Copa da FrançaFrançaLigue 1

Les Herbiers, da terceirona, representará a história sendo escrita na final da Copa da França

Quem esteve no Estádio de la Beaujoire nesta terça não esperava necessariamente o jogo de melhor nível técnico. Queria mesmo ver a história se concretizando a um clube nanico. Les Herbiers e Chambly possuem trajetórias parecidas. Dois times da terceira divisão francesa que viveram ascensões meteóricas nos últimos anos e, apesar do papel de figurantes na liga, buscavam a decisão inédita na Copa da França. O feito já estava ali, naquele estádio para 35 mil pessoas, que poderia abrigar a população de ambas as cidades juntas. Constava em já ter alcançado as semifinais do torneio nacional, uma façanha que nenhum deles esperava, mas que poderia se ampliar. E a chance maior será de Les Herbiers, que venceu o jogo por 2 a 0 e estará na decisão. Atuará no Stade de France, talvez contra o Paris Saint-Germain. O ápice de um clube pequeno, assim como a oportunidade da vida aos jogadores.

As condições dos clubes eram parecidas antes do jogo em Nantes. O Chambly aparece na zona de rebaixamento na terceirona do Campeonato Francês, mas tem apenas três pontos a menos que Les Herbiers, em uma embolada disputa contra o descenso na National. Quando a bola rolou, porém, a festa só teve um lado. Les Herbies abriu o placar aos 28 minutos, em cruzamento para Florian David completar dentro da área. Já na segunda etapa, a história estava sacramentada a dez minutos do fim, quando a defesa adversária parou e o camisa 10 Ambroise Gboho saiu de frente para o gol, anotando o segundo tento.

Nas arquibancadas, muita comemoração. E o mais interessante era notar que a multidão rubro-negra no Estádio de la Beaujoire estava longe de parecer uma torcida comum. Nada mais era do que a população da cidadezinha de 16 mil habitantes, que viajou até Nantes para exibir seu orgulho. Famílias de verdade. Homens e mulheres, crianças e idosos, todos unidos pela mesma causa. Cantaram, pularam, tremularam suas bandeiras. Tiveram o gosto de comemorar com seus jogadores. E embora o vilarejo tenha ficado bastante “desabitado” pela ocasião, os que ficaram em casa acabaram tomando as ruas ao término da semifinal.

Les Herbiers, cujos principais eventos esportivos estão ligados ao ciclismo, se tornará o epicentro do futebol francês nas próximas três semanas, independentemente de quem seja o adversário. A trajetória que mais interessa é a daquele bando de semiprofissionais que alcança o maior dos palcos. Que terá a chance de enfrentar um dos clubes mais ricos da Europa, caso o PSG passe pelo Caen na outra semifinal. O placar da decisão soa como detalhe, ainda que o gosto de uma vitória possa ser inenarrável. O objetivo derradeiro se concentra no “estar”. Fazer acontecer com todas as energias, honrar tantos clubes nanicos que também sonhariam chegar ali, buscar uma vitrine para o futuro de cada jogador.

Fundado em 1919, Les Herbiers passou a maior parte de sua história nas divisões regionais. Somente neste século chegou nos níveis nacionais do Campeonato Francês e precisou esperar 96 anos até alcançar a terceira divisão pela primeira vez. Neste momento, o objetivo na liga é a permanência na terceirona. Mas mirando as benesses que a final da Copa da França pode trazer. Afinal, os pequeninos já passaram por adversários de respeito. Antes da classificação contra o Chambly, eliminaram também Auxerre e Lens, dois clubes que, apesar de figurarem atualmente na Ligue 2, possuem camisas pesadíssimas. Que engrandecem a caminhada espetacular.

Esta será a quinta vez que um clube abaixo da segunda divisão chega à final da Copa da França. Les Herbies segue os passos de Nîmes, Calais RUFC, Amiens e Quevilly. Seus quatro antecessores não conseguiram triunfar na decisão, embora alguns deles tenham ficado próximos da façanha. E, neste momento de expectativa, é melhor não fazer previsões àquilo que acontecerá com os rubro-negros. Melhor esperar e deixá-los viver, num misto de ambição e ansiedade, o que Saint-Denis proporcionará. Um episódio belíssimo do futebol francês terminará de ser escrito ali. Mas, antes disso, já estão felizes para sempre.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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