 pontos, o vice Lille somou 75. Em comparação ao sexto colocado Montpellier, a distância foi ainda maior, 32 pontos.

Mas houve disputas mais parelhas como na última temporada, quando o Paris Saint-Germain fez 85 pontos e o Lens terminou a competição com 84. Na Premier League, o Manchester City também venceu quatro das últimas cinco edições, porém com uma distância de pontos para o segundo colocado um pouco menor. Em 2017/2018, os Citizens e o Liverpool protagonizaram uma das corridas mais emblemáticas pelo título inglês, com o time de Pep Guardiola sendo o campeão com 98 pontos, enquanto os Reds fecharam a competição com 97.

Em 2019/2020 foi a vez do Liverpool comemorar o título de forma incontestável, com 18 pontos à frente do Manchester City, 99 a 81. Os números vieram a se equilibrar novamente na temporada 2021/2022, com os Citizens vencendo a Premier League com 93 pontos, contra 92 do time comandado por Jürgen Klopp. Na Bundesliga, somente em duas temporadas das últimas cinco tivemos uma pontuação parelha entre o primeiro e o segundo colocado.

O Bayern de Munique faturou todas as edições da competição, somando entre 12 e 13 pontos de distância entre 2020 e 2022. Contudo, na temporada 2018/2019 os Bávaros venceram a competição com dois pontos à frente do Borussia Dortmund e na passada igualou a quantidade somada com o mesmo Borussia, levando vantagem apenas no saldo de gols.

Em comparação à La Liga, o equilíbrio se mostra ainda maior. Nas últimas cinco edições, o Barcelona levou o campeonato por duas vezes, o Real Madrid levou duas e o Atlético de Madrid faturou a competição em 2020/2021. A maior distância de pontos registrada entre o campeão e o vice foi em 2021/2022, quando o time Merengue levantou o caneco somando 13 pontos de diferença para o rival catalão e somou 16 pontos para o quinto colocado Bétis.

Fechando a análise de disparidade de pontos entre as principais ligas da Europa temos a Itália. Quatro times venceram as últimas cinco edições do Scudetto. A Juventus foi bi-campeã em 2018/2019 e 2019/2020, enquanto Internazionale, Milan e Napoli venceram a competição nas últimas três edições, respectivamente. A maior diferença registrada aconteceu exatamente no título da equipe napolitana, que fez uma temporada quase perfeita, somando 91 pontos, contra 74 da Lazio e abrindo 28 de diferença para a Juve, que terminou na sétima colocação com 62 pontos.

Ou seja, não é somente na França que existe este distanciamento entre os clubes. Mesmo a Premier League, competição mais disputada do mundo, há temporadas em que o time campeão abre muita distância em relação aos demais rivais, o que não significa dizer que o campeonato é menos ou mais competitivo.

Se ao nível nacional não existe parâmetro, na Europa, clubes da França vão bem

Bom, se o PSG desde que foi adquirido pelo fundo de investimento do Catar conquistou nove das últimas 12 edições da Ligue 1, ultrapassando o Saint-Étienne como maior campeão nacional, em âmbito continental, pelo menos nesta temporada, o futebol francês está bem representado com três clubes disputando as três principais competições do Velho Continente.

Na Champions League, o PSG levou a melhor sobre a Real Sociedad no jogo de ida das oitavas de final, vencendo na França pelo placar de 2 a 0 e tendo a chance de garantir a vaga para as quartas na próxima terça-feira, dia cinco de março, no Estádio Anoeta, no País Basco. Na Liga Europa temos o Olympique de Marselha, que eliminou o Shakhtar Donetsk nos play-offs das oitavas de final e encarará o Villarreal na sequência da competição.

E na Conference League temos o Lille, que passou sem sustos no Grupo A da competição, que tinha como adversários o KÍ Klaksvík de Ilhas Faroe, o Slovan Bratislava, da Eslováquia e o Olimpija Ljubljana, da Eslovênia. Com quatro vitórias e dois empates na primeira fase, o time francês terá o Sturm Graz, da Áustria, como oponente nas oitavas de final.

O valor de mercado da Ligue 1 e o crescente número de torcedores que vão ao estádio acompanhar os jogos da competição in loco, mostra que a principal divisão do futebol francês não é tão “desinteressante” como Textor fez parecer. O bom desempenho dos clubes franceses nas competições europeias mostra também que no cenário europeu, os times da França tem condições de competir no cenário continental.

 

Foto de Lucas de Souza

Lucas de Souza

Esse é Lucas de Souza, redator e repórter do Futebol na Veia e da Trivela. Jornalista especializado em Marketing digital é também narrador do Portal Futebol Interior e da RP2Marketing.
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